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Quem comeu a comida do jacaré?

Artigo do secretário do Meio Ambiente do Maranhão, Fernando César Mesquita, criticando o governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, pela caça indiscriminada ao jacaré.

Fernando César Mesquita

O governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, pegará em armas, se confirmar a ameaça de internacionalização da Amazônia, tida como certa por ele e pelo comandante do Exército na área, general de quadro estrelas Antenor de Santa Cruz. Estrategista, o militar combaterá os invasores com as táticas de guerrilha empregadas pelos vietcongs no Vietnã, conforme já antecipou à imprensa. Por outro lado, Mestrinho treinará suas tropas, antes de iniciadas as hostilidades, exercícios de tiro ao jacaré, com o que unirá o útil ao agradável: adestrará seu pessoal e vingar-se-á dos malvados répteis que estão devorando ribeirinhos desavisados. 

E quer fazê-lo a título de manejo ecológico. Se há perigo de intervenção estrangeira, somente o general e o governador tiveram acesso às informações oficiais. De qualquer modo, os dois riscos – à integridade territorial e aos caboclos -, verdadeiros ou não, demonstram o emocionalismo, o folclore e a demagogia que ainda contaminam as discussões a respeito do uso sustentado dos recursos naturais de um área com cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados. São florestas, campos, cerrados e outros ecossistemas a respeito dos quais pouco se conhece. Por enquanto, ficamos com slogans tipo “integrar para não entregar” ou “o caboclo é nosso”, como disse Mestrinho. 

Seria ingenuidade afirmar que as nações ricas não cobiçam a Amazônia, principalmente por seu subsolo riquíssimo e pela biodiversidade de suas florestas. Seria, também, ingênuo achar que o governo, em qualquer época, administrou adequadamente suas riquezas. Planos foram implantados, sem preocupações ecológicas, haja vista a política de incentivos fiscais para projetos agropecuários. Erros foram cometidos, mas os governantes não aprenderam que é necessário mudar atitudes e práticas administrativas. Não é segredo para ninguém a carência de recursos para investimentos em pesquisas, fato que retrata uma triste realidade, pois entidades internacionais sabem mais sobre a Amazônia do que nós, brasileiros. Daí, talvez, a razão da cobiça. 

O país não faz o que deve e imagina que pode conquistar corações e mentes com surradas palavras de ordem ou pronunciamentos “soberanosos e nacionalisteiros”. Assim, enquanto o governo não leva a Amazônia a sério, com propostas realísticas e aloca recursos substanciais para estudos e pesquisas com começo, meio e fim, o único caminho é tentar reduzir os índices de devastação. Como também não se gasta o mínimo indispensável em educação ambiental, imprescindível para mudar hábitos e costumes da população, o remédio é aplicar a legislação contra quem pratica crimes ecológicos.

Já ouvi críticas à atuação do Ibama na Amazônia pela maneira dura como agem seus fiscais. Lamentavelmente, não há outro jeito. Na verdade, a maioria das pessoas que exploram recursos naturais na região o fazem em desacordo com as normas legais. Digo com a autoridade de quem, durante pouco mais de um ano, presidiu o Ibama e examinou centenas de atuações, participou de reuniões e percorreu os pontos mais agredidos pelo homem. Ninguém quer manter as áreas de preservação permanente; derrubam matas ciliares ou de galerias; desmatam e queimam, desprezando a orientação técnica do Ibama. E as minerações, que deveriam por lei reabilitar as áreas degradadas, só o fazem se intimadas. 

Quando o governador Mestrinho prega o extermínio dos jacarés famintos, esquece que é preciso investigar, por exemplo, quem comeu a comida do jacaré. Lembro-me de quando resolvemos fazer valer o defeso à pesca (proibição da atividade em certa época) no Rio Amazonas. Políticos, empresários e sindicatos encetaram campanha contra o Ibama. Mantivemos a proibição com muito esforço, demonstrando que os pescadores se prejudicariam mais tarde, com a extinção de algumas espécies de peixe. Reduziriam seus ganhos dois ou três meses, mas seria melhor que deixar de pescar de vez no futuro. Por fim, é obvio que o homem é o ser mais importante da natureza e não pode morrer de fome. Não admitimos é que se destrua a vida em nome de meias verdades. E, se não houver controle rigoroso, vão destruir mesmo.