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Salvando tartarugas marinhas

Biólogos, oceanógrafos e pescadores trabalham duro para preservar as cinco espécies de tartarugas marinhas que desovam nas praias brasileiras

Durante toda a sua existência, que pode chegar a 100 anos, a tartaruga marinha só vai à terra firme para desovar. Numa visita noturna, ela procura um lugar mais seco na areia para proteger seus ovos da maré salgada. Se algum estranho está por perto, a mãe zelosa volta para a água. Mais tarde, talvez até em outro dia, sentindo-se segura, ela arrasta, de novo, seus 200 quilos pela praia e começa a cavar o ninho com suas nadadeiras traseiras. A tarefa deixa a fêmea em um tal estado de transe, a ponto de não ser capaz de notar a aproximação de um pescador. Atenta à centena de ovos que despeja, ela pode até ser degolada, sem esboçar qualquer reação. Esse triste episódio, hoje em dia, virou raridade no litoral brasileiro. Graças ao Projeto Tartaruga Marinhas (Tamar), um dos mais bem-sucedidos trabalhos de proteção a animais em extinção no país.

Há quinze anos, um grupo de estudantes de Oceanografia da Fundação Universidade do Rio Grande viajou para o Atol das Rocas, 240 quilômetros do Norte. à noite, durante um passeio pela praia, os estudantes precisaram uma cena grotesca: doze tartarugas fêmeas estavam viradas, enquanto um pescador degolava uma a uma. Eles tiraram fotos da matança, para enviar ao Zoológico do Rio Grande do Sul. A princípio, a denúncia não teve maiores efeitos. No início dos anos 80, contudo, por motivos diversos, entidades internacionais começaram a pressionar o Instituto Nacional de Desenvolvimento Florestal (IBDF)—atual Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) —para que fossem implantados projetos de proteção à fauna marinha.O então diretor do IBDF, Roberto Petry Leal, que havia trabalhado no zoológico gaúcho, lembrou-se das fofos entregues pelos estudantes, quatro anos antes. e procurou o grupo para propor um levantamento da fauna no litoral brasileiro. Assim, em 1980, junto com uma equipe de biólogos, o casal de oceanógrafos Guy e Maria Angela Marcovaldi, mais conhecida como Neca, partia em uma viagem de dois anos pelas costas brasileiras, para localizar áreas de ocorrência de tartarugas marinhas.

Nascia o Projeto Tamar, que atualmente, sob a coordenação dos dois pesquisadores, fiscaliza nada menos de 600 quilômetros de praias—90% da área de desova das tartarugas marinhas no país. A sede, instalada em 1982 na Praia do Forte, a 100 quilômetros de Salvador, na Bahia, não possuía sequer um carro para patrulhar as praias. “Nós usávamos um jeguinho”, recorda Guy.Hoje, amparado em verbas de entidades internacionais e com o patrocínio do governo federal, o projeto já implantou dezesseis bases litorâneas. Em cada uma das bases, estagiários percorrem as praias à noite para proteger as fêmeas, identificadas com uma etiqueta metálica na nadadeira. com a inscrição do Tamar e um pedido de comunicação à sede caso o animal seja encontrado— é a única maneira de conhecer o roteiro de suas grandes viagens. Das oito espécies existentes no mundo, cinco delas foram encontradas nas praias brasileiras. Contemporânea dos dinossauros, a tartaruga marinha acompanhou todas as transformações do planeta nos últimos 150 milhões de anos. Ironicamente, o instante que representa o esforço em preservar a sua espécie—a reprodução—torna a tartaruga marinha vulnerável.Solitários e protegidos em alto-mar, machos e fêmeas têm encontro marcado apenas na época do acasalamento. 

Para acasalar-se, o macho prende-se ao corpo da companheira usando, como ganchos, as duas unhas de sua nadadeira. Na fúria do amor, que pode durar até três horas, a fêmea acaba com profundos cortes na carapaça e no pescoço. O jogo de sedução é aproveitado perversamente pelos pescadores: para atrair os machos, são lançados bonecos de madeira semelhantes às fêmeas. Eles se agarram aos bonecos, e são facilmente puxados para os barcos. Se os machos, porém, muitas vezes conseguem livrar-se dessas armadilhas, as fêmeas dificilmente têm a mesma chance, quando saem para a desova. Por isso, os cientistas supõem que, em todo o mundo, a quantidade de fêmeas já é muito menor do que a de seus colegas de sexo oposto. Para assegurar a procriação nas praias brasileiras, os participantes do Projeto Tamar não só cuidam das fêmeas, como protegem os seus ovos, recolhidos e reenterrados em cercados para a incubação, com o cuidado de reproduzir as condições da praia onde foram depositados. Parece uma tarefa simples, mas a resistência dos pequenos e pobres povoados próximos às regiões de desova, no inicio, representou um grande obstáculo. A tartaruga marinha fazia parte do cardápio dos moradores, que também comiam os ovos, colhidos com facilidade. 

O hábito exigiu um trabalho árduo de conscientização, com direito a sessões de vídeos sobre tartarugas, passeios de jipe nas áreas de patrulha e, ainda, aulas para crianças sobre a importância de preservar aquelas espécies. O efeito acabou sendo notável: “Antes, tartarugueiros eram aqueles pescadores que ofereciam carne de tartaruga e ovos à comunidade: hoje, o sentido é outro—eles são os fiscais do Tamar, recebendo salários para recolher os ovos e levá-los para os cercados”, orgulha-se Marcovaldi.Passadas seis horas da postura, o embrião se fixa dentro do ovo, que tem o tamanho de uma bola de pingue-pongue. Ou seja. a partir daí,. qualquer rotação pode desprendê-lo do vitelo, a substância que o alimenta—essa separação significa a sua morte. Por isso, o tartarugueiro retira delicadamente os ovos, tomando o cuidado para mantê-los na posição original, acomodando-os em uma caixa de isopor, preparada com areia do mesmo local. Em seguida, ele percorre a praia até a área sob a responsabilidade de outro pescador, para Ihe entregar a caixa. É uma corrente humana: o percurso se divide em 5 a 6 quilômetros para cada tartarugueiro até a base mais próxima, onde os ovos serão reenterrados.Com os ovos protegidos nos cercados, uma nova etapa começa. Como na maioria dos répteis, não são os genes que definem o sexo dos filhotes: é a temperatura média do ambiente que, ao agir sobre certas enzimas, determina se o embrião será macho ou fêmea. Para assegurar o equilíbrio das ninhadas, a temperatura da areia nas incubadeiras do Tamar está sempre sendo monitorada. 

Os olhos azuis da estagiária Débora Faria faíscam quando exemplifica o processo de definição sexual das tartarugas marinhas: “Para uma das espécies, a cabeçuda, se a temperatura média da areia estiver em torno de 28° Celsius, a ninhada será toda de machos; se estiver entre 28° e 32°, a ninhada será mista; e, com a temperatura acima dos 32°, nascerão exclusivamente fêmeas”. Como os outros estagiários do Tamar, Débora, uma loira esguia, estudante de Biologia na Universidade de São Paulo, é obrigada a passar o Natal, o Ano-Novo e o Carnaval longe da família, defendendo as tartarugas—nas costas brasileiras, as fêmeas desovam justamente entre setembro e março. “A variação da temperatura no período, da primavera ao verão, provoca um efeito curioso: o número de machos e fêmeas nascidos termina praticamente igual, conta Débora.Na Praia do Forte, uma das principais atrações turísticas é a própria sede do Projeto Tamar, onde tartarugas filhotes e jovens ficam expostas em tanque. Ali, os ninhos estão protegidos com grades de plástico, por causa de antigos predadores que voltaram a atacar—as raposas, numerosas na região. “Logo que a população de tartarugas volte a ser estável, a predação natural precisará ser permitida”, esclarece o coordenador Guy Marcovaldi. “Nossa meta é, no futuro, não ter de interferir em nada.”Não basta, porém, proteger os ovos: os filhotes também correm risco nas praias. De cada ninho enterrado, aproximadamente sessenta dias depois da postura, emerge na areia uma centena de tartaruguinhas, com 20 gramas e cerca de 5 centímetros de comprimento cada. 

Elas vão puxando areia para dentro do ninho, que tem cerca de 50 centímetros de profundidade, até chegarem à superfície. Devem chegar todas juntas—qualquer retardatária estará inapelavelmente condenada à morte. No percurso até o mar —cuja distância chega a 15 metros—os caranguejos são os principais inimigos a evitar, fora aves e raposas famintas.Para os recém-nascidos, há ainda o desafio de localizar o oceano: as pequenas tartarugas, mal saem da areia, levantam a cabeça e procuram no escuro da noite a brancura da espuma do mar. Por serem espécies pecilotermas, isto é, não têm temperatura própria e dependem do calor ambiente para a velocidade de seu metabolismo, os filhotes saídos do ninho quente estão cheios de energia para correrem alucinados até a água. Mas as lâmpadas de eventuais habitações próximas ao local de nascimento costumam desorientá-los. Caso se percam, arriscam-se a ver a luz do dia sem ter encontrado o mar—e o sol a pino pode matá- los de desidratação. Uma vez na água, os filhotes de tartarugas nadam vinte horas em linha reta: não param por nada, nem para conseguir alimento. Afinal, vale tudo para fugir das ondas que os devolveriam à praia. “Em mar aberto, os filhotes podem nadar 20 metros por minuto”, conta Débora Faria.O destino dessa primeira viagem ninguém conhece. Os filhotes, até hoje, só são localizados no oceano com mais de 1 ano de idade. Alguns relatos de pescadores, no entanto, apontam o Mar de Sargaços, no Oceano Atlântico, a oeste das Ilhas Bahamas, como o provável berçário das jovens tartarugas. 

Seria, de fato, um lugar adequado para aguardar o primeiro aniversário. Pois, quando são muito pequenas, as tartarugas não conseguem mergulhar fundo em busca de alimento. No Mar de Sargaços, ao menos, existe uma densa camada de algas, onde elas poderiam viver apoiadas, comendo pequenos crustáceos. Mas é apenas uma hipótese.”Os filhotes libertados nas dezesseis bases do Projeto Tamar, espantosamente, quando chegarem à maturidade —daqui a quinze ou trinta anos, dependendo da espécie—, retornarão à mesma praia em que nasceram para desovar” explica o biólogo Maurício Marczwski. ” É a tradição das tartarugas marinhas.” Enquanto não chega esse momento, elas navegam enormes distâncias em alto-mar, migrando para áreas de alimentação. Uma tartaruga artilhada no ano passado na Reserva Biológica de Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte, foi encontrada seis meses depois no Senegal, no oeste da África—a nada menos de 3 680 quilômetros de distância. Se ela não tivesse sido morta, retornaria para o Brasil na época da desova. 

Essa assombrosa memória ainda é um mistério. O olfato, contudo, parece ser o grande sinalizador: a tartaruga marinha reconheceria o caminho de volta à praia natal pelos cheiros dos animais e plantas identificados no seu trajeto quando filhote. Há ainda a suspeita de que ela se oriente pelos astros, conferidos cada vez que vem à superfície para respirar. “A visão deve ser o seu sentido mais desenvolvido”, acredita o oceanógrafo Guy Marcovaldi. “Quando chegamos perto, as tartarugas colocam a cabeça para fora d’água para olhar a nossa cara.”Nesses dez anos, os biólogos, os oceanógrafos e os tartarugueiros do Projeto Tamar povoaram as costas brasileiras com nada menos do que 750000 filhotes. São tantos os riscos e mistérios do mar que, sabe-se, de cada 1000 dessas pequenas tartarugas, apenas uma ou duas sobreviverão—sem levar em conta as armadilhas humanas. Daqui a duas ou três décadas, contudo, as fêmeas sobreviventes voltarão à praia brasileira em que nasceram. Serão então bem recebidas pelos moradores, que um dia foram crianças educadas por participantes do Tamar sobre a importância desses fabulosos répteis.

 

 

 

 

 

Para saber mais:

A multinacional da ecologia

(SUPER número 4, ano 5)

 

 

 

 

 

 

Apertando os cintos

Seis de cada 10 cruzeiros gastos para sustentar o Projeto Tamar costumavam vir do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão federal que, no início deste ano, teve 90% de suas verbas cortadas. Resultado em cifrões: desta vez o Ibama só poderá contribuir com 21 milhões de cruzeiros dos 160 milhões previstos para manter o projeto em 1991. “A situação do país não dá alternativa”, lamenta o médico veterinário Jordan Wallwuer, chefe da Divisão de Fauna e Flora do Ibama. O Tamar conta ainda com o patrocínio de empresas e, além disso. deverá arrecadar cerca de 200 000 dólares—um quinto da verba necessária—com a venda de produtos como posters, camisetas, broches e adesivos.Finalmente, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) também contribui financeiramente com o projeto brasileiro. “Nossos recursos, neste ano, cresceram menos, por falta de doadores”, conta Cleber Alho, representante do WWF no Brasil. “Mas o apoio à preservação das tartarugas deve ser considerado intocável.”Mesmo assim, para o coordenador do projeto, Guy Marcovaldi, o Tamar corre risco: “Nesses dez anos, nós sempre expandimos. Agora, vamos estagnar ou até diminuir nossa área de atuação”.

 

 

 

 

 

Os tipos de tartarugas

Cabeçuda (Caretta caretta)

É a espécie mais numerosa no Brasil, desovando em quase todo o litoral—no Espírito Santo, recebe o nome indígena careba. A adulta mede mais de 1 metro de comprimento e chega a pesar 180 quilos. Seu nome é merecido: possui mandíbulas grandes e fortes, semelhantes a um bico de pássaro, adaptadas para quebrar qualquer tipo de concha. Afinal, mariscos são seu prato predileto.

 

 

Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata)

É a principal vítima dos pescadores: sua bela carapaça, com placas negras sobrepostas sobre um fundo amarelo, é vendida para indústrias de pentes e bijuterias. De tamanho médio, ela tem entre 78 e 90 centímetros de comprimento e pesa até 150 quilos. Desova no Oceano Índico e na parte ocidental do Pacífico. No Brasil,ela geralmente põe seus ovos no litoral baiano.

 

 

Lepidochelys olivacea

A menor das tartarugas marinhas brasileiras—ela tem, no máximo 65 centímetros de comprimento e seu peso raramente excede 60 quilos, graças à carapaça fina—ainda não tem nome popular. A mandíbula frágil só consegue mastigar pequenos moluscos. Seu local predileto para a desova é a Praia de Pirambu, 30 quilômetros ao norte de Aracaju, em Sergipe.

 

 

Tartaruga-verde (Chelonia mydas)

Também chamada de aruanã, ela gosta de desovar em ilhas oceânicas. No Brasil a maioria dos ninhos foi registrada em Fernando de Noronha ,na Ilha de Trindade e no Atol da Rocas. Mas é na Costa Rica que a espécie se encontra em maior quantidade. Com mais de 1 metro de comprimento e pesando cerca de 300 quilos, é a única tartaruga marinha que prefere uma dieta exclusivamente à base de algas.

 

 

 

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)

Ela pode alcançar 2 metros de comprimento e 800 quilos. Possui uma carapaça de gomos flexíveis, semelhantes à borracha. Sua gordura é cobiçada para impermeabilizar barcos e servir de combustível para lamparinas. Grande mergulhadora,hoje a tartaruga-de-couro é rara em todo o mundo. A maioria desova na Guiana Francesa. No Brasil, neste ano, foram registradas três tartarugas no Espírito Santo.

 

 

Lora (Lepidochelvs kempi)

Além de ser a única tartaruga marinha que desova em plena luz do sol, os ninhos da pequena lora—ela tem pouco mais de 60 centímetros de comprimento e cerca de 45 quilos—têm apenas um endereço: a Praia de Rancho Nuevo, no México. Juntas, todas as tartarugas da espécie aparecem nessa praia no mesmo dia, três vezes por ano, sempre às vésperas de tempestades.

 

 

Tartaruga-negra (Chelonia agassizi)

A carapaça da tartaruga-negra é a mais arredondada em comparação com outras espécies, e pode chegar a 90 centímetros de comprimento e 65 quilos. As llhas Galápagos no Pacífico, a 965 quilômetros do Equador, receberam esse nome por causa da enorme quantidade desses répteis na região—em espanhol arcaico, galápago significa tartaruga. É ali. aliás, que essa espécie costuma desovar.

 

 

Chelonia depressa

Um pouco menor do que a tartaruga-verde, a Chelonia depressa, que aparece nas costas australianas, possui a carapaça larga, com bordas viradas para cima e uma depressão no centro. Seus ovos são os maiores e os mais pesados de todas as espécies de tartarugas. Por isso, dificilmente são atacados por predadores como caranguejos, que não conseguem arrastá-los para suas tocas.