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Como surgiu (e como jogar) a famosa Tábua de Ouija

Artefato possui regras detalhadas para evitar espíritos malignos, mas sua origem não tem mistério: foi criado para empresários ganharem dinheiro

Criado no fim do século 19 para capitalizar em cima da moda de contatar os mortos, item gerou lucros, medos e polêmicas. Conheça a história do artefato, saiba como usá-lo e conheça casos de quem já brincou com o perigo.

A HISTÓRIA

 (João Tila/Mundo Estranho)

1) O tabuleiro de Ouija está diretamente relacionado ao espiritualismo, que surgiu como um movimento religioso em 1848 e virou religião em 1893. O espiritismo, comum no Brasil, surgiu na mesma época, em 1857. Em comum, as religiões partilham a crença em espíritos e na possibilidade de comunicação com eles. Nessa época, médiuns e sessões espíritas eram coisas comuns e aceitas pela sociedade

2) Em meio a esse contexto de mediunidade disseminada, acessórios para mediar o contato com os mortos eram normais. Os tabuleiros de fala (“talking boards”), com o alfabeto impresso, já faziam sucesso nos EUA do século 19, mas foi em 1890 que o empresário Elijah Bond teve o estalo de vender um desses junto a uma prancheta que deslizasse sobre as letras. William Fuld, um de seus funcionários, logo começou a produzir as próprias tábuas e é creditado como responsável por popularizar o jogo

3) Ninguém sabe direito de onde veio o nome “Ouija”. O folclore em torno do item aponta que seria uma junção das palavras “sim” em francês e alemão – “oui” e “ja”. Segundo o historiador Robert Murch, o nome teria sido sugerido pela própria tábua em uma sessão de Elijah Bond com sua cunhada, Helen Peters. Mas é bem provável que essa manifestação tivesse a ver com o colar que Helen usava naquele momento, contendo uma foto de uma mulher ativista chamada Ouida

4) Foi durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) que a popularidade do tabuleiro de Ouija cresceu, principalmente entre católicos. No contexto de incertezas e mortes, cresceu nas pessoas o desejo de saber sobre o futuro e contatar entes queridos falecidos. Preocupado, o Papa Pio X convocou, em 1919, o “investigador psíquico” J. Godfrey Raupert para alertar os fiéis sobre os ricos do jogo. Foi nessa época que ele publicou o livro A Nova Magia Negra e a Verdade Sobre o Tabuleiro Ouija, relacionando o tabuleiro à magia negra

5) Foi o livro O Exorcista, de William Blatty, que, em 1971, mudou a fama do jogo. É que o autor se inspirou no caso real de um garoto do estado de Maryland que teria entrado em contato com um demônio por meio do jogo em 1949 e, depois, teria sido possuído pela entidade. Com isso, de instrumento para falar com os mortos, a tábua de Ouija virou um artefato de invocação demoníaca. A adaptação cinematográfica de 1973 só aumentou essa fama

6) Com o tempo, o uso do tabuleiro deixou de estar associado à religião e ficou mais ligado ao ocultismo – os católicos, por exemplo, hoje condenam o item. Mas ele continua popular, sendo o tema de filmes como Ouija (2014) e tendo vendido a quantidade estimada de pelo menos 25 milhões de unidades na história. É fácil achar o tabuleiro em lojas de brinquedos – a dona atual da patente é a gigante Hasbro

7) Existe uma explicação científica para o movimento que rola no jogo. Chama-se efeito ideomotor – a influência da sugestão sobre comportamentos motores involuntários. Em seu livro Pseudociência e o Paranormal, de 1988, o professor de neurologia Terence Hines escreve: “A prancheta é guiada por exerções musculares inconscientes. A ilusão de que o objeto está se movendo sozinho é geralmente extremamente poderosa e suficiente para convencer muitas pessoas que realmente há espíritos trabalhando”

AS REGRAS

O regulamento considerado oficial foi determinado pela companhia Novelty Kennard, a primeira empresa a patentear o jogo, em 1891

 (João Tila/Mundo Estranho)

1) O ideal é jogar em dupla, mas, quanto mais pessoas no grupo, mais agitado será o jogo. A principal dica aqui é: nunca jogue sozinho ou no cemitério. De acordo com a cultura popular, a falta de companhia facilita que os espíritos atormentem os jogadores. E desde o século 16, e principalmente a partir do 17, é superstição comum entender que cemitérios são frequentados por espíritos

2) Antes de contatar os espíritos, é bom montar um clima para o jogo, o que inclui esperar anoitecer, apagar as luzes e acender velas e incensos. Para conversar com algum parente específico, o que pode ajudar é decorar o tabuleiro com joias e outras relíquias do falecido

3) Eleja uma pessoa para ser o médium, espécie de porta-voz do grupo. A tábua pode ser colocada em cima dos joelhos de dois participantes ou de uma mesa. Os jogadores devem estar dispostos nas laterais ou centrados na base da tábua, mas o motivo é a praticidade – ver o tabuleiro de cabeça para baixo pode deixar a mensagem confusa

4) Todos os participantes devem colocar os dedos indicador e médio na prancheta. No início da partida, a peça deve estar localizada na letra G (outro mandamento da cultura popular sem explicação). Há casos em que o tabuleiro precisa de um certo tempo para começar a responder. Se demorar demais, uma possível solução é mover a prancheta em círculos

5) Comece o diálogo de maneira simples, aumentando a complexidade das perguntas aos poucos. Algumas sugestões: Quantos espíritos há nessa sala? Você é um bom espírito? Qual é o seu nome? Para bons resultados, todos precisam se concentrar apenas nas questões do jogo. É bom alguém anotar os movimentos da prancheta para que as informações não sejam esquecidas

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6) A forma padrão de encerrar o jogo é dizer “adeus”. Mas podem rolar imprevistos. Segundo o médium Leonardo Trevisan, jogos como o Ouija costumam atrair espíritos brincalhões ou que possuam moral pouco elevada. Se a prancheta passar pelos quatro cantos do tabuleiro, significa que um espírito maligno está presente. Se a peça fizer um oito sem parar, é sinal de que o espírito maligno está no controle do tabuleiro

7) Quando o espírito tem o comportamento estranho descrito na legenda anterior, deve-se presumir que ele pretende escapar do tabuleiro. Se isso acontecer, o principal risco é o de os jogadores serem atormentados por tempo indeterminado. Existe também o risco de possessão, mas apenas em casos extremos. Para prevenir, encerre o papo: vire o tabuleiro de cabeça para baixo ou conte de Z a A (ou de 9 a 0)

CASOS TENEBROSOS

Conheça quatro histórias reais (e assustadoras) ligadas à tábua de Ouija

 (João Tila/Mundo Estranho)

A ameaça do espírito
A morte do pai da escocesa Angela Jackson, em 2008, foi um gatilho para deixá-la obcecada com vida após a morte. Durante uma reunião espiritualista, o falecido disse a ela, segundo a médium: “Você está pensando em usar o tabuleiro Ouija, mas não faça isso. Nada de bom vai vir disso”. Ela ignorou o alerta e fez uma partida com amigos. Nela, a prancheta soletrou seu nome e, em seguida, a frase “morra vadia”. Meses depois, a mulher foi atacada por um homem que disse a mesma frase antes de dar marteladas em sua cabeça. Angela sobreviveu e prestou queixa na polícia, mas ninguém foi preso ou considerado suspeito

Os turistas possuídos
Em 2014, três jovens foram hospitalizados na cidade de San Juan Tlacotenco, no México, alegando possessão por espíritos malignos. Alexandra Huerta jogava uma sessão com a tábua de Ouija junto a seu irmão Sergio e ao primo Fernando Cuevas quando começou a grunhir e se movimentar de maneira “estranha”. Logo depois, Sergio e Fernando sofreram perda de sentidos e alucinações. Os jovens foram socorridos por paramédicos, que aplicaram analgésico, calmante e colírio

Ordenados a matar
Em 2007, os jovens Joshua Tucker e Donald Schalchlin perguntaram a um espírito, por meio de um tabuleiro Ouija, se eles deveriam se tornar serial killers. A hipotética alma desencarnada disse que sim e ordenou que a primeira pessoa que matassem fosse uma mãe. No mesmo mês, Tucker assassinou a mãe e a irmã de Schalchlin a facadas. Donald auxiliou Joshua nos crimes, escondendo o corpo da irmã. Os dois tentaram fugir, mas foram pegos pela polícia. Schalchlin recebeu a pena de 9 anos e meio e Tucker de 41 anos

Possessão maligna
O norte-americano Gary Gilmore assassinou dois homens a tiros em 1976, em Utah, nos EUA. Ele foi preso pelo crime e pediu para ser executado, o que aconteceu no ano seguinte. Em 1994, seu irmão Mikal publicou um livro falando sobre sua infância. Segundo ele, sua mãe Bessie acreditava que havia entrado em contato com um espírito maligno quando criança durante uma partida de Ouija. Ela dizia que esse espírito se prendeu à sua família, principalmente em Gary. Para Bessie, foi o espírito que levou o filho a cometer os assassinatos

CONSULTORIA Leonardo Pires Trevisan, médium de psicografia da Associação Espírita Vila dos Amigos
FONTES Livro História – o mundo por um fio: do século XX ao XXI, de Ronaldo Vainfas, Georgina Silva dos Santos, Jorge Luiz Ferreira e Sheila Siqueira de Castro Faria; Sites Galileu, The Daily Dot, Museum of Talking Boards, The Skeptic’s Dictionary, Smithsonian, WeMystic, The Paranormal e Nerdist