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Qual a origem da lenda do lobisomem?

Quase todas as culturas antigas tinham lendas que misturavam homem e animal, como forma de explicar, por exemplo, crimes violentos e surtos de fúria

 (Doug Firmino/Mundo Estranho)

pergunta Reginaldo Marins, Ponta Grossa, PR

NASCE O LINCANTROPO
Referências a homens-lobo aparecem nas obras de filósofos antigos, como Heródoto, Pausânias e Plínio, o Velho. Na mitologia grega, existe a história do rei Licaão da Arcádia, que fez Zeus comer as vísceras cozidas do próprio filho. Para puni-lo, o deus o transformou num lobisomem. É dele que vem o termo “licantropia” (a habilidade mágica de se transformar nessa criatura).

SE FICAR, O BICHO PEGA…
Quase todas as culturas antigas tinham lendas que misturavam homem e animal, como forma de explicar, por exemplo, crimes violentos e surtos de fúria. Onde não havia lobos, o folclore envolvia outros predadores. Em países africanos, são comuns relatos de pessoas que viram hienas, crocodilos, leopardos, leões e panteras. Na China, tigres. No Japão, raposas. Na Rússia, ursos.

… SE CORRE, O BICHO COME
No folclore turco, os xamãs se transformam num lobo humanoide após longos e árduos rituais. Já na Suécia, os lobisomens eram, na verdade, mulheres idosas de unhas venenosas, capazes de paralisar o gado e as crianças com um simples olhar. No Haiti, eles eram conhecidos como Jé-rouge (olhos vermelhos) e roubavam crianças no meio da noite para passar adiante sua maldição.

 

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CONCEITOS PARECIDOS
Apesar de variações locais, alguns elementos são comuns. A transformação ocorre depois que o indivíduo é amaldiçoado, atacado por um lobo ou lobisomem ou passa por um ritual (como beber uma poção ou vestir a pele de um lobo). Na maioria das narrativas, ao voltar à forma humana, ele se torna fraco e deprimido. A prata como ponto fraco veio do folclore europeu do século 19.

A PROVA DO CRIME
Segundo pesquisadores, é no Satiricon que está o primeiro registro da lenda com os elementos que hoje consideramos clássicos. Essa obra de ficção do romano Petrônio, do século 1, inclui a história de um soldado que, sob a lua cheia, vira um lobo, invade uma casa e é ferido no pescoço. Seu segredo é revelado quando, na manhã seguinte, ele aparece com um ferimento no mesmo lugar.

MENINOS, EU VI
Outro livro fundamental para a fundação do mito é Otia Imperialia, escrito por Gervásio de Tilbury no século 13. Na obra, o inglês afirma que esses monstros são parte do cotidiano da Europa medieval e cita dois casos de homens com essa maldição. Tudo “verídico”, segundo ele. Uma das histórias, inclusive, teria sido contada a ele pelo próprio lobisomem. Sei…

NO BANCO DE RÉUS
Na Idade Média, assim como as bruxas, supostos lobisomens foram submetidos a julgamentos pela Igreja. As acusações geralmente envolviam magia negra e satanismo, mas também canibalismo, incesto, abuso sexual e profanação de túmulos. Os casos mais famosos são o do alemão Peter Stumpp, o Lobisomem de Bedburg, executado em 1589, e o de Hans, o Lobisomem, levado a júri em 1651, na Estônia. Para alguns pesquisadores, nessa época a lenda pode ter sido usada para explicar assassinatos em série, por exemplo.

 

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MONSTRO SAGRADO
Também durante a Idade Média, corria o boato de que esses seres da noite, na verdade, eram excomungados pela Igreja. Mas nem sempre a habilidade de transformar-se em lobo foi vista como maldição: algumas narrativas da época afirmam que Deus até havia transmitido esse “dom” a alguns santos católicos, como São Tomás de Aquino e São Patrício.

FENÔMENO POP
No começo do século 20, a fera aparece em vários romances e contos de horror. Bram Stoker, autor de Drácula, chegou a escrever um rascunho com o vampiro e o bicho. O grande clássico com o personagem, porém, viria em 1933: O Lobisomem de Paris, de Guy Endore. Na sétima arte, foi O Lobisomem (1941), de George Waggner, mas já havia filmes de licantropos desde o cinema mudo.

É GRAVE, DOUTOR?
Existe licantropia na vida real? De certa maneira. O termo também designa uma doença psiquiátrica raríssima, com cerca de 30 casos registrados até hoje. Sob determinadas circunstâncias, o paciente acredita ser um lobo ou outro animal – há relatos de quem se diz um sapo, uma cobra e até uma abelha. Os enfermos chegam a rosnar, uivar, grunhir e andar de quatro.

 

FONTES Livros The Werewolf Delusion, de Ian Woodward, A Lycanthropy Reader: Werewolves in Western Culture, de Charlotte F. Otten, Metamorphoses of the Werewolf, de Leslie A. Sconduto, e The Book of Werewolves, de Sabine Baring-Gould; sites How Stuff Works e Medievalists.Net