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A ditadura do futebol

Hitler, Pinochet e Mussolini jamais jogaram uma Copa. Mas tiveram papel de destaque em alguns jogos.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h14 - Publicado em 30 abr 2006, 22h00

Marcelo Orozco

Reinoso dá a saída para Chamaco Valdés, que rola para Caszely. Ele passa para Crisosto e a tabela continua até a área, onde Valdés chuta de bico. Gol. O gol da classificação do Chile para a Copa de 1974. Chile 1 x 0… ninguém!

No total, a linha de passe teve 13 passes em menos de 30 segundos. Seria um fantástico gol relâmpago se houvesse outro time em campo naquele 23 de novembro de 1973, no Estádio Nacional de Santiago. Em tese, a equipe da União Soviética deveria estar ali para o jogo de repescagem envolvendo um sul-americano e um europeu. Mas, dois meses antes, o general Augusto Pinochet havia tomado o poder no Chile num golpe de Estado. O presidente esquerdista Salvador Allende morreu durante a ação. Nas semanas seguintes, milhares de pessoas foram presas, torturadas ou mortas (muitas vezes, as 3 opções). O Estádio Nacional servia de campo de concentração improvisado, com uma área de execução no círculo central.

A decisão da vaga para a copa logo se transformou em imbróglio diplomático – maior potência comunista da época, a URSS apoiava o governo socialista de Allende e se recusou a viajar ao Chile de Pinochet.

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Para sacramentar que foi a URSS quem fugiu da disputa, os chilenos mantiveram o jogo. Num domingo ensolarado, o Estádio Nacional teve seus prisioneiros retirados e cerca de 20 mil torcedores ocuparam as arquibancadas. A “partida” durou apenas até o “gol”. Em janeiro de 1974, a Fifa oficializou a vaga chilena numa votação especial. Na copa, o Chile não se deu bem. Perdeu um jogo, empatou dois e foi eliminado. A jornada da seleção acabou aí. O mandato de Pinochet se estenderia até 1990.

O nazismo e a bola – 1

O futebol alemão caminhou de braços dados com o regime de Hitler. Lançado em 2005, o livro Fussball Underm Hakenkreuz (“O Futebol sob a Suástica”, sem versão em português) dissecou a colaboração da federação alemã e de quase todos os clubes com o governo nazista. A conclusão: apenas o Bayern de Munique, que tinha fama de “clube dos judeus” por acolher atletas perseguidos, não se engajou no projeto nazista. Seu presidente, Kurt Landauer, chegou a ir para um campo de concentração. Mas ele era exceção. O técnico Sepp Herberger, por exemplo, se associou ao Partido Nazista em 1933 e assumiu a seleção em 1937. Continuou no cargo mesmo após a guerra – e foi campeão mundial em 1954.

O nazismo e a bola – 2

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A meta nazista de provar sua superioridade racial através dos esportes ficou mais próxima quando a Alemanha anexou a Áustria meses antes da Copa de 1938. A seleção austríaca era uma das melhores da época e seus atletas atuariam pela Alemanha. Mas Matthias Sindelar, maior craque austríaco de todos os tempos, se recusou a jogar para Hitler. O supertime fracassou e Sindelar passou a ser perseguido como “simpatizante de judeus”. Em 1939, foi encontrado morto. A causa mortis jamais foi explicada.

A Copa dos quartéis

A ditadura militar que se instalou na Argentina, em 1976, tomou conta também da copa de 1978. Encarregado da organização, o general Omar Actis foi morto num atentado atribuído ao almirante Carlos Alberto Lacoste, seu substituto no cargo. Entre ameaças de boicote (a única concretizada foi do holandês Cruyff), a copa foi realizada e terminou em polêmica: após a Argentina vencer o Peru por 6 a 0, surgiram denúncias de suborno que envolveriam o envio de 35 milhões de toneladas de grãos ao país rival.

Xeque executivo

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Como presidente da federação do Kuwait, o xeque Fahid Al-Ahmad Al-Sabah entrou para a história do futebol ao invadir o gramado e forçar o árbitro a anular um gol da França contra sua equipe na Copa de 1982. Seu fim viria pela vingança de um ditador. Em 1990, Saddam Hussein invadiu o Kuwait e, por isso, o Iraque foi banido do Comitê Olímpico Internacional. Em represália, Saddam ordenou a tomada do Comitê Olímpico do Kuwait, do qual Fahid também era presidente, e matassem quem lá estivesse. O xeque, inclusive.

A frase

“Levei 4 gols, mas salvei 11 vidas.”

Do goleiro húngaro Antal Szabo, após a derrota por 4 a 2 para a Itália na final da Copa de 1938. Antes da partida, repetindo o que fez na final de 1934, o ditador fascista italiano Benito Mussolini mandou aos jogadores de sua seleção a sinistra mensagem “Vençam ou morram”. E ele não falava em sentido figurado.

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