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A pílula pop

A história da Aspirina ajuda a entender a (difícil) relação do homem com a dor e explica porque ela se tornou um ícone de consumo

Por Stefan Gan Atualizado em 31 out 2016, 18h31 - Publicado em 30 nov 2005, 22h00

 

Você está lendo a Super e, de repente, sente uma dorzinha – na cabeça, no estômago, em um dente, no joelho… Como ela insiste em lhe dizer “estou aqui”, você então: a) dá uma batida no local em questão para ver se passa; b) finge que não é nada; c) tem vontade de arrancar a pele para curar o mal pela raiz; d) come qualquer coisa, de preferência bem amarga, para aliviar os sintomas; e) toma logo um analgésico; f) faz um chá e o toma tranquilamente, repassando tudo de bom que leu na revista.

É óbvio que não existe uma resposta certa para a pergunta acima, mas é provável que você tenha optado pela letra “e” sem pensar duas vezes, não? Há mais de 100 anos, desde a invenção da Aspirina, é difícil pensar diferente. Antes, porém, essa era uma decisão bem mais dura.

Por mais que a dor seja nossa companheira inseparável ao longo da vida (é ela quem nos alerta para qualquer tipo de problema ou perigo para o organismo e, quando deixarmos de senti-la, certamente estaremos mortos), o homem sempre lutou para acabar com essa sensação ao mesmo tempo tão presente e tão difícil de descrever.

A história dessa convivência tem vários capítulos marcantes. Por volta de 7 mil anos atrás, um dos artifícios mais usados para o aliviar as dores de cabeça era a chamada trepanação, um procedimento que consiste em perfurar o crânio para “libertar a alma” dos maus espíritos causadores do desconforto (a técnica, aliás, pode ser encontrada ainda hoje em algumas culturas).

Na China antiga, havia um método mais light: agulhas feitas de pedra eram fincadas em pontos dos chamados meridianos do corpo para equilibrar a energia vital (atualmente, a acupuntura usa equipamentos de metal para “regular” o organismo). E antes mesmo do início da civilização egípcia o alívio vinha na forma de folhas e pedaços da casca de uma árvore comum na região, o salgueiro.

Ao longo dos tempos, a planta passou pelas mãos dos grandes nomes da medicina, como o grego Hipócrates (460 a.C.-380 a.C., que recomendava mascar as folhas); e os romanos Celsus (25 a.C.-50 d.C., que usava um extrato das folhas para combater os 4 sinais de inflamação: rubor, calor, dor e inchaço); e Claudio Galeno (131 d.C.-201 d.C., que prescrevia esse tratamento para todo tipo de dor).

E assim foi por vários séculos, até que um comerciante americano chamado Edwin Smith transformou para sempre essa relação de amor e ódio do homem com o próprio corpo. Numa viagem ao Egito, em 1862, ele adquiriu dois textos que são considerados fundadores da literatura medicinal. Um deles, o Ebers Papyrus, acabou por revolucionar o tratamento da dor (e, por extensão, a própria indústria farmacêutica).

O manuscrito de 110 páginas, que os especialistas acreditam ter sido compilado por volta de 1534 a.C., é de longe o mais amplo documento médico recuperado e estudado por egiptólogos, uma verdadeira enciclopédia usada para o tratamento dos mais variados males – de úlceras e desarranjos intestinais a doenças do coração. Além disso, traz a descrição de cerca de 160 ervas com propriedades terapêuticas, entre elas a salicina ou, simplesmente, o extrato de folhas ou casca de salgueiro.

O francês Charles Gerhardt e o alemão Karl Kraut começaram a estudar melhor o princípio ativo da planta. Mas foi em 1897 (apenas 35 anos depois do achado de Smith) que Felix Hoffman, um jovem farmacêutico da Bayer que procurava um jeito de ajudar o pai a combater o mal-estar crônico provocado pelo reumatismo, apresentou a fórmula de uma droga capaz de aliviar a dor sem muitos efeitos colaterais.

De lá para cá, o mundo viu duas mudanças de século e só aumentou a paixão pelo comprimidinho branco com a marca da indústria alemã em baixo relevo. De todas as drogas vendidas legalmente e sem receita, calcula-se que a Aspirina responda por 35,8%, o que faz dela um ícone pop, uma espécie de Coca-Cola das farmácias (curiosamente o refrigerante também nasceu pelas mãos de um farmacêutico americano e, originalmente, era vendido como um tipo de xarope).

Em pouco mais de 3 anos, o novo medicamento tinha sido objeto de mais de 160 artigos científicos, todos ressaltando seus efeitos benéficos, que iam muito além do tratamento do reumatismo. “Era um poderoso remédio que tratava uma gama maior de outras condições – dor de cabeça, dor de dente, nevralgia, gripe, indisposição alcoólica, artrite, amidalite e até febre e diabetes”, diz Diarmuid Jeffreys, em seu livro Aspirin – the Remarkable Story of a Wonder Drug (“Aspirina – a Impressionante História de uma Pílula Mágica”, sem tradução no Brasil). Como não poderia deixar de ser, foi um enorme sucesso de vendas. Pela primeira vez na história, conseguíamos domar a dor.

Ação e reação

Quando Felix Hoffman iniciou sua busca pelo remédio, já se sabia, por exemplo, que o princípio ativo das folhas do salgueiro é a salicina – um tipo de alcalóide que age contra os sintomas da dor. Uma vez no corpo humano, ela é convertida em outra substância química, o ácido salicílico.

O problema é que ele provoca desde simples queimação até sangramento no estômago. A grande sacada do farmacêutico alemão foi pesquisar (e encontrar) uma combinação que eliminasse esses indesejáveis efeitos colaterais – e ela veio na forma de um grupo acetil, capaz de transformar o ácido em acetilsalicílico dentro do nosso aparelho digestivo, causando menos danos.

O boca-a-boca (tanto de pacientes quanto de médicos) garantiu fantásticos rendimentos à Bayer. Não só na Alemanha, como nos outros países da Europa e do resto do mundo, ela dominava o mercado. Há até quem diga que foi ela a verdadeira impulsionadora (ou criadora) da indústria farmacêutica.

O problema, para a companhia alemã, é que ela praticamente não conseguiu patentear o remédio – tudo porque sua fórmula não resultou de um processo novo, mas de descobertas feitas anteriormente por Charles Gerhardt, Hermann Kolbe e Karl Kraut. Na verdade, ela só obteve sucesso na Grã-Bretanha e nos EUA, mas por pouco tempo (rapidamente a concorrência descobriu brechas na legislação e reagiu, passando a produzir “genéricos” da Aspirina, por assim dizer).

Em maio de 1905, a Bayer foi à Suprema Corte de Londres contra a Chemische Fabrik Von Heyden para defender sua exclusividade na produção e venda do ácido acetilsalicílico na Grã-Bretanha. Dois meses depois saiu o veredicto e a Bayer perdeu a patente. “Só havia uma solução: ganhar tempo”, conta Jeffreys no livro. “Quanto mais os advogados conseguissem arrastar o processo, maior o espaço para a empresa explorar o medicamento.”

Em outras palavras, maiores as chances de fixar a marca na cabeça do consumidor. Apesar das derrotas nos tribunais, a estratégia deu certo. Hoje existem outros analgésicos com diferentes princípios ativos, características e formas de ação sobre o organismo (leia os 3 quadros acima), mas a Aspirina mantém uma posição invejável no mercado.

O outro lado da balança, apontam médicos e pesquisadores, é o exagero no consumo desses remédios atualmente. “O uso abusivo de analgésicos e a automedicação são conseqüências inegáveis da grande disponibilidade de medicamentos com preços razoavelmente acessíveis”, afirma o clínico e psicoterapeuta João Augusto Figueiró, do Centro de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

“A ingestão incorreta de analgésicos pode retardar o tratamento de uma simples dor de cabeça e, em casos extremos, até levar à morte”, diz Cláudio Fernandes Côrrea, responsável pelo grupo de dor do Hospital 9 de Julho, em São Paulo. Muitas vezes, o paciente desconhece o perigo da automedicação e acaba desenvolvendo um quadro crônico justamente por abusar desses medicamentos. Sob o efeito permanente da droga, o cérebro reduz ou interrompe a produção de endorfina, o analgésico natural do organismo.

De qualquer maneira, é impossível pensar num mundo sem remédios. Apesar de oferecerem alguns riscos, não dá para negar que o advento da Aspirina mudou radicalmente nosso jeito de nos relacionar com o próprio corpo. Quanto mais os médicos aprendem sobre ela, mais ficam bem impressionados com sua versatilidade.

Nos anos 60, descobriu-se que ela ajuda a prevenir males cardíacos (inclusive em pessoas que não têm propensão genética a esse tipo de doença). Duas décadas mais tarde, com a entrada em cena de novas drogas analgésicas, antitérmicas e antiinflamatórias (como Tylenol e Advil), muitos médicos deixaram de prescrever a pílula original, mas o quadro logo se reverteu, graças a novas descobertas.

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No final do século passado, diversas pesquisas concluíram que o comprimido pode ser útil no combate a derrames e alguns tipos de câncer (como o de mama e o de cólon, um dos que mais matam em todo o mundo), por mais que ninguém saiba com certeza como ele interfere no processo de cura. Além disso, estudos realizados nos EUA já comprovaram que o remédio age também contra a formação de pólipos. Nada mau para um comprimido que nasceu apenas com a missão de ajudar a combater as dores do reumatismo.

Contra dor e febre

Ácido acetilsalicílico

Marca: Aspirina, AAS e outros.

Como funciona: O ácido acetilsalicílico faz parte de um grupo de substâncias antiinflamatórias muito eficazes no alívio de dor, febre e inflamações variadas. O medicamento inibe a formação de prostaglandinas, substâncias que enviam os sinais de dor para o cérebro, reduzindo a sensibilidade e aumentando o bem-estar.

Contra-indicações: Não usar se for alérgico ao ácido acetilsalicílico ou a salicilatos, se tiver tendência para sangramentos ou histórico de úlceras no estômago ou no intestino. O mesmo vale para quem já teve crises de asma provocadas pelos princípios ativos. Também não é indicado para mulheres no último trimestre da gravidez.

Efeito garantido por 4 horas

Dipirona sódica

Marca: Novalgina, Neosaldina e outros.

Como funciona: A dipirona é um antitérmico e analgésico de origem não-narcótica que tem ação central e periférica combinadas. É usada para combater dor e febre. Em geral, os comprimidos produzem efeitos analgésicos e antipiréticos em 30 a 60 minutos – e eles duram aproximadamente 4 horas.

Contra-indicações: Além dos casos de alergia a qualquer um dos ingredientes da fórmula, é contra-indicado para crianças com menos de 11 meses de idade e também durante os 3 primeiros e os 3 últimos meses da gravidez. E não deve ser administrado por via intravenosa ou intramuscular em pacientes com pressão sanguínea baixa ou circulação instável.

Diminui a sensibilidade!

Paracetamol

Marca: Tylenol.

Como funciona: Diminui a sensibilidade para a dor; atua no centro regulador de temperatura do sistema nervoso central para reduzir a febre. Como todos os analgésicos, é indicado para o alívio temporário de dores leves a moderadas, como dor de cabeça, dor de dente, dor nas costas, dores musculares e cólicas menstruais.

Contra-indicações: Não tomar se tiver hipersensibilidade (alergia) aos componentes da fórmula. Jamais exceder a dose recomendada em busca de mais alívio. Não usar o medicamento para dor por mais de 10 dias ou para febre por mais de 3 dias, exceto sob orientação médica. Como contém açúcar, deve ser usado com cautela por diabéticos.

Fonte: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Boehringer-Ingelheim e Altana Pharma.

Para saber mais

Aspirin – The Remarkable Story of a Wonder Drug, Diarmuid Jeffreys, Bloomsburry, 2004

http://www.chemheritage.org/EducationalServices/pharm/asp/asp08.htm – Página sobre analgésicos do site da Chemical Heritage Foundation

http://www.doctorsforpain.com/patient/history.html – Página sobre a história do relacionamento do homem com a dor

http://www.library.ucla.edu/libraries/biomed/his/painexhibit/ – Artigos sobre dor no site da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)

 

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