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Baixa escolaridade é o principal fator de risco para declínio cognitivo no Brasil

Pesquisa mostra que estudos focados na América do Norte e na Europa são insuficientes para explicar a saúde do cérebro, que varia de acordo com o local.

Por Eduardo Lima
Atualizado em 10 fev 2025, 09h40 - Publicado em 4 fev 2025, 18h00

Por muitos anos, o consenso científico era que os fatores de risco mais importantes para casos de declínio cognitivo (fator integrante para quadros de demência) eram idade e sexo. Um novo estudo liderado por cientistas brasileiros, porém, sugere que esses fatores podem não seguir regras globais – e sim mudar de acordo com variáveis socioeconômicas diferentes.

No caso do Brasil, a pesquisa liderada por Eduardo Zimmer, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apoiado pelo Instituto Serrapilheira, descobriu que o fator de risco mais importante para casos de declínio cognitivo – perda de memória, atenção e capacidade de pensar como antes – é a baixa escolaridade.

O estudo, uma colaboração latino-americana entre pesquisadores brasileiros e argentinos, foi publicado no periódico The Lancet Global Health, e seus resultados sugerem que a forma mais eficiente de prevenir o declínio cognitivo entre idosos no Brasil precisa acontecer ainda no início da vida, investindo em políticas públicas de educação infantil.

Consenso científico ou viés geográfico?

“Demência” é um termo abrangente para descrever um grupo de sintomas que afetam a função cerebral e comprometem as funções diárias – declínio cognitivo é um deles, perda de autonomia é outro. Os dois fatores de risco para demência mais predominantes, segundo a literatura científica, são sexo e idade. As mulheres têm mais chance de sofrer com esses sintomas, e quanto mais avançada a idade, maiores as chances.

O problema é que a literatura científica consiste, quase que exclusivamente, em estudos realizados na América do Norte e na Europa. Novos estudos têm descoberto que os consensos sobre como o cérebro funciona possuem, na verdade, um viés geográfico.

“Quando a gente estudou a população brasileira, tivemos um susto”, explica Zimmer à Super. A desigualdade brasileira tem influência direta na saúde cerebral, e proporcionou dados bem diferentes dos esperados.

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“A gente achava que sabia muito sobre o cérebro, mas todas as informações são do Norte Global, e a gente achava que elas eram generalizáveis.” Nas últimas décadas, a ciência está deixando de ser um clubinho dos países ricos, e os cientistas estão entendendo que “cada país tem o seu cérebro único. E no Brasil, um país continental, cada região tem um cérebro diferente.”

Inteligência artificial identificou risco

A inspiração para o estudo veio do neurocientista argentino Agustín Ibañez, que é um dos coautores da pesquisa que se aprofunda na realidade brasileira. Ele começou a investigar a relação entre aspectos sociodemográficos e saúde cerebral em vários países do Sul Global, e percebeu que os fatores de risco eram diferentes para os países da América Latina por meio de um algoritmo baseado em machine learning (“aprendizado de máquina”; é quando você treina um programa com uma grande quantidade de dados para que possa reconhecer e reproduzir padrões).

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Esse mesmo modelo de IA foi usado para estudar a realidade brasileira, que não havia sido incluída no primeiro estudo sobre a América Latina, e compará-la com outros países da região. “Esses dados sociodemográficos são fatores de entrada. Você não explica nada para o modelo. Você deixa a inteligência artificial identificar o que é mais relevante para predizer e explicar declínio cognitivo”, explica Zimmer.

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O modelo de aprendizado de máquina não tem nenhuma informação a priori ou viés, só os dados de entrada providenciados pelos pesquisadores. Assim, ele consegue identificar o peso de cada fator que contribui para casos de declínio cognitivo e perda de funcionalidade – o estudo não focou nos riscos de demência, e sim nos riscos dos sintomas que, juntos, compõem a demência.

Essa IA analisou os dados de 41 mil pessoas de alguns países da América Latina, divididos entre nações de baixa e média renda (Brasil, Colômbia e Equador) e alta renda (Chile e Uruguai). No Brasil, os cientistas usaram os dados de 9.412 pessoas que fazem parte do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), organizado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Fundação Oswaldo Cruz – Minas Gerais (Fiocruz-MG).

No caso do Brasil, baixa escolaridade foi, disparado, o fator de risco mais importante para declínio cognitivo – bem mais que o segundo lugar, que é saúde mental. Outros fatores de risco incluem hábitos de atividade física e tabagismo, quedas e doenças cardiovasculares. Idade e sexo, os fatores mais importantes no Norte Global, também aparecem, mas com um peso muito menor nas estatísticas.

Ou seja: aqui, o risco está claramente relacionado à desigualdade.

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Educação protege o cérebro

O Brasil é o único dos países analisados que têm a baixa escolaridade como principal fator de risco do declínio cognitivo. A educação é um direito constitucional, mas seu acesso é desigual e inconstante. Em 2023, 24% dos jovens de 15 a 17 anos estavam fora da escola. O país ainda conta com quase 10 milhões de pessoas analfabetas – mais de 55% delas está no Nordeste, região que foi marcada pela dificuldade de acesso à educação e só começou a receber mais atenção do poder público no fim do século 20.

Quem tem a oportunidade de estudar e estimular mais o cérebro pode construir uma reserva cognitiva para se proteger dos sintomas de demência. Vamos entender melhor com um exemplo.

Como você resolveria a multiplicação 8 x 4? Dá para fazê-la direto no papel, somar “8” quatro vezes, puxar da memória a resposta na tabuada ou até usar um ábaco. Existem vários jeitos, alguns mais fáceis do que outros.

Quando o cérebro de quem estuda precisa fazer uma conexão do ponto A ao ponto B, ele aprende a fazer esse caminho de vários jeitos diferentes, com atalhos e desvios. Já o cérebro de quem não teve a mesma oportunidade precisa trabalhar com um caminho só (apenas um jeito de resolver uma multiplicação, para seguirmos no exemplo). Se a pessoa perder esse mapa, não consegue mais chegar em B.

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“Quanto mais você estuda, mais você estimula conexões no cérebro que fazem ele ficar mais resiliente à patologia e ao envelhecimento”, afirma Zimmer.

“Uma maneira de prevenir o declínio cognitivo em idosos é investindo na educação no início da vida.” O investimento em educação infantil deve ser uma prioridade do país para combater as desigualdades econômicas, sociais e até cerebrais do Brasil, num esforço para corrigir problemas de saúde causados por injustiças sociais com raízes profundas na história brasileira.

O Brasil conta com cerca de 2,71 milhões de casos de algum tipo de demência, de acordo com o Ministério da Saúde. Com o envelhecimento da população, a estimativa é de que o país chegue a 5,6 milhões de diagnósticos de demência até 2050. Uma estratégia de prevenção eficaz para que a previsão não se concretize precisa passar pela educação.

O grupo de pesquisa liderado por Zimmer pretende fazer um estudo que analisaria se é possível criar essa proteção cerebral quando um adulto começa a estudar de novo, anos depois de sair da escola. Outro fator a ser analisado é se fazer faculdade também é um jeito de proteger o cérebro.

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