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Como funciona (e para que serve) o transplante fecal

Uma microbiota importada de outra pessoa pode servir no combate a infecções. E um novo estudo questiona se ela poderia tratar também câncer no intestino.

Por Carolina Fioratti 3 mar 2020, 16h36

Cientistas da Universidade de Leeds, na Inglaterra, identificaram a toxina por trás do surgimento de tumores de intestino: trata-se da colibactina, secretada por uma linhagem mutante de bactérias Escherichia coli – micróbios comuns, presentes no trato gastrointestinal de qualquer pessoa. Só no Reino Unido, de acordo com a nova pesquisa, ela contribui para o surgimento de 1 em cada 20 casos de câncer intestinal. O estudo foi publicado na revista científica Science, e você pode lê-lo aqui.

No caso de câncer no intestino, os cientistas especulam que seria possível prevenir (ou evitar) o problema com taxa maior de sucesso se o uso de antibióticos fosse acompanhado do transplante fecal. É isso mesmo que você está pensando: transferir o cocô de uma pessoa doadora para o paciente necessitado. Essa técnica serve para restabelecer a microbiota intestinal (reservatório de microrganismos do sistema digestivo). Mas como ela funciona?

  • Pra começo de conversa, vale lembrar que o transplante não ocorre porque o paciente precisa das fezes propriamente ditas – mas sim das bactérias saudáveis que vivem na flora intestinal do indivíduo. Doadores de cocô voluntários devem passar por uma série de exames – que detectam os vírus da HIV e hepatite – antes do procedimento. 

    Com todos os resultados negativos para as doenças, começa o processo. O material é coletado dentro daqueles potinhos de exame de fezes que já conhecemos. Depois, é misturado com soro fisiológico para facilitar a filtragem e o transplante.

    A inserção no corpo pode ser feita de duas formas: por colonoscopia, em que é colocado um tubo via retal que percorre o intestino grosso; ou por enema, uma bisnaga posta no reto para introduzir o líquido, como se fosse uma lavagem intestinal. E aí é só esperar que as novas bactérias transplantadas não sejam rejeitadas pelo organismo e as funções do intestino voltem ao normal, o que ocorre em aproximadamente 85% dos casos. 

    O procedimento ainda não é comum no Brasil. Pelo contrário: o primeiro banco de fezes foi inaugurado apenas em 2017, no hospital da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Já o primeiro transplante feito no país ocorreu em 2013, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Estima-se que o câncer de intestino afete, em média, 34 mil pessoas por ano no Brasil.

    O transplante fecal é considerado um tratamento experimental no caso de câncer, mas tem se mostrado promissor em outras áreas. A aplicação mais comum, atualmente, se refere a pacientes que sofrem de infecções por bactérias como a Clostridium difficile. Ela provoca infecções e afeta funcionamento do trato intestinal, causando diarreias e febre.

    Com um transplante de microbiota, as bactérias importadas do intestino do doador passam a competir por nutrientes com as invasoras, matando-as de fome aos poucos e freando sua reprodução no interior do paciente. O mesmo princípio valeria no caso das E.coli mutantes, ligadas ao crescimento do câncer.

    É bem possível que você já seja um doador de órgãos. Mas já imaginou se tornar também um doador de cocô? 

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