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Como funciona o teste de saliva para a covid-19, que está sendo testado no Reino Unido

Novo método pode ser tão eficaz quanto o PCR, que usa amostras de secreção nasal – mas se mostrou mais simples, rápido e barato.

Por Carolina Fioratti - 23 jun 2020, 08h18

Enquanto não há vacina ou remédio para conter o surto de covid-19, pesquisadores buscam formas de facilitar o diagnóstico e melhorar o rastreamento de casos. Pensando nisso, a empresa de diagnóstico molecular OptiGene – junto à Universidade de Southampton e ao Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido – começou a desenvolver testes de saliva para detectar o novo coronavírus. Os ensaios para comprovar a efetividade do método devem começar ainda nesta semana (22). 

Serão cerca de 14 mil pessoas realizando testes semanais em suas próprias casas por um período de quatro semanas. O corpo de voluntários é formado por clínicos gerais, trabalhadores essenciais e funcionários e residentes da própria universidade. 

A obtenção da amostra é bem simples, dispensando auxílio profissional. Os pesquisadores devem enviar kits às casas ou locais de trabalho dos participantes, e então, a única coisa que o voluntário deve fazer é cuspir dentro de um tubo de ensaio. Depois, ele pode levar o material até o local combinado com a equipe de Southampton ou esperar que algum membro do estudo busque a amostra. A pessoa testada terá o resultado em 48h. 

Até o momento, há dois tipos principais de testes de covid-19 no mercado: a sorologia e a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR). O primeiro é feito através da coleta de sangue, e serve para verificar se o paciente tem anticorpos contra o vírus. O problema é que ele não diz se o indivíduo está infectado no momento do teste ou se apenas teve contato com o vírus no passado. Além disso, seus resultados podem ser confusos, apresentando falsos positivos ou negativos, o que traz a necessidade de realizar outros testes de confirmação. 

O PCR é realizado com o chamado swab. O profissional coleta secreção nasal com um tipo de cotonete que vai desde o nariz até a garganta do paciente. Depois, em laboratório, os cientistas buscam pelo material genético do vírus nas células do paciente. A taxa de acerto do método é de 90%. Mas ele tem seu lado negativo: é extremamente invasivo. O swab pode causar engasgos e tosse no paciente, o que também expõe os profissionais de saúde à possíveis gotículas infectadas. 

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O teste de saliva que está sendo desenvolvido no Reino Unido também procura material genético do vírus, mas usa outra técnica, conhecida como Amplificação Isotérmica Mediada por Loop (LAMP). No exame do tipo PCR, é preciso, antes de tudo, transformar o RNA viral do Sars-CoV-2 em uma fita dupla de DNA. Isso porque a fita de RNA do vírus é muito pequena, o que dificulta sua leitura. A alteração é feita com auxílio de uma enzima chamada transcriptase reversa, que utiliza os nucleotídeos presentes no citoplasma para reverter a fita única de RNA em uma fita dupla de DNA.

Mas isso não é suficiente; é preciso ainda replicar este DNA obtido. Isso é feito através do aumento e diminuição da temperatura da amostra. Ao aumentar a temperatura, o DNA acaba se separando em dois pedaços de fita simples, o que chamamos de desnaturação do DNA. Depois, com a queda da temperatura, adiciona-se a enzima Taq Polimerase, que sintetiza duas novas cadeias de DNA a partir das fitas originais. Esse ciclo pode ser repetido até 40 vezes, o que explica a demora para a obtenção do resultado.

Já na técnica LAMP, a amostra pode ser mantida a temperaturas constantes durante todo o processo, o que torna tudo mais simples e rápido, além de diminuir custos. Ela funciona da seguinte forma: após transformar o RNA em DNA, coloca-se uma enzima polimerase, geralmente a chamada Bst DNA, que deve abrir a fita dupla. Em conjunto, são adicionados quatro primers (segmentos de ácidos nucléicos que auxiliam na replicação do DNA) que devem reconhecer e amplificar seis áreas distintas do DNA alvo. Isso possibilita a detecção do gene em apenas uma etapa, que pode ser feita na temperatura de 64 ºC.

Os participantes do estudo de Southampton são obrigatoriamente inscritos no programa de Teste e Rastreamento do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido. Assim, caso haja qualquer resultado positivo, tanto a pessoa infectada quanto todos os outros que tiveram contato com ela serão avisados para que pratiquem o isolamento. Além de testar o método de diagnóstico, o estudo ainda poderá avaliar a taxa de indivíduos que desenvolvem a doença de forma assintomática. 

No Brasil, o laboratório Mendelics firmou uma parceria com o Hospital Sírio Libanês para desenvolver testes de saliva para covid-19. Eles prometem resultados rápidos: menos de uma hora após a coleta. No momento, estão realizando um projeto-piloto com 50 mil voluntários. O CEO da Mendelics, David Schneleiger, explicou ao Estado de S. Paulo que o teste deve ser destinado às empresas que querem testar seus funcionários para voltar a normalidade, e não para pessoas físicas que procurarem pelo método em hospitais. O valor do teste de saliva deve ficar em 95 reais. Atualmente, o PCR tem custo aproximado de 300 reais. 

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