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Contra tudo e sem dor: as vacinas do futuro

Imagine ficar protegido, de uma só vez, contra todo tipo de doença. E, melhor, sem ter que tomar injeção. É isso o que está se tentando, com técnicas experimentais. As pesquisas podem até levar à descoberta de uma fórmula antiAids.

Lúcia Helena de Oliveira

Como seria a vacina ideal? Há mais de quatro anos, médicos e biólogos do mundo inteiro refletiram sobre essa questão, proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Em setembro de 1990, as respostas foram resumidas num documento, conhecido por Declaração de Nova York, que lançou o desafio de se chegar à perfeição. Iniciou-se, assim, a corrida atrás de uma supervacina, com as seguintes características:

• funcionar numa única dose ou, no máximo, em duas.

• proteger contra várias doenças ao mesmo tempo.

• agüentar firme e forte o calor, pois, hoje, todas só conservam a boa qualidade se mantidas na geladeira.

• ser aplicada por via oral, dando adeus à dor das picadas e ao custo das injeções.

• não causar efeitos colaterais.

• ser 100% eficaz.

• ser facilmente fabricada por laboratórios do mundo inteiro, e a um preço acessível.

Uma vacina desse jeito, capaz de proteger contra tudo (ou quase tudo) de uma só vez, facilitará a vida de muita gente. Afinal, segundo a OMS, para uma criança ficar adequadamente imunizada, ela deve receber dezessete tipos de vacinação, que a obrigam a visitar o médico pelo menos seis vezes nos 15 primeiros meses de vida. Talvez pelo transtorno, nem nos países desenvolvidos isso é seguido à risca. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 44% das crianças recebem todas as doses prescritas até os dois anos de idade. É bem verdade que logo recuperam o atraso. Antes de entrarem na escola, 87% dos americanos estão em dia.

Nos países subdesenvolvidos, a média fica em torno dos 60%. O Brasil, nesse aspecto, tem conduta exemplar: imuniza quase 80% de suas crianças. “Mas, como no resto do planeta, não conseguimos ultrapassar essa faixa, por melhores que sejam as campanhas”, diz o médico paraense Otávio de Oliva, pesquisador da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e representante brasileiro na Organização Panamericana de Saúde. A cada ano, no mundo, morrem de seis a oito milhões de crianças, por infecções que podiam ser evitadas. Para imunizar 100% da população, só mesmo mudando a tecnologia. Agora, surgem os esboços das vacinas do século XXI.

Foi ainda no século X a.C. que os chineses descobriram uma maneira de evitar o avanço fatal da varíola: eles faziam um corte na mão de um indivíduo saudável, para introduzir um pouco de pus, retirado das feridas de um paciente. Isso, sem dúvida, provocava a doença — só que de uma forma mais branda, menos letal. E, daí para a frente, a varíola não tinha mais vez. O sujeito estava imunizado. A seu modo, os chineses vacinavam.

Mas a grande descoberta surgiu em 1796, graças às observações do médico inglês Edward Jenner (1749-1823). Ele percebeu que, nas fazendas, os encarregados da ordenha muitas vezes eram contaminadas pela varíola bovina. E, quando isso acontecia, eles ficavam resistentes à forma humana da doença, tremendamente mais violenta. Assim, otimista com a idéia de acabar com toda a varíola na face da Terra (algo que levaria mais de 180 anos, pois o último caso registrado foi na Somália, em 1977), Jenner criou a primeira vacina propriamente dita. A palavra, aliás, vem do latim vaccia, que quer dizer vaca, porque o médico acreditava que algo naquele bicho tinha o poder de impedir o mal. De fato, não tinha nada a ver com a vaca, mas com o vírus causador do problema e com a resposta do organismo à sua presença.

O que uma vacina faz é imitar micróbios nocivos, despertando as defesas orgânicas — que os médicos chamam de sistema imunológico. Sem esse aviso prévio, as defesas até entram em ação, porém um tanto devagar — precisam de um tempo para estudar quimicamente o microorganismo invasor e preparar estratégias específicas para enfrentá-lo.

As armas usadas são moléculas chamadas anticorpos, e os anticorpos que funcionam contra um vírus não servem para matar outro. O objetivo, então, é preparar o organismo: assim, quando vier a invasão por um micróbio verdadeiro, as células que produzem anticorpos, os linfócitos B, o reconhecerão — elas memorizaram sua estrutura, anteriormente, e podem reagir com rapidez. Essa é a chamada imunidade humoral, ligada aos anticorpos, que trava batalhas contra aqueles micróbios que ainda estão soltos na circulação sangüínea.

Mas não é só aí que age o sistema imunológico. Quando o micróbio já se abrigou dentro das células, então é acionada a imunidade celular, que tem a ver com uma tropa de elite, os linfócitos T . Eles também são ajudados, e muito, pelas vacinas.

Existe ainda um terceiro tipo de imunidade, que poderá ser melhor explorado para efeito de vacinação. É a imunidade da mucosa — o revestimento dos órgãos internos. “Suas defesas se comportam de um jeito diferente e só agora a gente começa a conhecê-las”, diz Otávio Oliva, da Fiocruz. “Esse será o principal caminho das pesquisas”, aposta o especialista em doenças parasitárias Marcos Boulos, da Universidade de São Paulo. O entusiasmo faz sentido: se for possível estimular as defesas do nariz com uma simples inalação, muitos micróbios nem vão entrar no corpo.

Diversos laboratórios correm atrás de fórmulas nasais. “A maioria das doenças infantis são transmitidas pelo ar”, lembra Boulous. Outros têm planos mais ambiciosos: procuram uma vacina contra a Aids que atue nas mucosas dos genitais. Ela impediria apenas a contaminação pelo sexo. Em macacos, já foram feitas dezenas de experiências com esse objetivo.

“As vacinas orais — como a Sabin, a famosa gotinha contra a poliomielite — também agem na mucosa. No caso da Sabin, na mucosa do intestino, onde o vírus se aloja”, diz Boulos. Ele conta que ainda é difícil prevenir muitas doenças por via oral. Mas que esse obstáculo logo poderá ser vencido.

Enquanto a proteção em gotas não vem, o maior desafio das pesquisas é diminuir o número de injeções que é preciso tomar, atualmente. Antes de mais nada, isso significa combinar, muitas vezes, substâncias quase incompatíveis. As vacinas da difteria, da coqueluche e do tétano, por exemplo, há muito tempo formam um trio chamado DTP. “Mas essa união é uma exceção”, lamenta o médico Otávio Oliva, que faz parte do CVI (sigla inglesa do Iniciativa de Vacinação Infantil, grupo de pesquisadores do mundo inteiro que buscam aquela fórmula ideal). “Um vírus atenuado de certa doença pode anular o efeito de outro, quando os dois são colocados juntos”.

“Ou, então, as combinações provocam efeitos colaterais desagradáveis.”

Outra saída para diminuir a freqüência das injeções é evitar as doses de reforço. Em alguns casos, não se estimula o sistema imunológico de maneira adequada, logo de cara. Então, tomam-se mais duas ou três picadas. Sem contar que vacinas feitas com microorganismo mortos, como a da cólera, sempre produzem um estoque limitado de anticorpos, que um belo dia acaba. Os cientistas se esforçam para chegar a uma defesa de longa duração, que tenha eficiência máxima na primeiríssima dose. Nesse sentido, surgem novas tecnologias. Conheça as que mais se destacam.

As microesferas: A idéia é usar bolinhas de material orgânico, com menos de um centésimo de milímetro de diâmetro, recheadas de partículas de micróbios. “O material é o mesmo dos fios de sutura absorvíveis, utilizados em cirurgias”, conta a farmacêutica Jacqueline Duncan, da Secretech, empresa americana que está conduzindo a pesquisa. “Aos poucos, essas bolotas se dissolvem no organismo e liberam a partículas que dão a imunidade.” Como o tempo para a esfera derreter poderá ser controlado por seu tamanho e espessura, será possível dar, de uma só vez, duas ou mais doses. As partículas dos micróbios vão sendo liberadas aos poucos, sem necessidade de reforços posteriores “Também se poderá isolar, em esferas diferentes, substâncias que antes não se combinavam”, diz Jacqueline. Tudo indica que as esferas, depois de engolidas, vão conseguir passar pelo estômago e chegar ao local de sua ação.

Os genes de vírus: Alguns cientistas experimentam injetar o material genético de vírus nos músculos . “Como o tecido muscular pode produzir substâncias típicas do vírus durante dois anos, a reação imunológica seria muito mais eficaz do que quando se injeta um vírus morto”, explica Jeffrey Ulmer, pesquisador da Laboratórios Merck, nos Estados Unidos. Há cinco anos, ele tenta essa técnica para produzir uma vacina contra a Aids. “Usar o HIV vivo, mesmo enfraquecido, acho arriscado”, opina. Segundo ele, ninguém garante que, dentro do corpo, essa versão atenuada não ficaria ativa. “E usar o HIV morto não parece dar bom resultado. Injetar genes dos vírus no músculo é uma solução intermediária.”

Os “cavalos-de-tróia”: Esse é o apelido dos vírus com diversas faces, criados pela engenharia genética. “Alguns vírus têm brechas na seqüência de seus genes”, descreve Otávio Oliva. “É possível, então, enfiar material genético de outros micróbios nesses espaços vazios.” O microorganismo passa a produzir proteínas de várias espécies, como se sua membrana fosse uma colcha de retalhos. Em tese, esse micróbio Frankstein provocaria imunização contra diversos males.

Os adjuvantes: São substâncias com talento especial para pirraçar o o exército de defesa do corpo. Em geral, o organismo reage a uma vacina com menos força do que diante de uma doença de verdade. Determinados compostos, porém, têm a capacidade de aumentar, na medida certa, a reação das células defensoras. Essa tecnologia já está sendo aplicada, embora de maneira limitada. Por enquanto, só os sais de alumínio são usados como adjuvantes, e eles não funcionam em todos os casos — servem para aumentar a imunização contra o tétano, a difteria e a hepatite B, apenas. No entanto, a indústria farmacêutica reúne meia dúzia de candidatos a esse papel, todos eles em fase avançada de testes.

As fórmulas conjugadas: Muitas vacinas, hoje em dia, são feitas à base de polissacarídeos, substâncias retiradas de vírus e bactérias, que ativam apenas os linfócitos B — e estas células de defesa só se tornam maduras por volta dos quatro anos de idade. Conclusão: ficam desprotegidas as crianças muitos pequenas, que são o maior grupo de risco das meningites e das infecções por pneumococos. O jeito é tentar enganchar aqueles polissacarídeos numa substância capaz de mobilizar, além dos lifócitos B, também os linfócitos T, que estão prontos para agir desde os primeiros meses de vida. Eles memorizariam todo o conjunto de moléculas — inclusive os polissacarídeos que antes não chamavam a atenção. O desenvolvimento desse tipo de fórmula seria um prêmio à altura do trabalho intenso dos pesquisadores em busca das supervacinas. Ela poderia imunizar bebês de dois meses contra males que vêm sendo as maiores causas de morte, nessa idade.

Para saber mais:

Os defensores do corpo humano

(SUPER número 7, ano 2)

Eles voltaram

(SUPER número 6, ano 11)

À sombra do mosquisto

(SUPER número 7, ano 11)