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Covid-19: Como funciona o coquetel de anticorpos usado por Trump

Ainda sem aprovação para uso, o tratamento apresentou resultados promissores em um pequeno estudo publicado recentemente.

Por Bruno Carbinatto - 5 out 2020, 19h43

Diagnosticado com Covid-19, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump recebeu alta nesta segunda-feira (05) do Centro Médico Walter Reed, onde estava internado desde sexta-feira. Segundo informações da equipe médica e do próprio presidente em seu Twitter, Trump não apresenta mais sintomas graves e continuará a ser monitorado de casa. O tratamento do presidente contou com uma combinação de medicamentos – incluindo um coquetel de anticorpos que ainda está em fase de testes clínicos e não recebeu aprovação governamental.

Produzido pela empresa de biotecnologia Regeneron, o coquetel experimental conta com dois anticorpos fabricados especialmente para combater o Sars-CoV-2. Anticorpos são proteínas produzidas naturalmente pelo nossos sistema imunológico para combater patógenos durante ou após uma infecção. Eles possuem um formato específico para cada invasor (como se fosse uma chave para uma fechadura), capaz de se ligar a ele e neutralizá-lo. As vacinas, por exemplo, ensinam o nosso corpo a produzir anticorpos contra algum vírus ou bactéria antes de entrarmos em contato com o causador da doença, e assim ficamos imunes.

Um mecanismo parecido está por trás do uso do plasma convalescente contra a Covid-19, que ainda está em testes e apresentou resultados ambíguos até agora. Nesse tratamento, o sangue de pessoas que se curaram da doença (e, portanto, têm anticorpos contra ela) é usado para tratar pacientes em estado grave. O problema é que o soro convalescente não pode ser utilizado como um tratamento em massa – ele depende de doações de pessoas específicas, que apresentam uma alta taxa de anticorpos

É por isso que algumas empresas apostaram em uma estratégia parecida: isolar anticorpos eficientes e produzí-los em laboratório, gerando assim os “anticorpos monoclonais”, que podem ser produzidos em série e vendidos na forma de medicamento.

É essa a ideia do tratamento utilizado por Trump, que foca em dois tipos de anticorpos. Eles são capazes de se ligar à proteína spike do coronavírus, que é essencial para seu processo de infectar uma célula, e assim impedem a infecção. Um dos anticorpos utilizados veio de humanos que se recuperaram da Covid-19 e outro se originou um camundongo geneticamente modificado para ter um sistema imunológico parecido com o de Homo sapiens. Os trechos do material genético responsáveis por produzir essas substâncias foram isolados e, dessa forma, os anticorpos foram produzidos artificialmente.

Vale lembrar, porém, que o medicamento da Regeneron, chamado REGN-COV2, ainda está em fases de testes – e não se sabe se ele funciona mesmo. Em experimentos com camundongos e macacos-rhesus, o coquetel diminuiu a carga viral dos infectados e aliviou sintomas. Na semana passada, a empresa liberou os resultados de seu primeiro estudo feito com humanos, que foram considerados animadores: os pacientes em estado moderado e leve que receberam a terapia tiveram uma carga menor e sintomas mais amenos do que os que receberam apenas placebo, segundo a empresa divulgou em uma conferência. Os resultados ainda não foram publicados em um periódico científico.

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No entanto, o estudo teve uma amostragem considerada pequena: apenas 275 pessoas. Vários especialistas afirmaram que ainda é muito cedo para avaliar sua eficácia, e que estudos maiores devem ser conduzidos. A Regeneron anunciou que vai expandir a pesquisa atual para contar com até 2.100 voluntários, e que também está conduzindo um outro estudo, dessa vez em pacientes hospitalizados em estado mais grave.

Mesmo sem nenhum tipo de aprovação governamental, a equipe médica de Trump decidiu prescrever o coquetel para o presidente sob o pedido de “uso compassivo”, que é a aplicação de terapias não aprovadas em casos isolados. Com isso, o presidente recebeu uma única dose de 8 gramas do medicamento – a quantidade é maior que os 2,4 gramas utilizados nos estudos da própria empresa, por causa de um “excesso de cuidado”, segundo a equipe médica. Os estudos liberados até agora mostraram que aumentar a dose faz pouca diferença, o que é bom: a fabricação de anticorpos monoclonais é um processo complexo e caro.

O uso da terapia para o tratamento de Trump foi recebido com cautela pela comunidade científica dos Estados Unidos, que ressaltou que não há dados para afirmar sua eficácia, e que o fato do presidente ter utilizado e anunciado que está se tratando com um medicamento ainda em testes pode ser nocivo para a opinião pública – que pode entender que, porque a maior autoridade do país utilizou o tratamento, ele provavelmente é eficaz. Isso pode, ainda, abrir margem para teorias da conspiração que acreditam que o governo está “escondendo” a cura da Covid-19.

Além da terapia experimental com anticorpos, Trump recebeu uma combinação de outros medicamentos. Um deles foi o remdesivir, um dos antivirais mais promissores contra a Covid-19 e um dos primeiros medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), a Anvisa americana. Desenvolvido pela empresa Gilead Sciences, o remédio ainda apresenta resultados ambíguos em testes clínicos: seu uso parece diminuir o tempo de internação em pacientes graves, mas não tem um impacto significativo na letalidade. Em um cenário com falta de leitos, no entanto, reduzir o tempo de internação pode ser crucial para atender mais pacientes. O remdesvir é utilizado em massa em pacientes nos Estados Unidos.

Trump também chegou a receber doses de dexametasona, um corticoide que se mostrou eficaz em reduzir a letalidade da doença em pacientes graves, assim como outros esteroides. Ao invés de reforçar a imunidade, o medicamento suprime a atividade do sistema imunológico do paciente. Isso porque, ao tentar nos defender do vírus, o nosso corpo acaba atacando tecidos saudáveis também, causando inflamação no pulmão – um dos sintomas mais graves da doença. Nesses casos, usar um imunossupressor pode ser uma boa.

No entanto, não está claro porque Trump foi tratado com dexametasona, já que o uso de corticoides só é indicado para casos graves de Covid-19, quando os pulmões estão afetados. Em casos leves, o medicamento pode piorar o quadro, já que afeta as defesas do organismo. Durante a internação de Trump, houve relatos contraditórios sobre a gravidade do quadro de saíde do presidente – alguns jornais chegaram a reportar que ele precisou de ajuda para respirar – embora a própria equipe médica do presidente tenha mantido o discurso de que o quadro era de leve a moderado, mas que houve a queda da saturação de seu oxigênio em dois episódios.

Além desses medicamentos, Trump também foi tratado com “zinco, vitamina D, famotidina (um antiácido), melatonina e uma dose diária de aspirina”, segundo seus relatórios médicos. Ele não foi tratado com hidroxicloroquina, droga que ele mesmo promoveu como tratamento para a Covid-19 durante a pandemia e chegou a tomar de forma profilática – isto é, para prevenir a doença, mas pelo jeito não funcionou. Sua equipe médica não está administrando o medicamento pois diversos estudos já mostraram que a substância não parece ter efeito nenhum no combate à doença e, se administrada incorretamente, pode causar efeitos colaterais indesejados.

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