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De onde veio seu corpo?

Você não é nenhuma obra-prima. Mas um esboço feito de retalhos de vários animais. A evolução esculpiu seu corpo pegando o cérebro que surgiu em um verme, as nadadeiras de um peixe, a aparência de um macaco, deu um tapa em tudo isso e, voilà, você está aqui. Veja como foi essa caminhada.

1. Time de células

A mãe de todas as formas de vida apareceu há 4 bilhões de anos: era uma molécula que fazia cópias de si mesma. Logo suas descendentes ganharam capas de proteína para proteger seu material genético. Nasciam as células. E elas se juntaram, em estruturas multicelulares, com cada uma fazendo um trabalho específico, como se formassem uma empresa. E hoje você é uma companhia com 10 trilhões desses funcionários.

2. Olhos

Os primeiros seres multicelulares não caçavam – comiam moléculas orgânicas soltas na sopa primordial. Mas com a superpolução de vida essa comida fácil rareou. E o jeito foi partir para o canibalismo. Na luta para encontrar o almoço, um truque novo deu certo: captar o movimento dos rivais a partir da luz que eles refletiam. Era a visão, que começou em vermes parecidos com os platelmintos há 600 milhões de anos.

3. Cérebro

O 1,4 quilo de miolos que você tem atrás dos olhos veio de um montinho de células que gerenciavam a visão de vermes como o platelminto. Depois, a evolução foi emendando outros módulos nessa estrutura primitiva. E o cérebro cresceu tanto que, para não entalarmos no parto, nascemos com a cabeça mole. É o preço que você paga pela inteligência, cabeção.

4. Coração

O pênis desses vermes, como você pode ver, era bem avantajado. Brincadeira: isto aqui é uma mistura de garganta e intestino – a comida entra e sai por este tubo. Os genes responsáveis por este pedaço migraram para outra parte do corpo. Aí, em vez de montarem um cano que se contraía para facilitar a alimentação, iniciaram um órgão que faz o mesmo movimento, só que com sangue: o coração.

5. Sistema digestivo

Alguns vermes abandonaram a forma plana e ficaram arredondados há 500 milhões de anos. Era a estréia do glorioso tubo digestivo com entrada e saída. A coisa, que permite comer sem parar se for o caso, se mostrou tão eficaz que todas as criaturas que surgiram a partir daí a adotaram. E, graças a esses vermes cilíndricos, não colocamos o penico ao lado do prato.

6. Coluna vertebral

Corpos grandes precisam de sustentação. Por isso, a coluna vertebral foi, digamos… a coluna vertebral da evolução. Seus primeiros vestígios apareceram em vermes de 500 milhões de anos atrás, com este aqui. Ele tem notocorda, uma vara que segue pelas costas, serve como apoio para os músculos e deu origem à coluna.

7. Mandíbula

O que seria de nós, predadores, sem as mandíbulas? Elas apareceram quando alguns arcos branquiais das cobras d’água, ancestrais dos peixes modernos, começaram a crescer para a frente e envolveram a boca. Isso formou uma espécie de máquina de morder, como você vê aqui. O equipamento deu origem a predadores bem mais eficientes. E a coisa chegou até nós.

8. Crânio

Você tem guelras, os arcos branquiais que os peixes usam para respirar. Quando você era um embrião elas estavam lá, como um resquício das suas origens aquáticas. Essas guelrras dão origem a partes da cabeça. O 1o arco branquial forma dois ossos do ouvido. Do 2o arco saem o hióide (um osso da garganta que ajuda a engolir) e o estribo, do ouvido médio. Do 3o e do 4o nascem partes da garganta e da laringe.

9. Pulmões

Alguns peixes desenvolveram bolsas no tubo digestivo. Bolsas cheias de vasos sanguíneos, que começaram a servir para absorver oxigênio do ar – mais oxigênio = mais energia, o que sempre ajuda. Mas esses pulmões primitivos fizeram mesmo a diferença há 370 milhões de anos, numa época de seca que baixou o nível dos oceanos e cobriu o planeta de pântanos. Com menos água disponível, os peixes que sabiam respirar ar se deram bem.

10. Pernas e braços

Alguns peixes rastejam no fundo do mar, usando as nadadeiras como patas. É só uma estratégia de caça. Quando o mundo ficou mais seco, essa habilidade serviu para que certos peixes com pulmões se virassem em terra. E dessem origem a anfíbios como o ichityostega, com nadadeiras adaptadas para a vida fora d’água. Veja como elas foram ficando parecidas com as suas mãos.

11. Ouvidos

Os ouvidos dos répteis evoluíram a partir de pedaços da mandíbula dos peixes. E os nossos fizeram o mesmo caminho, só que um degrau acima na evolução: dois ossos se desprenderam da mandíbula dos répteis, encolheram e migraram para cima, se transformando no martelo e na bigorna, os principais componentes dos nossos ouvidos.

12. Pêlos

Quem inventou o cabelo foram répteis de 200 milhões de anos atrás, os terapsídios, ancestrais dos mamíferos. Por acaso, esses animais começaram a desenvolver espinhos sob as escamas. E eles cresceram a ponto de virar uma capa protetora, que ajudava a manter o calor do corpo por mais tempo.

13. Sangue quente

Um grupo de animais desenvolveu uma espécie de sistema de aquecimento interno: passou a transformar comida em calor para o corpo. Isso tornou esses bichos menos dependentes da luz do Sol, e eles puderam colonizar regiões mais frias do globo. Eram os primeiros mamíferos, que começaram a carreira como comedores de insetos que só caçavam à noite, para não topar com répteis.

14. Fala

Falar não é fácil. Você só produz sons mais complexos que grunhidos graças a uma complicada manobra da evolução. Nosso aparelho vocal, a laringe, já esteve em um ponto bem mais alto da garganta. Essa posição permite que os primatas respirem enquanto comem, porque as passagens de ar e de comida ficam bem separadas. Mas a laringe desceu e criou espaço suficiente para a língua articular melhor os sons.

15. Você

Há 200 mil anos esse monte de órgãos que nasceu nos vermes mais esses membros que começaram como nadadeiras distorcidas e esse cérebro que já foi menor que uma cabeça de alfinete estavam todos juntos nessa colcha de retalhos que você chama de “eu”. Mas nem pense que você está no topo dessa cadeia. Somos apenas uma dos bilhões de histórias que a evolução contou.

 

Para saber mais

A História de Quando Éramos Peixes

Neil Shubin, editora Campus, 2008.