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Entenda o tratamento do câncer testado em um paciente do Brasil pela 1ªvez

A terapia coloca as células do próprio paciente para lutar contra o câncer — e elas saem ganhando

Por Maria Clara Rossini - 11 out 2019, 18h48

Vamberto de Castro se tornou o primeiro paciente da América Latina a passar por um tratamento contra o câncer até então inédito por essas bandas: a terapia de células CAR-T. Ele sofria de um tipo raro e grave de linfoma desde 2017 e já havia passado por radio e quimioterapia, ambos sem sucesso.

Depois dos problemas com as linhas de tratamento tradicionais, o prognóstico do paciente era de apenas mais um ano de vida. Como último recurso, ele foi inscrito em um protocolo de pesquisa experimental para ser o primeiro brasileiro a testar o tratamento.

Um mês após a intervenção, ele é considerado um paciente em “remissão clínica” – quando os sinais de atividade da doença passam por uma redução progressiva. O diagnóstico de cura só poderá ser dado após cinco anos sem reincidência da doença.

O procedimento foi realizado no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Ele já estava sendo estudado há quatro anos pelo Centro de Terapia Celular da Universidade de São Paulo (USP).

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Mas o que, afinal, é a terapia de células CAR-T?

O tratamento, inicialmente desenvolvido nos Estados Unidos, usa células geneticamente modificadas, que são as tais “CAR-T”. A sigla em inglês significa “receptor de antígeno quimérico”.

O paciente sofria de um câncer chamado linfoma não Hodgkin, que afeta o sistema linfático. O tumor estava nos linfócitos B, um tipo de célula especializada na produção de anticorpos.

Mas não foram nelas que os pesquisadores atuaram, e sim nos linfócitos T – um dos principais soldados do sistema imunológico, o exército de defesa do corpo. O problema é que o câncer é tradicionalmente muito bom em bloquear a atividade do sistema imunológico, evitando que ele reconheça a ameaça ou reaja proporcionalmente a ela.

A ideia, portanto, era usar células T que já tinham, naturalmente, o poder de atacar células de alguma maneira malignas — elas só precisavam de uma “ajudinha” extra. Esse é o principal princípio por traz de todo tratamento de imunoterapia: usar os mecanismos de defesa do próprio corpo para atacar o tumor, ideia que conquistou o Nobel de Medicina de 2018 para seus criadores.

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Na estratégia específica de tratamento usando células CAR-T, os cientistas coletaram amostra do sangue do paciente e isolaram os linfócitos T para serem modificados geneticamente.

Para fazer a alteração genética, foram inseridos um vírus sintético dentro dos linfócitos T. Esse vírus é produzido em laboratório e carrega em seu DNA a capacidade de reconhecer diretamente ligadas ao câncer que se deseja combater – nesse caso, uma proteína chamada CD-19, que está presente nos linfócitos B doentes (é isso que quer dizer, basicamente, a nomenclatura “receptor de antígeno quimérico”).

Quando o vírus era introduzido nos linfócitos, ele também transfere esse “super-poder”. A partir daí, os linfócitos já podem ser considerados células CAR-T, pois já sofreram a alteração genética.

Elas são reinseridas no paciente com sua nova habilidade e passam a procurar a proteína CD-19, Depois de identificar as células cancerígenas, o linfócito T faz exatamente o que ele nasceu pra fazer: combater agentes considerados perigosos. Dessa forma, eles eliminam as células que contém o tumor.

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Quanto custa

O tratamento já vem sendo utilizado nos Estados Unidos, Europa, China e Japão. Ele é oferecido comercialmente por duas indústrias farmacêuticas americanas ao preço de 400 mil dólares (cerca de R$1,6 milhão). Junto com as despesas hospitalares, todo o tratamento pode chegar a 1 milhão de dólares (R$4 milhões).

Com a metodologia brasileira, ele tem custo aproximado de R$150 mil, mas os pesquisadores afirmam que o valor pode abaixar se ele for oferecido em larga escala. O objetivo dos cientistas é incluir o tratamento no rol de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS).

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