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Estudo derruba o mito: aborto não aumenta risco de depressão

A pesquisa acompanhou a vida de mais de 20 mil garotas americanas por 15 anos seguidos.

Mesmo nos países em que o aborto é legalizado, ele é controverso – e não faltam pesquisas que tentam entender quais os impactos psicológicos de interromper uma gravidez.

Essa preocupação está no cerne das políticas públicas: dos EUA ao Uruguai, é muito comum que um requisito para o aborto legal sejam sessões de aconselhamento psicológico. Até aí tudo bem – mas em seis estado americanos, esse profissional é obrigado a enfatizar os riscos à saúde mental e as “respostas emocionais negativas” que o aborto traz.

Essa obrigação estaria atrelada a pesquisas que mostram que o aborto aumentaria o risco de distúrbios emocionais. Mas esse não é o caso. Segundo investigou a professora Anu Manchikanti Gómez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, a ciência diz o contrário: artigo após artigo demonstra que não há risco aumentado de ansiedade, depressão ou queda de autoestima associado ao aborto.

Ela decidiu tirar a prova, analisando 15 anos seguidos de dados sobre mais de 20 mil garotas americanas, em um dos maiores estudos já feitos sobre o assunto. Seu foco eram as mulheres jovens, que seriam especialmente vulneráveis. Primeiro, porque a frequência de depressão e ansiedade no início da vida adulta é maior. E, depois, porque é nessa faixa etária de pouca estabilidade que costuma ocorrer a primeira gravidez de uma mulher – e ela é quase sempre acidental.

Cerca de 45% de todas as gestações são classificadas pelas mulheres como “indesejadas” no momento da concepção. Mas quando olhamos só para as mulheres que engravidam entre os 18 e o início dos 20, esse número sobe para 76%.

O estudo de Gómez incluiu mulheres entrevistadas em 4 fases (que ela chamou de Ondas) diferentes. A Onda 1 foi em 1994, quando elas estavam no colegial. A Onda 2, um ano depois, entrevistou as mulheres que responderam à Onda 1 e ainda não tinham se formado. Cinco anos depois, quando as participantes tinham entre 18 e 25 anos, veio a Onda 3. E o último questionário foi respondido entre 2007 e 2008. No final da Onda 4, portanto, as participantes tinham entre 24 e 32 anos.

As primeiras duas ondas perguntavam sobre a saúde (física e mental) das meninas, tanto para elas mesmas quanto para seus pais. A partir da Onda 3, os questionários perguntavam sobre experiências sexuais, gravidez e traumas vividos na adolescência e na juventude.

Em todas as fases da pesquisa, era aplicado um teste rápido para saber se as participantes tinham manifestado sintomas depressivos recorrente, que incluía perguntas como: “Recentemente, com que frequência você se sentiu triste? Feliz? Aproveitando a vida? Teve a impressão de que os outros não gostam de você? Se incomodou com coisas que não costumam incomodar? Não conseguiu afastar pensamentos melancólicos?”

Ao final da pesquisa, foram analisados os dados de mulheres que tiveram pelo menos uma gravidez indesejada no intervalo das 4 ondas. Entre 24% e 28% delas tinham feito um aborto. E aí a autora do estudo foi cruzar as informações.

Ter optado pelo aborto não foi associado à ocorrência de depressão nas mulheres, independente da faixa etária. Uma mulher que fez um aborto tinha exatamente o mesmo risco de desenvolver depressão no futuro que uma mulher que decidiu manter a gravidez.

Sabe o que afetava, de fato, a saúde mental na vida adulta? Ter tido depressão na adolescência. Ou então ter experimentado traumas – abusos psicológicos, físicos e sexuais – de pais, parceiros e conhecidos durante a adolescência.

Com o estudo, Gómez tem a intenção de deixar claro que as políticas públicas estão com as prioridades erradas quando se trata de saúde mental feminina.

“Essa análise (e um crescente número de trabalhos), que não encontra nenhuma relação entre o aborto e problemas de saúde mental subsequentes, sugere que as política públicas que querem melhorar a saúde mental das mulheres deve focar em outro lugar. Particularmente, em intervir para reduzir exposição ao trauma entre adolescentes e mulheres jovens – independente do seu ‘status’ de gravidez”, conclui.