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Fazer o que gosta é fazer com o coração

Ao escolher o seu esporte favorito, cada povo revela o seu jeito de agir e de pensar

Igor Fuser / Reportagem de Lia Hama

Conte-me qual é o seu esporte favorito e direi de onde você é. Corrida de bicicleta? França. Ping-pong? China, claro. Rugby?Hummmm… Você provavelmente nasceu em alguma ex-colônia britânica, como a Austrália, o Canadá ou a Nova Zelândia. Para os pesquisadores, as preferências esportivas refletem a mentalidade e o estilo de cada povo. “O esporte age como a janela de uma cultura”, afirma o antropólogo americano Robert Sands, um especialista em esportes.

O exemplo mais perfeito está aqui mesmo, no Brasil. “O futebol veio juntar-se ao Carnaval, à música e à ausência de ódio racial como uma das fontes mais importantes da identidade brasileira”, diz o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, professor na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos (veja texto na página 49). Para o americano Sands, a expressão dos traços nacionais por meio do esporte ajuda a quebrar a monotonia da globalização, com sua tendência a padronizar no mundo inteiro as roupas, a comidas e o lazer. “Nas Olimpíadas e na Copa do Mundo, cada país restabelece a sua própria identidade na arena global”, diz.

Nada como uma bola para expor a diferença entre o modo de vida dos brasileiros e o dos americanos. Nos Estados Unidos, os jogos mais populares são os que melhor combinam com o ritmo alucinante de sua economia: o basquete, o beisebol e aquele agarra-agarra que eles chamam de futebol. Nessas competições, o placar muda o tempo todo, freneticamente. Uma boa jogada é aquela que resulta na marcação de pontos. Tudo muito pragmático. No nosso futebol, a diversão é outra. A platéia se levanta para aplaudir um drible que não faz diferença nenhuma no placar – e ninguém se sente lesado por pagar ingresso num jogo que termina em zero a zero. O público do basquete ou do futebol americano, acostumado ao ritmo estonteante das partidas, acha o nosso futebol um tédio. A preferência esportiva revela o culto à produtividade reinante nos Estados Unidos, enquanto nós valorizamos, acima de tudo, o prazer de um belo espetáculo.

O críquete, esporte cheio de salamaleques, reflete o jeito cerimonioso dos ingleses. Já houve até quem comparasse a lentidão dos arremessos ao complicado protocolo dos debates no Parlamento. Assim como na política o orador ouve seus adversários antes de replicar, no críquete cada time espera pacientemente sua vez. As partidas podem durar até dois dias e os jogadores nem sequer transpiram – tanto que o uniforme é calça e suéter, em vez de calção e camiseta.

E por que será que o rugby, inventado na Inglaterra, faz mais sucesso nas ex-colônias britânicas do que na antiga metrópole? Esse primo truculento do futebol seria, na opinião do antropólogo Sands, “um símbolo da epopéia dos colonos anglo-saxões em luta contra ambientes hostis”. A Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul, três superpotências do rugby, compartilham trajetórias históricas parecidas – colonos brancos em luta encarniçada contra os povos nativos e a natureza hostil. Um pega-pra-capar que os praticantes de rugby reproduzem disputando a bola aos safanões.

 

Neurônios no comando

Na Alemanha, o que chama atenção é o imenso prestígio do handebol. O fato de se jogar com a parte superior do corpo pode ser mais que coincidência, dado o notório racionalismo dos alemães. “A mente controla muito mais as mãos do que os pés”, afirma a socióloga Claudia Guedes, professora na Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo. Teoria semelhante se aplica ao sumô, arte marcial japonesa em que os lutadores mais parecem ursos se abraçando. “O sumô trabalha com o equilíbrio, a força, a concentração e a disciplina”, analisa Claudia. “Todos esses valores são muito importantes na cultura do Japão.”

A tradição também explica por que os franceses lideram, disparados, o ranking olímpico do ciclismo. Mais do que em qualquer outro país, os franceses cultivam o hábito de viajar para o campo nos fins de semana – um trajeto que até a metade deste século se fazia pedalando, pois os carros ainda eram um luxo. “Para os franceses, a bicicleta está associada à idéia da qualidade de vida”, diz o historiador Nicolau Sevcenko, da Universidade de São Paulo. Outras vezes, o que faz a diferença é a história. O virtuosismo dos ginastas olímpicos da ex-União Soviética está ligado a uma tradição circense com raízes nos tempos em que a chegada de uma trupe de acrobatas era um dos raros divertimentos nas aldeias espalhadas por um território imenso.

Já a China é o paraíso do ping-pong. Lá, o sucesso desse esporte se deve à facilidade de praticá-lo em espaços muito apertados. Bastam uma bolinha, duas raquetes, uma pequena rede e uma mesa. Num país de cidades-formigueiros, onde falta espaço para estádios e ginásios, a simplicidade é uma vantagem e tanto. “Já vi gente jogando ping-pong até em cima de túmulos nos cemitérios”, conta o jornalista Jayme Martins, diretor do programa Roda Viva, da TV Cultura, que morou na China nas décadas de 60 e 70. Você imaginava que por trás das medalhas olímpicas existisse tamanha diversidade cultural?

Com a cara do jogo

Os esportes, em muitos países, não são apenas uma questão de gosto, mas um ritual que ajuda a identificar a posição de cada indivíduo na sociedade. Na Inglaterra, famosa pela rígida estrutura de classes sociais, as preferências esportivas acompanham a distribuição da riqueza. A aristocracia tem sua imagem associada ao pólo, a classe média adora o críquete e o futebol mobiliza principalmente os trabalhadores menos instruídos.

Nos Estados Unidos, o esporte sofre influência das diferenças de raça e de origem dos ancestrais. “Os negros americanos escolheram o basquete como meio de auto-afirmação”, analisa o antropólogo Robert Sands. Embora tenha sido inventado por brancos, no final do século XIX, esse esporte tem sido dominado pelos negros desde a década de 60, quando eclodiu o movimento pela igualdade social.

Já o beisebol foi, no início, um instrumento de assimilação dos imigrantes italianos e porto-riquenhos.

Não é à toa que o maior craque de todos os tempos nesse esporte se chama Joe DiMaggio – um filho de italianos.

Sambando com a bola no pé

Inventado pelos ingleses, o futebol foi adotado pelos brasileiros com uma paixão somente igualada por sua perícia em jogá-lo. Tornou-se uma instituição tão nacional quanto o jogo do bicho e a cachaça. Como explicar essa preferência irresistível? Para começar, trata-se de um esporte jogado com os pés e não com as mãos, como ocorre na versão americana do futebol. As mãos conferem a qualquer esporte uma alta precisão tática e técnica. Com os pés, em contraste, o futebol se torna menos previsível. Um time pode derrotar um outro muito superior a ele. A partida oferece, assim, um terreno fértil para as idéias de sorte, destino e predestinação, ingredientes muito fortes na religiosidade dos brasileiros.

Além disso, o uso dos pés obriga a inclusão de todo o corpo, com destaque para os quadris e a cintura, partes da anatomia humana que, no Brasil, são alvos de um elaborado simbolismo. Fala-se do brasileiro “esperto” como aquele que tem “jogo de cintura”. Significativamente, essa expressão se aplica tanto ao político populista quanto ao bom jogador de futebol e ao próprio estilo de praticar tal esporte no país, criando um jogo bonito de se ver. O futebol brasileiro, ao instituir o jogo de cintura como estilo nacional, consagra a malandragem como arte de sobrevivência – sem excluir, com isso, a capacidade de jogar com técnica e força, como os europeus.

O futebol também funciona como um formidável instrumento de integração social. Graças a ele, o povo brasileiro experimenta as vantagens da organização e saboreia o gosto da vitória. Ao torcer por seus times favoritos, as multidões sentem que o seu desempenho produz resultados palpáveis.

E o estádio vira uma escola de democracia. Não foi no Parlamento que o nosso povo aprendeu a respeitar as leis, mas assistindo a jogos em que as regras são as mesmas para todos. Lá, ao contrário da experiência política corriqueira, as leis não podem ser mudadas por quem está perdendo nem por quem está ganhando.

No futebol não existem golpes de Estado. As regras do jogo valem para todos – para times ricos e pobres, famosos ou anônimos, campeões ou comuns.

O respeito pelas regras assegura que vitoriosos e perdedores se alternem o tempo todo, em contraste com as hierarquias imutáveis de poder e de diferenciação social que marcam o nosso cotidiano. Aí está uma bela lição de justiça social. Produzindo um espetáculo complexo, mas governado por regras simples que todos conhecem, o futebol demonstra que o melhor, o mais capaz e o que tem mais mérito pode, de fato, vencer.

Nascidos para vencer

Michael Jordan, Carl Lewis, Pelé, Muhammad Ali – todos eles descendentes de africanos. Um livro recém-publicado nos EUA reforça a polêmica tese de que os negros têm mais aptidão para os esportes do que os demais grupos raciais. Em Tabu – Por Que Os Atletas Negros Dominam O Esporte e Por Que Temos Medo de Falar Disso ( veja página 58), o jornalista americano Jon Entine apresenta dados que dão o que pensar. Nos EUA, 80% dos jogadores de basquete da liga mais importante – a NBA – são negros, assim como 65% dos atletas da principal liga de futebol americano. Na corrida, os quinze principais recordes pertencem a africanos ou descendentes de africanos.

“A vantagem competitiva dos negros no atletismo é irrefutável”, escreve Entine. Ele sabe que essa frase o torna suspeito de racismo. Os intelectuais negros repudiam as teorias que enfatizam a capacidade física de sua raça por desconfiarem que elas menosprezam a sua inteligência. Entine não se preocupa com o QI e sim com diferenças biológicas. Seu livro cita pesquisas que identificaram, em populações africanas, traços físicos que favorecem a velocidade e a resistência, tais como uma taxa menor de gordura corporal e uma proporção maior das fibras musculares que se contraem mais depressa. Os negros também superam os brancos na capacidade de enviar oxigênio aos músculos. Deduz-se que a supremacia negra nos esportes só não é maior por culpa da discriminação social e racial. A natação, por exemplo, ainda é terreno quase exclusivo dos brancos e dos orientais. Quando o acesso às piscinas deixar de ser um privilégio, essa moleza vai acabar.