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Futebol , por que parar? parar por quê?

Para adiar o fim, os jogadores tabelam com o avanço da medicina esportiva e da preparação física. Mas também não faltam adversários que podem encurtar as carreiras.

Fabio Volpe

O grande dilema de um país que costuma parar em ano de Copa do Mundo é saber se dá para confiar ou não em um sujeito de 36 anos. Se ele estivesse se candidatando à Presidência da República, poderia até ser considerado inexperiente, mas, como o personagem em questão é um artilheiro, os anos não lhe faltam, sobram. “Romário está velho”, pensam muitos brasileiros – entre eles, pelo visto, um tal de Felipão. “Não interessa a idade. Lá dentro ele resolve”, respondem outros. Desse cisma nacional emerge uma polêmica: qual é o limite de idade para um jogador de futebol?

Quem reclama ao ver Romário caminhando em direção ao lado mais sombreado do campo pode achar que, após os 30, a decadência é inevitável. Mas o que dizer, então, de alguns exemplos impressionantes tirados da história do futebol mundial? O atacante camaronês Roger Milla tinha 42 anos quando jogou a Copa de 94 sob o escaldante sol do verão americano. O ponta-direita Stanley Matthews já estava com 48 quando foi eleito por jornalistas o craque do ano na Inglaterra em 1963, e continuou na ativa até os 50 anos.

É claro que Milla e Matthews são exceções. Além disso, ao passar dos 40, certamente já não tinham o mesmo fôlego com que corriam duas décadas antes. Fisicamente falando, dribles e malícia à parte, o ápice de um jogador ocorre entre os 20 e os 30 anos. A partir daí, o organismo passa a dar alguns sinais de que é melhor começar a investir na carreira de técnico. “Existem vários gargalos de envelhecimento na vida. O primeiro realmente importante ocorre quando a pessoa completa 40 anos; mas a partir dos 30 esse processo já tem início”, afirma João Toniolo Neto, chefe da Geriatria da Universidade Federal de São Paulo.

O fantasma do envelhecimento começa a assombrar os atletas com a perda de massa muscular. Os culpados são os hormônios anabólicos, responsáveis pela construção e manutenção dos músculos do corpo. Entre os 30 e os 40 anos a produção desses hormônios – como a testosterona, a insulina e o GH, popularmente chamado de hormônio do crescimento – cai e o desgaste do tecido muscular ultrapassa a capacidade do organismo de regenerá-los. Nas primeiras décadas desse processo – chamado de sarcopenia –, a perda de massa é pequena. Quando alguém chega aos 60 anos, porém, já deixou pelo caminho 25% dos músculos.

Por volta dos 30 anos, a perda ainda é pequena, mas para um atleta profissional pode ser decisiva. Os primeiros efeitos aparecem nos lances e nos movimentos que dependem de explosão muscular, como a potência na hora do chute, a impulsão vertical e a velocidade de arranque. As chances de lesão também crescem, pois com menos massa muscular as articulações ficam mais vulneráveis. Numa segunda etapa, por volta dos 40, até a capacidade visual começa a diminuir, já que a musculatura envolvida no sistema ocular também enfraquece. O mais comum nessa época é a perda da visão de perto (presbiopia). Ou seja, lançamentos longos, tudo bem; já as tabelinhas…

Quem resiste mais bravamente à marcação cerrada da sarcopenia é o coração, o que leva os especialistas a assegurarem: nenhum jogador que treine adequadamente precisaria se aposentar antes dos 40 por falta de fôlego. A explicação é simples: a capacidade de resistência física – aquele gás necessário para correr os 90 minutos – depende mais do funcionamento do coração do que da força nas pernas, que diminui bem antes de o coração cansar de bombear sangue para o corpo todo.

Como a força e a resistência física não regridem na mesma velocidade, a vida útil do jogador também é influenciada pela posição dele em campo. Quanto maior o uso da resistência no lugar da força, maior será a longevidade. “Laterais e meio-campistas, teoricamente, tendem a durar mais. Já a carreira de um atacante ou zagueiro seria mais curta”, afirma Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista do São Paulo.

Segundo um levantamento feito por Turíbio, laterais e meias são mais exigidos em relação à resistência física, pois percorrem, em média, 12 quilômetros numa partida contra os 8 quilômetros de atacantes e zagueiros. Por outro lado, beques e candidatos a artilheiros dão quase 50% a mais de piques curtos, em que o fundamental é a força muscular, justamente a aptidão física perdida mais cedo pelo corpo humano.

Técnica: o trunfo dos veteranos

Então, como Romário, mesmo sendo um atacante (e daqueles que não cuidam bem do fôlego), ainda tira o sono de Luiz Felipe Scolari? É que não dá para esquecer mais um fator que determina a longevidade dos boleiros: o aspecto técnico. Esse é um dos grandes trunfos dos veteranos no futebol: dentro de campo, condição física não é tudo. No atletismo, se o sujeito começa a perder força muscular e preciosos décimos de segundos nos 100 metros rasos, não dá para buscar um atalho, cortando caminho entre as raias. No futebol, Romário garante que dá: “Desde os 28 anos penso em parar todo fim de ano. Mas me sinto bem, hoje sou um jogador mais inteligente, conheço melhor o campo”.

Não é papo furado do “Baixinho”. A qualidade técnica, quando bem usada, pode realmente servir para driblar o tempo. Um exemplo famoso no futebol brasileiro é de outro atacante, Müller. Quando surgiu no São Paulo, no início dos anos 80, era um jogador de explosão e velocidade. Assim chegou à Seleção na Copa de 86. Obviamente foi perdendo essa característica com o passar dos anos, mas soube usar a qualidade técnica para não ser prejudicado, investindo mais no posicionamento em campo e na capacidade de proteger a bola e antever as jogadas. Os jogadores que têm essa percepção certamente são aqueles que terão maior facilidade para empurrar por mais tempo a chegada da aposentadoria.

Se o fator técnico dificulta a tentativa de determinar o limite de idade de um jogador, por ser imensurável, a ocorrência de lesões durante a carreira também atrapalha, por ser imprevisível. Os especialistas são unânimes ao assegurar que qualquer jogador poderia continuar em atividade até os 40 anos se mantivesse joelhos e tornozelos longe da sala de cirurgia – mas essa não é uma tarefa das mais fáceis. As chances de surgir um novo Stanley Matthews, jogando num nível competitivo até perto dos 50 anos, são mínimas, como explica Turíbio: “Hoje é quase impossível chegar a essa idade sem lesões sérias. O número de lesões de joelho é certamente o dobro em relação à década de 60”.

Há, é claro, os obstinados que até desse marcador implacável conseguem escapar, contando com uma boa ajuda da evolução da medicina esportiva. Um bom exemplo é o zagueiro Mauro Galvão, 40 anos completados em dezembro. Nos seus 23 anos de carreira, com passagens por Internacional (aos 17 anos conquistou, no clube gaúcho, seu primeiro título brasileiro, em 1979), Bangu, Botafogo, Grêmio (campeão brasileiro em 1996), Vasco (campeão brasileiro em 1997 e 2000) e Seleção Brasileira, Galvão já enfrentou a “faca” três vezes, todas no mesmo joelho, o esquerdo. A primeira cirurgia, para retirar parte do menisco (uma espécie de amortecedor entre o fêmur e a tíbia), foi em 1980. A última, por motivo semelhante, em 2000. O zagueiro sentiu na pele, ou melhor, na articulação, o quanto a medicina esportiva mudou nesses 20 anos: “Na primeira operação, saí do hospital com um gesso na perna e demorei 45 dias para voltar a treinar. Na mais recente, já estava andando 24 horas depois e voltei aos treinos em 20 dias”.

Quem joga a favor e contra

Mauro Galvão deve a velocidade de recuperação ao médico francês Henri Dejour, que, na década de 80, foi o precursor no uso da artroscopia para intervenções cirúrgicas no joelho. A técnica é menos agressiva: não é preciso abrir todo o joelho e possibilita ao médico suturar o menisco, em vez de extraí-lo totalmente, como era comum até os anos 80. “Sem os meniscos, os jogadores desenvolviam artroses precoces que antecipavam o final da carreira”, diz o ortopedista João Gilberto Carazzato, chefe do grupo de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Lesões que não tinham solução há 20 anos, como nos ligamentos cruzados do joelho, que não podiam ser reconstruídos anatomicamente, também já podem ser tratadas graças ao aperfeiçoamento de técnicas de cirurgias dentro das articulações. Carazzato revela que ainda mais novidades estão surgindo: “Hoje já estão sendo feitas as primeiras tentativas de transplante de meniscos”.

E não é só a medicina esportiva que tem jogado a favor da maior longevidade dos jogadores. O aprimoramento da preparação física também ajuda. No início dos anos 90, os principais clubes do país começaram a investir na individualização do treinamento. Submetidos a avaliações personalizadas, cada atleta passou a receber uma carga de exercícios específica. Sem estar exposto a uma intensidade de treinos que fique aquém ou além da sua capacidade, o jogador se machuca menos e rende mais.

A Fifa também tem dado uma boa dose de contribuição para os Romários e os Galvões da vida ao exigir cada vez mais que os árbitros coíbam a violência em campo. Os resultados, pelo menos no Brasil, têm sido concretos. No primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, por exemplo, houve uma média de uma expulsão a cada seis jogos. Na competição do ano passado, o número de cartões vermelhos triplicou: uma expulsão a cada dois jogos. Com o maior rigor da arbitragem, teoricamente diminuem a violência e as chances de lesão.

Mas nem tudo concorre em favor dos veteranos. O aumento da competitividade nas partidas atrapalha cada vez mais. Se você duvida da evolução física no futebol nas últimas décadas, experimente dar uma olhadinha num teipe da Seleção na Copa de 70. A diferença no ritmo do jogo é gritante. A marcação, hoje exercida no campo todo, naquela época só apertava depois da linha do meio-de-campo. “Nestes 30 anos houve um acréscimo de 30% a 40% na distância percorrida pelos jogadores durante uma partida. Se antes cada um deles corria 7 quilômetros por jogo, hoje chega a percorrer 11”, diz o doutor Turíbio. Para os atletas veteranos fica cada vez mais difícil acompanhar o ritmo.

Os jogadores correm mais. O campo, porém, continua do mesmo tamanho. Resultado: os choques são cada vez mais freqüentes nas partidas de hoje, mesmo com os árbitros de olho. Apesar de não dispor de estatísticas precisas sobre o assunto, o doutor Paulo Zogaib, que trabalhou durante anos como fisiologista do Palmeiras e hoje é professor da Escola Paulista de Medicina, garante: “As lesões estão aumentando por causa da intensidade do jogo. E, no futebol, o principal fator limitante para a longevidade do atleta é, disparado, a ocorrência de lesões no joelho”. Uma pesquisa feita pela revista Placar com 450 jogadores da Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro em 2000 aponta na mesma direção: 40% dos atletas entrevistados já haviam sido operados uma ou mais vezes na carreira e quase 60% deles por problemas no joelho.

Ainda está empatado o confronto entre os que defendem que será cada vez mais fácil ter uma carreira longa no futebol e os que dizem que a vida útil dos craques vai diminuir inexoravelmente. Mas se Romário, aos 36 anos, pudesse chegar à próxima Copa, teria resolvido mais essa decisão.

Envelhecimento precoce

O jogador que entra na turma dos trintões começa a sair da elite no futebol brasileiro.

Na divisão principal do campeonato nacional do ano passado nem 10% dos jogadores tinham mais de 30 anos. Veja a distribuição dos atletas por faixas etárias

60% Até 25 anos (389 jogadores)

30% Entre 26 e 30 anos (194 jogadores)

9% Entre 31 e 35 anos (55 jogadores)

1% 36 anos ou mais (8 jogadores)

Chama o velho

A média de idade dos 22 convocados da Seleção Brasileira variou pouco desde 1950. Nota-se, nas últimas Copas, uma tendência a chamar jogadores cada vez mais velhos. Será porque a preparação física atual permite aos jogadores de hoje durarem mais?

Canarinhos de fôlego

Se entrar em campo com a camisa amarela após 4 de janeiro de 2004, Romário passará a ser o jogador com mais tempo de serviço pela Seleção. Hoje ele ocupa o décimo lugar nesse ranking. A maioria dos que estão à frente parou há mais de 30 anos. Confira