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Gordura não é veneno: quando os colesteróis fazem bem

O compreensível temor que causa, por estar associada a doenças do coração, devido a algum desequilíbrio, não deve obscurecer o seu papel essencial dentro do organismo, ainda muito pouco conhecido.

Martha San Juan França

Carne, leite, ovos, camarão e babaçu são alimentos de origem bem diversa, mas têm algo em comum: todos eles contêm boa quantidade de gorduras. São substâncias perigosas, porque podem se tornar letais ao menor desvio de rota, ou desequilíbrio, dentro do organismo. Mas isso não deve obscurecer o papel central que elas desempenham para as células, que armazenam 95% da sua energia justamente na forma de gorduras. A maneira como isso acontece não apenas revela minúcias sobre a formidável máquina do corpo humano — mas também mostra como se podem evitar os descaminhos que levam aos infartos e outros males do coração.

Antes de mais nada, é preciso saber que o nome “gordura” é mero apelido popular para duas categorias de substâncias, a do glicerol e a dos chamados ácidos graxos. Essas categorias, por sua vez, são os principais integrantes da família dos lipídios, cujo traço marcante é serem substâncias insolúveis em água. Isso ajuda a entender por que alimentos úteis e saborosos, como um sorvete coberto com chantili, podem causar tanto mal, em determinadas circunstâncias. Moléculas complexas, os lipídios são decompostos, depois de ingeridos, e trafegam pelo corpo ligados a proteína — como se fossem colocados num veículo. Ao conjunto de veículo e passageiro se chama lipoproteína. Cada molécula assim montada toma um destino diferente no organismo e recebe nome próprio.

Um desses veículos, a LDL, é um dos bandidões do organismo. Quando se concentra demais no sangue, eleva o risco de ataques cardíacos. Claro que nem sempre é assim. Uma lipoproteína de baixa densidade, a LDL normalmente realiza uma tarefa utilíssima, pois, junto com a VLDL (ou lipoproteína de muito baixa densidade), leva energia às células. Os veículos apenas entregam sua porção lipídio, que é armazenada na forma de substâncias chamadas triglicérides.

Operação parecida gera também fosfolípides, essenciais na composição das membranas celulares, e colesterol, usado para produzir substâncias como a bile e os hormônios sexuais. O perigo, portanto, só começa quando passa a haver no sangue mais LDL que o necessário. O terceiro tipo de lipoproteína é o HDL. De alta densidade, sintetizado no fígado e no intestino, seu papel é o de um caminhão de lixo, removendo o excesso de colesterol dos tecidos. Os resíduos são levados, primeiro, para a circulação sangüínea e daí para o fígado, de onde ele é eliminado para o intestino pelas vias biliares. O problema do HDL é justamente seu parceiro LDL: quando se ingere muita gordura, há um excesso de LDL e o batalhão de HDL não dá conta do serviço. Enfim, há uma quarta categoria de lipoproteínas, a do quilomícron, que só agora começa a ser melhor conhecido. Mas isso não quer dizer que o conhecimento disponível sobre as outras esteja completo. Longe disso.

Muitas das pesquisas atuais visam justamente preencher as lacunas existentes. Apenas em 1973, por exemplo, se descobriu como as lipoproteínas abordam as células e lhes entregam encomendas. Dois cientistas da Universidade do Texas, Leonard Goldstein e Michael Stuart Brown, provaram que as células têm uma espécie de argola em sua superfície. Ou seja, são moléculas encravadas na membrana, que auxiliam o contato com as lipoproteínas. Tais estruturas valeram aos pesquisadores o Prêmio Nobel de Fisiologia 1985. Reconhecimento mais do que merecido, pois a partir daí se estabeleceu de uma vez por todas a relação entre o superávit de colesterol no sangue e as doenças do coração. A aterosclerose, por exemplo, resulta de níveis perigosamente altos de LDL no sangue — e uma conclusão importante de Brown e Goldstein foi que esse problema, em grande parte, é provocado por falhas associadas aos apos. Outra área cinzenta do conhecimento é o que ocorre logo depois de se ingerir alimentos gordurosos.

O colesterol, por exemplo, era apontado por centenas de estudos desde a década de 70, como fonte do mal, mas não havia como acompanhar a sua ação, ou a de outras lipoproteínas. Uma saída recente foi criar gorduras artificiais, isto é, contendo uma espécie de marca química, de modo que podiam ser perseguidas no organismo pelos olhares dos médicos. Um experimento assim foi realizado pelo endocrinologista Raul Maranhão, do Instituto do Coração (Incor), de São Paulo. Com isto, foi possível “enxergar” até o quilomícron, de densidade tão baixa que mal se podia distinguir ao microscópio eletrônico.

Quilomícrons artificiais foram injetados em dois grupos, um deles de pessoas que apresentavam sintomas de doenças cardíacas e outro de pessoas saudáveis. Verificou-se que o organismo das primeiras removia as substâncias com mais lentidão do que o das segundas. Isso pode esclarecer a origem de certos entupimentos de artérias, explica Maranhão. “Quando o organismo não consegue remover rapidamente essas partículas, elas provavelmente têm mais chance de se depositar nas paredes arteriais.” Começariam a se formar as placas de ateromas, de efeitos danosos.

Chefe do Laboratório de Lipídios do Incor, Maranhão fala também de avanços na compreensão dos derrames, especialmente de um tipo raro, que atinge pessoas jovens, aparentemente sadias. Há casos de jovens, muito bem dispostos, que estão fazendo jogging na rua e, sem mais nem menos, são fulminados. Imagina-se, agora, que esse risco esteja associado a um mau funcionamento de apolipoproteínas, as moléculas que se encaixam nos apos, os ganchos celulares descobertos em 1973. Uma sugestão assim surgiu em fevereiro passado, numa reunião da Associação Americana do Coração. Janet Ransom co-autora do estudo, pensa que o mal seja hereditário.“Pessoas sem alto índice de colesterol ou outros fatores de risco podem sofrer distúrbio hereditário dessa gordura no sangue.”

Por enquanto, não há muito o que se possa fazer nesses casos, diz o cardio-logista Francisco Cotrim, médico do setor de lípides da Escola Paulista de Medicina (EPM). “Mas há muito a ser feito para controlar a gordura responsável por boa parte dos episódios da doença.” A EPM cria coelhos com dietas variadas de gordura para estudar as repercussões nas artérias. Cotrim também aplica medicamentos nos animais em busca dos melhores meios de prevenir e reduzir as rolhas de ateromas. Certamente não será esforço vão. Apenas nos Estados Unidos surgem todos os anos 1 milhão de novos casos de infarto, a maior parte por excesso de colesterol. Pesquisa divulgada no ano passado com 5 832 pessoas, em cinco capitais brasileiras, revelou que 40% têm nível de colesterol elevado. Previu-se que até o final deste ano 500 000 brasileiros iriam morrer por doenças cardiovasculares, que já são a principal causa de óbitos nas grandes capitais.

Quem quiser saber mais sobre tais estatísticas pode ter uma conversa com o médico paulista Antônio Ramirez, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da ILIB do Brasil, organização internacional de informações sobre lipídios e sua relação com doenças cardiovasculares, criada em 1987. A conversa não precisa girar em torno de más notícias. Ramirez também pode contar que, no mundo todo e também no Brasil, se aprende mais e mais sobre desequilíbrios na absorção de gorduras. Além disso, o esforço em martelar em seus clientes a necessidade de hábitos alimentares mais saudáveis tem levado a taxa de mortalidade a despencar. “Os avanços, aliados a campanhas educativas, fizeram com que as mortes por doenças cardiovasculares, nos Estados Unidos, diminuíssem 30% nos últimos vinte anos”.

Nessa luta — em que a ciência enfrenta hábitos culturais difíceis de mudar —, as vitórias, mesmo parciais, são bem-vindas. E elas estão se acumulando. Entre remédios, regimes, informações e algum autocontrole, as pessoas passíveis de problemas cardio-vasculares podem ficar bem mais sossegadas, em comparação com um passado não muito distante. Hoje, é mais fácil fugir da rota que leva ao ataque cardíaco, desde que se desfrutem os prazeres da boa mesa sem sacrificar a saúde.

 

 

Para saber mais:

A dura jornada do sanduíche boca adentro

(SUPER número 12, ano 4)

O Brasil vai à mesa

(SUPER número 6, ano 5)

O mais fino dos sentidos (SUPER número 10, ano 7)

A armadilha do açúcar

(SUPER número 3, ano 8)

Sob pressão

(SUPER número 12, ano 8)

 

 

 

Uma gordura luta contra o câncer

Quem diz que um bandido não pode ser um bom samaritano de vez em quando ? Uma versão artificial da LDL (lipoproteína de baixa densidade), o mau colesterol, pode ser o veículo que a medicina precisava para levar substâncias anticancerígenas exclusivamente para as células de tumor, sem afetar os tecidos saudáveis do corpo. Até agora, para obter um mínimo de êxito no tratamento, os cancerologistas precisavam injetar medicamentos em doses altas, já que apenas uma parte chegava até o local onde as células do tumor estavam se reproduzindo.

A patente da partícula artificial de LDL já foi requerida pelo endocrinologista Raul Maranhão, do Incor, em São Paulo, que testou a sua eficiência em pessoas com leucemia e câncer de mama. Segundo explicou o médico, as células cancerosas proliferam violentamente e precisam buscar elementos para a produção da membrana celular, que é composta basicamente de fosfolipídios e colesterol. Para isso, essas células multiplicam os seus receptores até cem vezes mais que suas colegas normais, captando os elementos indispensáveis para a produção de membranas justamente no LDL que está na circulação.

Já se sabia que o LDL funcionava como mensageiro, mas os cientistas não conheciam a chave que faz com que a molécula sintética abra os receptores das células doentes, a exemplo do LDL natural. Depois de várias experiências em ratos, iniciadas há cinco anos, Maranhão descobriu que a apolipoproteína Apo-E era a chave procurada. Os resultados mostram que a LDL sintética é captada pelas células doentes do paciente, que são as que possuem mais receptores.