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Como se preparar para a morte

Lidar com o fim da vida é um tabu na nossa cultura, mas organizar-se para esse momento pode evitar sofrimentos desnecessários.

A americana Judy MacDonald Johnston criou, em 2014, um site chamado The Good End of Life – o bom fim da vida. Sua ideia é, basicamente, orientar as pessoas sobre as providências que se deve tomar para garantir que nossos últimos dias sejam do jeito que gostaríamos (veja no quadro abaixo). À primeira vista, pode parecer mórbido, mas esse tipo de plano é fundamental para morrermos em paz, literalmente. No Reino Unido, por exemplo, um estudo revelou que 60% das pessoas gostariam de morrer em casa, mas apenas 18% delas têm esse último desejo realizado. Judy aprendeu a importância desse ritual após uma experiência transformadora.

Nos anos 2000, ela comprou um rancho na Califórnia (EUA) e tornou-se vizinha dos octagenários Jim e Shirley Modini. Alguns anos depois a senhora descobriu um tumor nas mamas e o casal começou a pensar em sua morte. E eles decidiram ser protagonistas da própria vida até seus últimos dias, ainda que estivessem muito doentes. Como não tinham filhos e moravam longe dos amigos, pediram à vizinha para garantir que tudo saísse como eles queriam.

“Essa ‘preparação’ aconteceu naturalmente, conforme as coisas aconteciam”, diz Judy. Ela contratou enfermeiros para cuidar da recuperação de Shirley após a mastectomia e, aos poucos, tratou de tudo que dizia respeito à morte dos dois, conforme as escolhas que eles mesmos fizeram – como morrer em casa, e não num hospital.

Oito anos depois, Jim morreria com um câncer de esôfago. Logo após, a idosa quebrou o quadril e os médicos queriam operá-la. Judy teve de escolher: topar a cirurgia e deixar Shirley internada por dias (talvez os últimos) ou levá-la para casa. “Ela mal andava e não conseguia falar direito. Conversei com ela sobre as opções e, quando falei ‘vamos para casa’, este foi o único momento em que ela mostrou emoção. Estava claro que queria ir embora”. Shirley morreu dez dias depois. Em casa, como queria.

Cinco passos para morrer do seu jeito

Depois de ser tutora dos últimos dias de Jim e Shirley Modini, Judy MacDonald resumiu sua experiência neste pequeno manual para se ter um bom final de vida

1. Faça um plano

Decida quem você gostaria que tomasse as decisões em seu lugar quando você não for mais capaz e conte para todo mundo. Se você não conseguir mais se cuidar sozinho, onde gostaria de ficar: em casa, na casa de um parente ou num hospital? Se estiver em estágio terminal, gostaria que os aparelhos fossem desligados?

2. Escolha seus protetores

É bom escolher mais de uma pessoa para assegurar que seus desejos sejam atendidos. Selecione de preferência pessoas com tempo livre para você, responsáveis, organizadas e saudáveis, que morem perto e lidem bem com pressão e situações inusitadas, que façam amigos com facilidade e sejam capazes de lhe ouvir.

3. Faça um guia médico

Escreva uma página resumida sobre seu histórico de saúde, incluindo os medicamentos que você toma. Anexe cópia de seu RG, do seu cartão de convênio médico e de outros documentos. E faça uma procuração para garantir que seu protetor possa tomar decisões por você.

4. Anote dicas para cuidarem de você

Se você precisar, um dia, ser cuidado por outra pessoa, é bom deixar algumas diretrizes registradas: escreva o que gosta ou costuma comer, quais roupas vestir, se gosta ou não de receber muitas visitas, com que frequência vê televisão etc.

5. Suas últimas palavras

O que você gostaria de dizer como últimas palavras? Escreva. Talvez seja impossível dizê-las na hora do adeus. E se, apesar do preparo, você sentir medo da morte, o que gostaria de ouvir? Escreva também o nome daqueles que você gostaria de ver nos seus últimos dias de vida.

Não deixe para depois

Não adianta se preparar para a morte sem ter aproveitado bem a vida. “Se você segue seu lado existencial, a morte não te pega desprevenido. Mas quando você deixa seus planos para o futuro, ‘para quando se aposentar’, você perde, porque não viveu o que queria” , diz Franklin Santana Santos, geriatra e presidente da Associação Brasileira de Tanatologia.

Plano existencial, segundo o médico, é viver do modo que o faz feliz, seguir seus desejos, ao invés de ser e fazer apenas o que a sociedade espera de você. E isso pode significar festas em Milão, carros e casas luxuosas. Ou uma vida simples, como a de Jim e Shirley. É totalmente pessoal. E não é sempre tão simples. “A morte nos lembra que somos finitos. De que adianta consumir e acumular tanto se tudo pode acabar amanhã? É por isso que ignoramos a morte e deixamos tudo para depois” , afirma Santana.

Se você fosse morrer em seis meses, o que faria e o que deixaria de fazer? Pense nisso e lembre-se: quem garante que esse não é mesmo todo o tempo que você tem de vida? “Todos desejam a morte aos 90 anos, sem dor, dormindo. Pensam que vão morrer assim. Só que isso acontece com uma minoria”, diz Santana.

Mas, se ninguém sabe quando a morte vai chegar, o fato é que isso pode acontecer a qualquer hora. E aceitar essa ideia pode mudar sua vida para melhor.