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Inflamação: O corpo de prontidão

Inflamação é sinônimo de dor, inchaço, vermelhidão e, muitas vezes, febre. Mas, embora incomode, ela não é uma doença. Bem ao contrário: seus sintomas são disparados pelo próprio organismo, quando tenta se recuperar de uma infecção ou reparar os danos de traumas e machucados.

Paula Cleto

O ar, no vaivém da respiração, parece arranhar a garganta por dentro. Engolir até mesmo a própria saliva se torna um esforço extraordinário. Tudo isso, ainda por cima, costuma ser acompanhado de febre. Não há dúvida: a garganta está infecionada por algum vírus ou bactéria. Mas quem pensa que todo esse tormento está sendo causado diretamente pelo micróbio se engana. A dor na região das amígdalas, o inchaço que dificulta a deglutição, a vermelhidão no local e, por fim, a febre são sinais típicos da reação do organismo diante de algo estranho. Trata-se de uma inflamação, fenômeno disparado pelo próprio corpo, com o objetivo de chamar os glóbulos brancos do sangue para reparar eventuais perdas e danos. De certo ponto de vista, portanto, sofrer uma inflamação pode ser o primeiro passo para o organismo se curar de algum problema. Sem saber disso, no entanto, as pessoas só conseguem reclamar de dor, calor, rubor e inchaço, os quatro sintomas clássicos, que podem ser percebidos no local inflamado.

Esses sintomas são causados por substâncias conhecidas por mediadores inflamatórios. A dor na área inflamada é provocada basicamente por dois desses mediadores, disparados pelas células do corpo que foram danificadas: a chamada interleucina 1 e a prostaglandina irritam os nervos locais. Alguns cientistas presumem que a dor, então, funciona feito uma sirene de alarme — de fato, algo errado está acontecendo naquele canto do organismo. Não bastasse isso, esse par de substâncias faz o maior escarcéu quando chega ao cérebro, conduzido pela circulação sangüínea. Ali, a prostaglandina e a interleucina 1 aumentam a sensação dolorosa e, ainda, desestabilizam o centro regulador térmico, no hipotálamo, de modo que a pessoa pode terminar com febre. Tal efeito não ocorre em ferimentos simples, como um leve arranhão, porque a quantidade de mediadores liberada pelo machucado costuma ser irrisória. Mas, geralmente, nas infecções ou em feridas maiores, a temperatura do corpo sobe acima de seus habituais 36 graus Celsius.

Não é só isso. As moléculas de prostaglandina, mais uma vez, junto com as de aminas — outro grupo de mediadores inflamatórios produzidos pelo organismo —, passam pelas veias e artérias da região lesada como se dirigissem tratores, desobstruindo ou abrindo novas estradas sangüíneas para a chegada rápida dos glóbulos brancos. “Elas ampliam o calibre dos vasos nas proximidades da lesão”, explica a imunologista Sônia Jancar, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. “Com isso, a circulação se intensifica. Daí o rubor típico das inflamações.” Os mediadores também separam ligeiramente as junções das células que formam as paredes dos vasos. Resultado: o plasma, a parte líquida do sangue, consegue escapar e termina se acumulando naquela área. O volume do líquido entre os tecidos é o que está por trás do edema ou inchaço.

Quem observou pela primeira vez os sintomas consagrados desse fenômeno biológico foi o escritor romano Cornelius Celus, ainda no primeiro século da era cristã. Em um cotidiano repleto de feridos de guerra e infecções disseminadas, ele descreveu a inflamação como mais uma doença. “Contudo, inflamação não é doença, mas um processo de ajuste do organismo a uma lesão”, define o imunologista Momtchilo Russo, também professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Essa constatação, aliás, foi feita em meados do século passado pelo médico alemão Julius Cohnhiem (1839-1884). O cientista concluiu que o próprio organismo era o único responsável pela inflamação, cujas conseqüências — embora bastante incômodas — são, no fundo, extremamente benéficas. Sem os mediadores inflamatórios seria impossível atrair os glóbulos brancos do sangue. Essas células, também conhecidas por leucócitos, são legítimos operários, capazes de limpar o terreno e reconstruir o tecido lesado. Eles varrem células mortas, remendam paredes celulares destruídas e, ainda, desapropriam eventuais microorganismos grileiros. “Os mediadores inflamatórios não só convocam os leucócitos como determinam o seu número”, afirma Russo. “Porque quanto mais mediadores em circulação, mais glóbulos brancos são acionados.”

Os mediadores, por sua vez, podem ser disparados de diversas formas. No caso da garganta inflamada, por exemplo, é possível que o próprio contato com a bactéria estranha tenha levado à sua produção. “Ou, quem sabe, algumas substâncias tóxicas dessa bactéria acabaram ferindo ou acionando as células naquela área. E daí elas passam a liberar mediadores.” Outros gatilhos são produtos químicos — um ácido derramado sobre a pele, por exemplo. Também deve-se considerar fatores mecânicos, feito cortes e contusões. Sem contar os traumas, provocados por esforços repetidos e exagerados, que causam aquela dor infernal da tendinite nos jogadores de tênis, por exemplo.

Alguns mediadores inflamatórios pertencem à família química das citocinas, pequenas moléculas de proteína produzidas pelas células. Neste grupo, destaca-se a interleucina 1 (IL 1), cujo desempenho na função de recrutar leucócitos é excelente. Outros mediadores são os lipídeos, que, como o nome indica, são moléculas de gordura. Não são as células danificadas que liberam diretamente esse segundo tipo de mediador. Na verdade, as células lesadas secretam uma outra substância: a fosfolipase, que vai banhar células na vizinhança, para quebrar suas membranas. A reação dessa quebra produz os tais mediadores lipídicos, cujos maiores representantes são as prostaglandinas. Finalmente, existem mediadores que pertencem ao grupo químico das aminas — um grupo cujas moléculas sempre combinam átomos de hidrogênio e nitrogênio. Entre as aminas enviadas pelas células que estão pedindo S está a histamina, também envolvida no processo das alergias. Também está na turma das aminas um mediador chamado bradicimina — que, aliás, foi identificado pelo pesquisador brasileiro Maurício Rocha e Silva, em 1949. Essa substância é uma das maiores responsáveis pelo alargamento dos vasos sangüíneos, que facilita o acesso dos glóbulos brancos até o local das obras.

Se a abertura dos vasos deixa o caminho livre para esses operários, um problema ainda tem de ser resolvido. Pois essas células sangüíneas, sozinhas, não conseguem atravessar as paredes das artérias, para trabalhar na célula lesada. Elas precisam, na realidade, de uma espécie de carona, que é dada pelas chamadas moléculas de adesão. Outra vez, são os mediadores que tornam tudo possível: “Eles estimulam as células das pequenas artérias a mostrarem essas moléculas em sua superfície”, conta Momtchilo Russo. As moléculas de adesão são comparáveis a uma cola, mantendo as células unidas entre si. “Talvez elas tenham um papel fundamental para a embriologia, agrupando determinados tipos celulares e ajudando a definir a forma final de um organismo”, diz o professor sem esconder o fascínio com essa possibilidade. No caso da inflamação, as moléculas de adesão prendem os leucócitos nas paredes dos vasos, facilitando sua fuga posterior para fora das artérias. O processo, conhecido por diapedese, é considerado a principal etapa da inflamação.

Uma vez na frente de trabalho, os próprios leucócitos se encarregam de produzir mais mediadores inflamatórios, como se chamassem outros colegas para ajudar no serviço. Chegam, principalmente, os leucócitos polimorfonucleares — assim chamados porque seus núcleos não possuem forma definida — e os monócitos. Estes, ao deixar a corrente sangüínea, mudam de nome e passam a ser chamados de macrófagos. Tanto os macrófagos como os leucócitos polimorfonucleares trabalham feito lixeiros, comendo os restos de células mortas e microorganismos — atividade que recebe o nome de fagocitose.

A fagocitose fica mais eficiente depois de quatro dias de trabalho — ou seja, de inflamação. “É quando o corpo produz moléculas de anticorpos que vão recobrir a superfície daquelas células devoradoras e aumentar sua afinidade com as bactérias”, explica Russo. “Um macrófago que só comia quatro passa a engolir vinte microorganismos”, exemplifica. Nesse caso, a inflamação costuma produzir pus, que nada mais é do que restos de células e bactérias, cujas enzimas conferem a cor amarelada à secreção. Além de purulentas, as inflamações podem ser catarrais, quando aparecem em tecidos capazes de produzir mu-co, como os do pulmão. Já algumas doen-ças, como a tuberculose, a lepra e a sífilis, provocam um processo inflamatório, com a formação de bolinhas de tecido chamadas granulomas. Os bacilos causadores dessas doenças são tão indigestos que nem os macrófagos conseguem digeri-los. Como insiste na refeição, o leucócito acaba enlouquecendo, ou seja, começa a liberar toxinas que chamam mais e mais glóbulos brancos. Estes, ao chegar, tentam engolir a célula destrambelhada e, assim, acabam formando células monstruosas, em torno das quais se desenvolve o granuloma.

Existe uma série de problemas em que o processo inflamatório se desenrola — nos casos de tendinite, apendicite, artrite e uma numerosa família de sobrenome -ite, o sufixo de origem grega que indica inflamação. “Nem sempre esses casos envolvem uma infecção por algum micróbio”, afirma a imunologista Sônia Jancar. “Na ferida, por exemplo, ficam restos de células liberando toxinas que precisam ser varridos.” Além de fazer a faxina, os macrófagos, trabalhadores versáteis, atuam também como construtores. Eles secretam algumas das substâncias responsáveis pela cicatrização, entre elas a colagenase. É por isso que esforços exagerados ou movimentos repetidos à exaustão podem desaguar em inflamações: acabam criando microlesões que o organismo procura curar. Daí surgem a tendinite, a inflamação dos tendões; e a tenossinovite, que atinge a superfíce dos tendões dos braços e mãos de digitadores, por exemplo.

Apesar de indispensável na defesa e no conserto de tecidos, a inflamação às vezes exige remédio, porque também tem seus distúrbios. O principal deles é quando ela se torna crônica, como na artrite, a inflamação das articulações. “Geralmente, não se conhecem as causas desse processo”, lamenta Sônia Jancar. Pelo menos na artrite, acredita-se que seja um engano dos linfócitos, os glóbulos brancos que produzem anticorpos. Talvez o organismo tenha, um dia, contraído uma infecção para a qual os linfócitos fabricaram um anticorpo. “Depois do fim da infecção, os linfócitos confundem os tecidos das articulações com o microorganismo e passam a atacá-los”, diz a imunologista. Para recompor essas estruturas destruídas pelos próprios leucócitos, surgiria a inflamação.

Todos os animais do planeta sofrem inflamação, exceto o anfioxo, um meio-termo entre os vermes e os peixes. “Mas ele está perfeitamente adaptado ao ambiente”, justifica Momtchilo Russo. Tanto que habita os oceanos há cerca de 400 milhões de anos. “A inflamação é apenas isso, uma tentativa de ajuste a uma ferida ou a uma infecção, sem belicismos do tipo microorganismos invasores e leucócitos soldados”, pensa o imunologista. “Afinal, nem sabemos o que provoca a guerra: se é a bactéria atacando o homem ou se é o homem atacando a bactéria.”

 

 

Para saber mais:

Os defensores do corpo humano

(SUPER número 7, ano 2)

Resposta errada

(SUPER número 8, ano 3)

A farmácia do doutor biruta

(SUPER número 9, ano 9)

 

 

As etapas do processo inflamatório

1 -Feito um sinal de S, a célula danificada do corpo libera pequeníssimas moléculas de proteínas chamadas citocinas. Entre elas, as mais importantes são as interleucinas 1

2 – Outras substâncias secretadas pela célula lesada são as aminas, moléculas que combinam átomos de hidrogênio e nitrogênio

3 – A célula em apuros ainda lança uma enzima chamada fosfolipase. Esta quebra as membranas das células vizinhas, para obter moléculas de gordura que ajudam na inflamação: são os mediadores lipídicos. Entre eles, a prostaglandina

4 – As substâncias do grupo das aminas e a prostaglandina agem feito tratores, abrindo ou alargando os vasos sangüíneos, para facilitar o acesso dos glóbulos brancos

5 – Alguns mediadores inflamatórios irritam os nervos no local danificado, causando dor. É o que fazem a interleucina 1 e a prostaglandina. Como se isso fosse pouco, a dupla de substâncias amplifica essa sensação dolorosa no cérebro e também pode provocar a febre

6 – Os glóbulos brancos viajam dentro das veias e artérias. Quando chegam ao foco da inflamação, eles têm de pegar carona nas chamadas moléculas de adesão. Pois só com essa ajuda é que atravessam as paredes dos vasos, escapando para o local de trabalho

7 – A operação dos mediadores serviu para recrutar os glóbulos brancos. Estes limpam o terreno, levam embora as células mortas e dão um jeito em microorganismos grileiros. Enfim, preparam a região danificada para ser reconstruída

 

 

Freios à venda nas farmácias

Bloquear o processo inflamatório pode parecer um contrasenso, já que ele é fundamental para combater infecções e reconstruir tecidos danificados do corpo. Mas, às vezes, é preciso apelar para medicamentos capazes de frear o ímpeto das substâncias inflamatórias: por exemplo, no caso da chamada septicemia, uma inflamação generalizada, que pode provocar a morte do paciente. Ou nas inflamações crônicas, como as artrites. Há, ainda, quem não resista à idéia de engolir algum antiinflamatório, simplesmente para sentir menos dor ou baixar a febre. De fato, certos medicamentos conseguem atenuar esses sintomas desagradáveis, porque barram mediadores inflamatórios importantes — especificamente, a prostaglandina e a interleucina 1.

Esses remédios se dividem em dois grandes grupos: o dos esteroidais e o dos não-esteroidais. O primeiro é formado por drogas da família da cortisona: “Elas formam uma espécie de cortina em torno das células”, descreve a farmacologista Glória Maria Petto de Souza, que leciona na Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, interior do Estado. “Desse modo, as drogas esteroidais impedem que a fosfolipase encoste nas membranas celulares, para quebrá-las, formando assim a prostagladina”. Além disso, esse grupo de medicamentos impede a síntese da interleucina 1, substância que ajuda a causar a febre. Remédios como a cortisona, porém, são usados apenas em casos graves. Afinal, eles provocam efeitos colaterais que talvez sejam mais terríveis do que a própria inflamação: as células imunológicas despencam e o paciente perde muito peso, entre outras conseqüências.

As drogas não-esteroidais, portanto, são as mais procuradas nas prateleiras das farmácias. Entre elas, estão a dipirona e a aspirina. “Esses medicamentos interferem na seqüência de reações que leva ao rompimento das membranas celulares, para se obter a matéria-prima da prostaglandina.” Com menos prostaglandina em circulação, reduz-se também a febre e a dor. Mas a prostaglandina desempenha outras funções no organismo, como recobrir o estômago. Ela forma uma película protetora, sem a qual esse órgão fica sensível à própria acidez. Daí o risco de irritações gástricas, quando se ingere um antiinflamatório.