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Macacos ficam imunes após se curarem de Covid-19, indica estudo

Pesquisa pode oferecer pistas valiosas sobre nossa resposta imunológica contra o coronavírus – e por quanto tempo ela dura.

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 14 jul 2020, 21h07 - Publicado em 14 jul 2020, 20h36

Uma pesquisa publicada na revista Science mostrou que macacos-rhesus mantém anticorpos por pelo menos um mês após a primeira infecção de Covid-19 – o que pode ser um indicativo positivo para nós.

No estudo, cientistas chineses infectaram seis macacos da espécie com o novo coronavírus e avaliaram a progressão da doença. Os primatas foram usados porque são parentes próximos de nós, humanos, e portanto têm sistemas parecidos com os nossos. Todos eles desenvolveram quadros da doença, que variaram de leves a moderados, incluindo até pneumonia e alterações no sistema respiratório e gastrointestinal.

Após 28 dias, quando os macacos já estavam naturalmente curados, quatro deles receberam novamente o vírus (os outros dois serviram de grupo controle para os cientistas compararem os dados).

Logo após a reinfecção, os quatro macacos apresentaram uma curta febre, mas nenhum outro sintoma foi observado, e testes moleculares continuaram dando negativo por duas semanas após esse episódio. Isso sugeriu que os anticorpos nos primatas tinham sido formados – e eram bons o bastante para barrar uma segunda infecção.

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Uma análise laboratorial confirmou: o sangue dos animais tinha anticorpos com formatos específicos para se ligar a proteína spike do vírus – estruturas com formato de espinho usadas pelo invasor para infectar nossas células.

A equipe notou, inclusive, que o nível de anticorpos era maior duas semanas após a segunda introdução do vírus do que duas semanas após a primeira infecção. Mesmo assim, a proteção da primeira infecção parece ter sido suficiente.

Proteção garantida?

Os resultados da pesquisa são pertinentes, sobretudo após alguns relatos de pessoas que voltaram a ter sintomas ou testar positivo para o vírus dias (ou até semanas) depois de, supostamente, terem se curado.

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Episódios como esse foram observados pontualmente em diversos países, embora não se saiba se, de fato, estamos falando de pessoas que ficaram doentes duas vezes. Uma hipótese é que esses indivíduos nunca tenham se curado. Nesse caso, eles apenas deixaram de apresentar sintomas porque a carga viral diminuiu em seus corpos – mas o vírus continuou se espalhando e voltou a causar danos algum tempo depois.

Outra possibilidade é que falsos negativos em resultados de testes tenham levado pessoas a acharem que estavam curadas erroneamente. Afinal, sabe-se que alguns testes, especialmente os rápidos, não são precisos.

Como funciona a nossa resposta imune?

Quando somos infectados por um vírus (ou outro micróbio), começa uma resposta de defesa bastante complexa. Nos primeiros dias da batalha, usamos algo chamado resposta imune inata ou natural – assim chamada porque já nascemos com ela.

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Essa linha de defesa consiste em células como os glóbulos brancos e trata, basicamente, todo invasor da mesma forma. É uma reação imediata para uma infecção, mas não é tão eficiente porque aposta em estratégias gerais contra os antígenos.

Já o sistema imunológico adaptativo entra em cena, em geral, dias após a detecção do invasor. Ele recebe esse nome pois se adapta de acordo com o inimigo, criando estratégias personalizadas para cada um.

É nessa hora que entram os anticorpos: substâncias feitas sob medida para se ligar a um tipo específico de vírus ou bactéria e, assim, neutralizá-lo. Uma vez que o corpo desenvolve os anticorpos para aquele invasor, a luta contra ele fica muito mais fácil: o indivíduo pode até ficar imune para aquela doença, já que os anticorpos são defesas duradouras.

Mas esse processo varia de pessoa para pessoa e, principalmente, de micróbio para micróbio. Algumas respostas imunológicas são, de fato, duradouras e eficientes: é o caso do sarampo e da catapora. Nessas doenças, geralmente basta uma infecção vencida para que a pessoa fique imune para o resto da vida. Em outros, porém, o corpo até aprende a lutar contra o invasor, mas os anticorpos somem depois de um tempo e a pessoa fica novamente vulnerável (é o caso de alguns vírus da gripe e do resfriado comum).

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Além disso, possuir anticorpos não significa, necessariamente, estar imune. Às vezes, os anticorpos produzidos pelo corpo não são tão bons assim em neutralizar o invasor, ou não existem em quantidade suficiente para vencer a batalha. Nesse caso, a pessoa pode ficar doente mesmo com a presença deles no sangue.

Isso acontece, por exemplo, no caso do vírus sincicial respiratório, um causador de resfriado bastante comum em bebês (quase todas crianças pegam o vírus em algum momento dos primeiros três anos de vida). Nosso corpo até cria anticorpos contra ele, mas, por algum motivo, eles não são muito eficientes em frear o vírus, e podemos ser reinfectados por ele durante a vida. Vale dizer, no entanto, que é muito difícil que alguém desenvolva sintomas graves nesses quadros de reinfecção – a doença se comporta mais como um resfriado.

Como o SARS-CoV-2 é um vírus novo, ainda não sabemos em qual dos cenários ele se encaixa. Pesquisas mostram que outros vírus do grupo dos coronavírus que causam resfriados geram uma resposta imune que dura poucos meses, enquanto os vírus da SARS e da MERS (doenças mais graves, parecidas com a Covid-19) resultam em uma resposta imune mais eficiente e duradoura.

Diversos estudos preliminares já foram feitos, mas ainda não é possível para bater o martelo. O que sabemos até agora é que o corpo humano produz anticorpos contra a Covid-19 – mas o quão eficiente eles são, e por quanto tempo duram, ainda são dúvidas que precisam de mais evidências para serem respondidas.

O estudo chinês oferece um indicativo de como o processo funciona, mas vale ressaltar que ele ainda está longe de fornecer tal resposta. Afinal, macacos não são humanos, e o período analisado foi de pouco mais de um mês, insuficiente para entender por quanto tempo a memória imunológica dura. Além disso, os animais só desenvolveram quadros moderados e leves de Covid-19. Outras pesquisas são necessárias para revelar mais detalhes sobre casos graves.
Todas essas dúvidas estão sendo investigadas em ensaios clínicos com humanos, mas ainda levará algum tempo até que tenhamos uma série satisfatória de evidências.
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