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Médicos: a maior mercadoria cubana

Proporcionalmente ao PIB, Cuba fatura quase tanto com seus médicos quanto o Brasil exporta de petróleo, ferro, soja, carros e aviões. E, política à parte, eles são uma boa alternativa para a nossa saúde. Entenda por quê

Maurício Horta

“Foi o melhor tempo da saúde pública do Tocantins”, disse o governador Siqueira Campos (PSDB) no dia 14 de setembro, enquanto recepcionava no Palácio Araguaia 16 médicos cubanos. Ele se referia ao período iniciado em 1998, quando ele mesmo, na época em seu segundo mandato pelo PFL (hoje DEM), assinou um contrato com Fidel Castro para trazer 140 médicos cubanos ao Estado.

Como o diploma deles não era reconhecido no Brasil, a Justiça Federal ordenou em 2005 o fim da experiência. Restaram apenas os 34 médicos que revalidaram seus diplomas. Somados a outros programas pelo resto do País, há hoje 199 médicos cubanos regularizados. E o programa “Mais Médicos” repete essa história – só que numa escala maior, e com personagens políticos invertidos.

Mas, afinal, por que médicos cubanos? Bom, alguns países exportam matérias-primas; outros, produtos industrializados. Já Cuba, que tem a maior relação de médicos por habitantes no mundo, exporta serviços de saúde. Dos mais de 85 mil médicos cubanos, 15 mil estão em missões espalhados por 60 países. Lá, geralmente fazem o trabalho em áreas onde médicos locais não vão. Em retorno, trazem para Cuba um valor estimado em US$ 5 bilhões por ano. É muito: dá duas vezes o que Cuba ganha com exportações. E representa 7% do PIB da ilha – de US$ 70 bilhões. Para comparar: o Brasil exportou US$ 243 bilhões em 2012. Dá 11% do nosso PIB. Ou seja: proporcionalmente ao PIB, Cuba fatura quase tanto com seus médicos quanto o Brasil levanta exportando petróleo, soja, minério de ferro, carros e aviões.

Mas não é só o dinheiro que explica. A medicina cubana impulsiona a diplomacia do país desde a década de 1960, com o envio de médicos para a África. E continuou firme. Fidel ofereceu sistematicamente serviços médicos a países que sofressem desastres naturais, mesmo que seus governos fossem anticomunistas. Foi o que aconteceu nos terremotos do Chile em 1960, da Nicarágua em 1972 e do Irã em 1990.

Em 1998, o furacão Mitch matou 11 mil pessoas na América Central e no Caribe. Foi o mais mortal desde 1780. Como de costume, Fidel enviou médicos cubanos a países atingidos. E fez mais. Expandiu seu programa de missões médicas e criou uma escola para formar doutores exclusivamente entre jovens carentes de países estrangeiros – a Escola Latino-Americana de Medicina. Pelos serviços de saúde, Cuba esperava recuperar sua relevância internacional.

Paralelamente, um militar socialista era eleito presidente no maior produtor de petróleo da América Latina: Hugo Chávez. Em troca de petróleo, Cuba passou a exportar doutores para atender periferias e regiões rurais afastadas da Venezuela. Hoje, o intercâmbio envolve 100 mil barris de petróleo diários (US$ 3,5 bilhões anuais) e 32 mil profissionais de saúde – deles, 11 mil médicos. Com a nova injeção de dinheiro, Cuba aumentou sua produção de médicos para exportação. Hoje forma 10,5 mil doutores por ano (2,5 mil a menos que o Brasil, que tem população 18 vezes maior). E, desse total, 4.843 formandos são estrangeiros, que estudaram de graça. Eles vêm de 70 países, mas a metade é de bolivianos, equatorianos, mexicanos e argentinos.

A seleção desses estudantes diz muito do propósito de Cuba. No Brasil, escolas seguem critérios meritocráticos ou financeiros: vestibular duro ou valor da mensalidade. O resultado é visto numa pesquisa do CRM de São Paulo de 2012: no Estado, 85% dos estudantes de medicina cursaram o ensino médio em escola particular e 73% têm seus gastos financiados pela família. Além disso, os estudantes tendem a se especializar em áreas mais lucrativas, como a medicina estética. E a não sair dos ambientes urbanos onde nasceram. Já Cuba tem um critério social para escolher seus estudantes estrangeiros. Eles devem vir de comunidades onde mais faltam médicos – agricultores familiares, indígenas, imigrantes. A ideia é que, depois, eles façam atendimento básico justamente nessas comunidades.

Mas há um detalhe: quem faz o meio de campo entre as comunidades carentes e as universidades cubanas. No Brasil, isso fica a cargo de partidos políticos, de organizações como o Educafro e o MST e de entidades religiosas. E eis que acende uma luzinha vermelha: comunidades que não tenham laços com essas instituições tendem a ser preteridas.

Por outro lado, missões cubanas são o recurso mais rápido de atendimento médico a regiões carentes. É como se a ilha funcionasse como uma megaempresa de médicos terceirizados, capaz de alocar milhares de profissionais numa tacada só.
Sim, há alternativas que não envolvam Cuba. Mas elas não são imediatas. Uma seria o serviço compulsório de alunos de medicina, mas ele foi interpretado como inconstitucional. Outra seria a ampliação das cotas para pessoas de comunidades carentes em cursos universitários, o que tem um custo político enorme. Há ainda um projeto de emenda constitucional defendido pelo Conselho Federal de Medicina: a criação da carreira de Estado para médicos do SUS. Tal como ocorre com juízes e militares, eles começariam em lugares distantes até chegar aos grandes centros. Mas isso dependeria da aprovação do projeto – e de um aumento substancial de gastos da União. Então restam os médicos cubanos. Aí, a questão é se vale a máxima do líder comunista chinês Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é preto ou branco, mas, sim, se ele mata o rato.”