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Novo exame de sangue pode detectar até 50 tipos de câncer

Método usa algoritmo para analisar o DNA de células mortas soltos no sangue, e pode ajudar a encontrar tumores de difícil diagnóstico.

Por Bruno Carbinatto - 31 mar 2020, 18h35

Um novo teste feito a partir de amostras de sangue se mostrou efetivo em identificar até 50 tipos de câncer em estágios precoces, alguns dos quais são raros e de difícil diagnóstico. Em estudo preliminar publicado na revista Annals of Oncology, o teste atingiu uma taxa de acerto de até 99.3%, dependendo do caso. 

Desenvolvido pelo Instituto do Câncer Dana-Farber, uma instituição ligada à Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, o novo teste não só detecta quando uma pessoa tem câncer como também consegue indicar qual órgão pode estar sendo afetado pela doença. Embora o teste tenha maiores taxas de acertos em casos de cânceres avançados, ele também se mostrou efetivo mesmo em estágios iniciais em alguns tipos de câncer – algo essencial para aumentar as chances de sobrevivência do paciente com tratamento.

O teste funciona a partir de pedaços de DNA livres, que ficam vagando livremente pelo sangue do paciente após uma célula, saudável ou não, morrer e liberar seu material genético na corrente sanguínea. Quando esses pedacinhos de DNA são encontrados, o teste analisa os chamados perfis de metilação, processo em que um grupo molecular chamado metil se liga a um dos carbonos da fita de DNA, ajudando a ativar ou desativar genes específicos.

Células saudáveis tem um perfil de metilação bem diferente de células de tumores, ou seja, os lugares onde os grupos metil se ligam na sequência genética são distintos e característicos. Usando isso, é possível encontrar pedaços de DNA liberados especificamente por células de câncer no sangue dos pacientes, indicando a doença. A análise dos perfis de metilação é feita por um algoritmo desenvolvido especificamente para identificar essas diferenças e descobrir em qual órgão o câncer está presente.

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Segundo os pesquisadores, o método baseado nos padrões de metilação é ainda mais eficiente do que aquele que vasculha o DNA livre em busca de mutações características do câncer – as diferenças de metilação entre uma célula saudável e uma de tumor são ainda maiores do que as diferenças genéticas entre as duas.

No estudo, a equipe utilizou o método para testar 6.689 amostras de sangues de pacientes, dos quais 2.482 tinham câncer e 4.207 não. Entre o grupo diagnosticado com a doença, havia mais de 50 cânceres representados, incluindo os de mama, colorretal, de estômago, nos ovários, leucemia linfoide e câncer de pâncreas, entre outros. Os resultados mostraram que o teste só resultava em um falso positivo – ou seja, indicava câncer em pacientes saudáveis – em 0,7% dos diagnósticos.

O método, contudo, não se mostrou perfeito, principalmente em casos no estágio inicial – dependendo do tipo de câncer, o teste só conseguia apontar a presença da doença em estado precoce 14% das vezes.

Mas ele se mostrou promissor em alguns casos específicos, como no câncer de pâncreas, que é considerado de difícil diagnóstico. O teste conseguiu identificar a doença 63% das vezes quando se tratava de um estágio inicial, e chegou a acertar 100% das vezes quando o câncer de pâncreas estava em estágio IV, o mais avançado.

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Além disso, quando o teste acertava que a pessoa estava com câncer, geralmente também conseguia apontar em qual órgão o tumor se apresentava (mais de 90% de acertos, nesse cenário).

Apesar de serem resultados iniciais (e o teste não ser perfeito), a equipe se mostrou animada com a possibilidade de estabelecer mais uma ferramenta na luta contra a doença. “O teste pode ser uma parte importante dos ensaios clínicos para a detecção precoce do câncer”, disse Geoffrey Oxnard, coautor do estudo, em comunicado.

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