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O lado bom do tédio

Não aguenta mais o papo do chefe? Ou o blá-blá-blá do professor? Agarre esta oportunidade. Sentir tédio é uma bênção mental: vai fazer de você uma pessoa mais criativa e inovadora

Laura Folgueira

“Querido mundo, estou deixando você porque estou entediado.” Foi com esse recado que o ator americano dos anos 50 George Sanders se despediu da vida. Assim como ele, o jornalista e beberrão Hunter Thompson reclamou em sua carta suicida que era um baita tédio ter vivido 17 anos além dos 50 – e que não via a hora de se mandar. E mesmo Kurt Cobain deixou claro em suas últimas palavras que não via mais graça nenhuma em tocar para as multidões e estava de saco cheio de fazer música. Tudo indica que, quando o tédio bate de jeito, a história pode acabar mal. Mas a verdade para a grande maioria das pessoas é bem menos dramática. Sentir tédio tem lá as suas vantagens – é daquelas pequenas irritações cotidianas essenciais para a nossa saúde mental.

Todo mundo já sentiu tédio, mesmo que não saiba defini-lo: é uma estranha sensação de vazio, mas bem diferente da preguiça ou do cansaço. “É um leve sentimento de repulsa, produzido temporariamente em circunstâncias previsíveis e inevitáveis”, define Peter Toohey, professor da Universidade de Calgary, no Canadá, e autor do livro Boredom: A Lively History, que pesquisa esse sentimento há anos (isso que é gostar de tédio). Quem pensou em tarefas repetitivas e pouco estimulantes, como passar roupa ou longas viagens de avião, acertou. Outro pesquisador, John Eastwood, da Universidade de York, no Canadá, define o enfado de forma diferente. Segundo ele, é uma “experiência aversiva de querer, mas não conseguir, se engajar em uma atividade satisfatória”. Ele aparece quando não temos estímulos, e piora quanto mais obcecados estivermos com ele. Ou seja, simplesmente pensar que estamos entediados já aumenta a sensação.

O sentimento é tão comum que já houve até tentativas de quantificá-lo em nosso dia a dia: em 2009, uma pesquisa na internet concluiu que um habitante britânico sofre com o tédio por cerca de seis horas semanais, e a New Economics Foundation concluiu que a Grã-Bretanha é o país mais entediado da Europa. Já nos EUA, uma pesquisa com estudantes da Nova Inglaterra descobriu que 9% deles consideravam o tédio um problema sério em suas vidas. Por aqui não há pesquisas, mas quem nunca?

O tédio causa alterações no funcionamento do cérebro. Uma pesquisa da Universidade de Michigan resolveu investigar o que acontecia na cabeça de voluntários entediados. A tarefa era identificar letras numa tela durante uma hora inteira, enquanto eram examinados numa máquina de ressonância magnética. A conclusão: quando ficavam entediados, as áreas do cérebro ligadas à visão, linguagem e autocontrole se desconectavam umas das outras. Por isso o tédio tira nossa atenção de qualquer atividade, ou faz com que a gente coma mais sem pensar. É aquele hábito de abrir a geladeira só para ver o que tem lá dentro – afinal, quem está entediado não se controla e ataca a pizza de anteontem.

Apesar de parecer que o tédio é um fenômeno da modernidade, que surgiu quando inventamos máquinas que pudessem fazer o trabalho duro por nós, pesquisadores reconstituem sua existência até pelo menos a Idade Média. Naqueles tempos, o sentimento era sinal de status: apenas quem não tinha nada a fazer, porque não passava o dia carpindo terra, por exemplo, podia senti-lo. Hoje em dia, ter tédio é quase sinal de falta de status no meio de tantos recursos criados para evitá-lo. A TV é o maior deles. “Não há motivos para assistir a horas seguidas de televisão, a não ser matar o tempo”, diz Toohey. Mas também celulares, e-mails e atualizações do Facebook servem para esmagar o enfado. E isso não é lá o melhor dos mundos. O tédio pode fazer de você uma pessoa muito mais interessante.

Já inovou hoje?
Entre os pesquisadores do tema, não há dúvidas de que o tédio esteja relacionado à criatividade – e de que mentes criativas sofram mais com ele. Por isso, escritores como Sartre, Flaubert e cia. debateram tanto o tema, já que sofreram na pele os males. “O tédio muitas vezes encoraja a criatividade. Indivíduos que se entediam facilmente geralmente também ficam mais insatisfeitos com dogmas sociais – são artistas, cientistas, empreendedores”, diz Toohey. “A criatividade é um antídoto para o enfado, então essas pessoas produzem coisas criativas para `medicar¿ seu problema.”

Essa relação pode ser explicada de forma fácil: quem fica entediado procura novas formas de fazer a mesma coisa. Você já deve ter sentido isso em tarefas repetitivas, como lavar louça. Cansado de ensaboar os pratos do almoço de domingo? Monte uma pirâmide com as peças limpas no final. E pronto: você terá inovado na lavagem. Um estudo da Universidade Vanderbilt, EUA, mostrou que os mais propensos a ir atrás de novidades são aqueles que possuem menos receptores de dopamina, um neurotransmissor do sistema de recompensa do cérebro. Claro, quem não se sente satisfeito com as atividades normais vai atrás de novas emoções. E adivinhe? As pessoas mais propensas a ficar entediadas são justamente as com menos receptores.

De fato, o tédio é um indicativo de que algo está errado – e pode dar aquele empurrãozinho para você levantar e sacudir a poeira. Toohey explica que a lógica é parecida com a do nojo. O nojo tem função de proteção: quando estamos em frente a uma comida que parece estragada ou cheira mal, nos recusamos a comê-la, porque pode nos fazer mal. O tédio, por essa lógica, funciona da mesma forma em termos sociais. “O tédio foi projetado para encorajar as pessoas a mudar seu comportamento e se proteger de toxinas sociais. Talvez o tédio devesse ser visto como a gota, ou a angina, ou pequenos derrames: como um sinal de que coisas piores virão, a não ser que se mude o estilo de vida”, escreve. E essa seria também sua função evolutiva. Se ele ajuda a nos distanciar de coisas enfadonhas, nos ajudou também a chegar até aqui.

O daydreaming, aquele famoso período em que você “viaja” de olhos abertos, também tem a ver com as duas questões – o tédio e a criatividade. Isso porque ele é muitas vezes uma consequência de longos períodos entediantes. E aí, o que acontece é que as áreas do cérebro que antes estavam desligadas acabam se tornando muito ativas – especialmente a chamada “rede executiva” do cérebro, área ligada à resolução de problemas. “Quando você sonha acordado, não está atingindo seu objetivo imediato, como ler um livro ou prestar atenção a uma aula, mas sua mente pode estar resolvendo questões mais importantes da sua vida, como sua carreira ou sua vida amorosa”, diz Kalina Christoff, psicóloga e pesquisadora da Universidade de British Columbia, no livro Boredom, a Lively History.

“Melhor morrer de vodca do que de tédio”
Era isso o que achava o poeta Vladimir Maiakovski (que, coincidência ou não, também acabou se matando). E ele não é o único a pensar assim. Como o tédio faz com que as pessoas busquem novas formas de se excitar, ele costuma também ser caminho direto para compulsões, como drogas, álcool, comida ou fazer compras. Esses vícios agem exatamente nos tais receptores de dopamina, que recebem uma carga extra durante a atividade e ficam mais estimulados. Essas pessoas também se tornam mais impulsivas. “Pessoas com baixa tolerância ao tédio têm mais chance de cometer atos violentos do que quem o tolera mais”, explica Svendsen.

E vem mais encrenca por aí. Uma pesquisa do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública, da University College London, entrevistou 8 mil trabalhadores sobre seus níveis de tédio e concluiu que ele pode tirar anos da vida de alguém. Cerca de 20 anos depois do início da pesquisa, os cientistas voltaram para ver quais deles já estavam mortos: quem passou a vida mais enfadado tinha 37% mais chance de morrer no meio da pesquisa, concluíram, principalmente porque acabava fumando ou bebendo para compensar. Os outros viveram felizes até então. Ou seja: se você anda entediado demais, tá na hora de tirar a poupança do sofá. Vai ler um livro, aprenda a tocar trombone, abra uma empresa de aplicativos para celular. Pode salvar a sua vida.

Grandes enfados
Depois de sentir tédio, grandes personalidades fizeram grandes revoluções

Albert Einstein
Einstein não era mau aluno, como diz a lenda – era um aluno entediado, já que as matérias não o desafiavam. Mas tornou-se grande defensor do tédio e considerava-o “o mais elevado estado mental”. Foi levando uma vida monótona (como ele dizia), que teve tempo para criar a teoria da relatividade.

Steve Jobs
Se todo mundo sente tédio, poucos tiraram tanto dele quanto o fundador da Apple, que afirmou ser grande defensor do sentimento. Ele acreditava que do tédio surgiria a curiosidade – e, dela apareceria todo o resto. Tipo o seu iPhone.

Woody Allen
O cineasta declarou que não terminou a faculdade porque era muito entediante, e também que não se diverte com quase nada. Ainda assim, ou talvez por causa disso, Allen já dirigiu 43 filmes desde 1965 – um ou mais por ano desde 2001.

Winston Churchill
Ser o primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial não salvou Churchill do tédio. Prova disso é que suas últimas palavras, antes de entrar num coma (e morrer nove dias depois) foram: “Estou entediado com tudo isso”.


Abre o olho

O corpo fala. Se seus funcionários ou sua namorada estiverem com essa cara, está na hora de inovar no repertório

1. Os entediados dobram o pescoço para o lado, mostrando que não querem ouvir ou lidar com o que a outra pessoa está dizendo.

2. Eis o sinal mais inconfundível: colocar a mão no queixo, apoiando o cotovelo na mesa. Se for durante uma longa reunião, então…

3. Quem está sem paciência para conversar não olha diretamente para o interlocutor, mas parece focalizar algo bem longe, fora do contexto.

4. Apoiar os braços no quadril é sinal tanto de tédio quanto de repulsa.


PARA SABER MAIS

Boredom, a Lively History
Peter Toohey, Yale University Press, 2012.

A Philosophy of Boredom
Lars Svender, Reaktion Books, 2005.