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Onde os gordos não têm vez

No mercado de trabalho, nos concursos públicos, nas marcas de roupa, na novela: a gordofobia está por toda a parte

Era para ser uma simples resenha da comédia Uma Ladra Sem Limites, mas o crítico americano Rex Reed pegou pesado. “Hipopótamo fêmea”, “do tamanho de um trator” e “assustadoramente nojenta” foram algumas das expressões que ele usou para a atriz Melissa McCarthy. Mesmo criticado, não voltou atrás. Tudo, segundo o crítico, foi uma tentativa de alertar o público e a própria Melissa sobre os perigos da obesidade: “Cada comediante obeso que já fez piada sobre a doença agora está morto de acidente vascular cerebral, doenças do coração, pressão alta e diabetes”. A reação da atriz ao apoio enviesado foi caridosa: “Sinto pena de quem está nadando em tanto ódio”. Polêmico e grosseiro, o episódio não deixa de ser um reflexo de como os obesos passaram a ser vistos. Antes tratados com uma simpatia bonachona, hoje são encarados de maneira negativa, e denunciam um nova forma de preconceito: a gordofobia.

“Desde que o pânico sobre o aumento de peso da população emergiu na década de 1990, essa visão negativa das pessoas gordas tem se intensificado”, diz a socióloga australiana Deborah Lupton, professora da Universidade de Sydney e autora de Fat (“Gordo”, não lançado no Brasil). O livro, publicado em 2012, analisa como tem se espalhado um estigma sobre os cidadãos acima do peso, “vistos como pessoas gananciosas, sem autocontrole, desorganizadas, até grotescas”.

Na TV, gordos são ridicularizados, sofrendo para fazer dieta e se exercitar em frente às câmeras. Fala-se de uma “epidemia de obesidade”, e gordos recebem olhares de desaprovação, como se fossem emissários da peste negra. Companhias aéreas e marcas de roupas penalizam seus clientes mais pesados. No Brasil, o sobrepeso virou critério de seleção em concursos públicos e se transformou em nota de corte no mercado de trabalho – em uma entrevista, o publicitário e apresentador de TV Roberto Justus decretou que não se deve contratar quem está acima do peso, pois isso seria um sinal inequívoco de desequilíbrio e falta de inteligência. “Muitas campanhas contra a obesidade acabam envergonhando a quem deveriam ajudar, além de incitarem o ódio à gordura”, diz Deborah.

Para ficar bem claro: gordura corporal em excesso é, sim, um perigo. “Uns 30% dos obesos podem ter um perfil metabólico e cardiovascular dentro da normalidade. Mas estudos mostram que pacientes com IMC (Índice de Massa Corporal, ou peso dividido pela altura ao quadrado) superior a 30 sempre têm risco aumentado para doenças cardíacas, vasculares, diabetes e câncer”, diz o endocrinologista Lício Veloso, professor da Unicamp e pesquisador de mecanismos da obesidade.

No Brasil, o SUS gasta R$ 488 milhões anuais com tratamentos contra a obesidade. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados em agosto, 51% dos brasileiros estão acima do peso (sendo 17% obesos). Em 2011, eram 48%. Campanhas por uma alimentação saudável e uma redução de peso são uma necessidade. O problema é que às vezes elas favorecem o aumento do preconceito. “Muitas pessoas desenvolvem um sentimento de rejeição pela obesidade mais pelos aspectos estéticos e comportamentais do que pelo risco médico”, diz Veloso.

Vigilantes dos pesados

Às vezes, o escracho esbarra no mau gosto. O comediante Jerry Seinfeld aproveitou um debate sobre uma reforma nutricional nas cantinas das escolas americanas para disparar: “Sou contra a proibição de refrigerantes. Sou a favor da continuação do processo de seleção darwinística da espécie humana por meio do consumo de bebidas com açúcar”.

Grandes companhias aéreas, como a americana United Airlines, já cobram dos gordinhos uma poltrona extra para deixá-los viajar. A Southwest, empresa de voos de baixo custo dos Estados Unidos, não só adota essa política como o diretor Kevin Smith, de O Balconista e Procura-se Amy, foi obrigado a descer de uma de suas aeronaves e seguir em outro avião por seu peso ter sido considerado uma ameaça ao voo. Já a oceânica Samoa Air passou a cobrar os passageiros por peso: cada quilo custa entre US$ 1 e US$ 4,16.

Mas quem caiu na boca do povo foi a marca Abercrombie & Fitch. Em 2007, o executivo-chefe da empresa, Mike Jeffries, disse que garotos “não legais” e “mulheres gordas” não deviam usar a marca. No livro The New Rules of Retail (“As Novas Regras do Varejo”, ainda não lançado no Brasil), os autores Robin Lewis e Michael Dart revelam que a A&F não fabrica roupas no tamanho G e GG. Só em maio de 2013, seis anos depois das declarações de Jeffries, uma onda de protestos na porta de suas lojas levou a empresa a pedir desculpas.

Ser gordo também pode ser um problema para quem quer entrar no serviço público. Em 2011, cinco professoras aprovadas em concurso não puderam entrar para o funcionalismo paulista devido à obesidade. E há o caso de Ricardo Duailibe Leitão, aprovado para a vaga de fiscal de rendas do Estado de São Paulo em um dos mais difíceis concursos do País e reprovado no exame médico. O motivo: com 127 quilos, é considerado obeso. “Todos os meus exames estão dentro da normalidade, faço exercícios regularmente e meu físico não representa nenhum entrave no meu cotidiano”, afirma Ricardo. Mesmo assim, não conseguiu convencer um perito de que seu IMC, de 44,4, não significa falta de saúde. Só após perder dez quilos e passar por uma junta de três profissionais é que foi aceito no emprego. Ele reclama: “Só quem é gordo sabe o que é isso. Em todo lugar tem alguém dizendo que você deveria fazer um regime”. A Secretaria de Gestão Pública do Estado de São Paulo se defendeu: “não decorre de atitude excludente ou preconceituosa e sim pelo quadro de saúde ir de encontro ao Estatuto do Funcionalismo Público”. Segundo o comunicado, as perícias levam em conta o período por que deve se estender a carreira do funcionário.

Abaixo a magrocracia

Provar que casos assim são um exagero é a missão de Marilyn Wann, principal ativista do movimento gordo nos EUA. Autora de Fat!So? (a exclamação transforma a gíria ofensiva fatso em “Gordo! E daí?”), ela mede 1,64 m e pesa 133 quilos. Anos atrás, perdeu o namorado e o plano de saúde por ser obesa. Para protestar, escreveu um manifesto pelo amor próprio dos gordos e contra o preconceito. Reações de outros contando casos parecidos a fizeram ir adiante. “Tem gente que passa a vida inteira de dieta, infeliz e insatisfeita, estimulada pela mídia e pela publicidade”, acusa Marilyn.
A gordofobia é um tema até na novela das nove da TV Globo, Amor à Vida. Depois de cem capítulos vendo a enfermeira gordinha Perséfone continuar virgem e sem namorado, os fãs perderam a paciência. Uma petição na internet reuniu 3.600 assinaturas para pedir mudanças na personagem de Fabiana Karla, acusada de estimular a gordofobia com sua infelicidade. Mas o autor Walcyr Carrasco diz que a intenção era de denúncia. “Acredito que atualmente gordos são mais discriminados que os negros”, escreveu Walcyr em seu blog. “Já vivi isso na pele, porque já fui praticamente obeso.” E prometeu: “As gordinhas um dia me agradecerão”. Seja como for, a personagem finalmente arrumou um namorado, mesmo sem deixar de ser virgem. Mas seu martírio continua. Ela agora enfrenta problemas com a família do galã. Por ser gorda.

 

Imagem: gettyimages.com