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Paternidade a dois

O francês Luc Montagnier e o americano Robert Gallo dividem a glória pela descoberta do virus HIV. Não sem antes travar intensa disputa pela honraria

Maurício Oliveira

A década de 80 começou com um grande desafio para a ciência: identificar a causa de uma nova e fulminante doença, cujos sintomas incluíam manchas na pele, emagrecimento rápido e um tipo até então raro de câncer, o sarcoma de Kaposi. A urgência se justificava não apenas pela necessidade de tratar os doentes, mas sobretudo para evitar o pânico que ameaçava se espalhar pelo mundo: àquela altura, não se sabia se a recém-batizada Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida (Aids) poderia ser transmitida pelo ar ou pelo contato social. Houve um momento em que a doença foi tachada de “peste gay”, devido à concentração de casos, numa primeira fase, entre homossexuais masculinos.

Duas equipes de cientistas se destacaram na investigação da doença. De um lado, o grupo liderado pelo francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, na França. De outro, a equipe do americano Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos. Em maio de 1983, Montagnier isolou um vírus que acreditava ser o causador da Aids. Em abril de 1984, Gallo anunciou a descoberta de um vírus e patenteou um teste para identificá-lo. Montagnier desconfiou tratar-se do mesmo vírus e reivindicou a paternidade da descoberta, dando início a uma polêmica que se arrastou por anos.

Em 1989, a imprensa americana levantou dúvidas sobre o comportamento de Gallo no processo. O vírus descoberto por ele, batizado de HIV (Human Immunodeficiency Virus), não apenas seria o mesmo que Montagnier anunciara, como surgiu a suspeita de que amostras tivessem sido surrupiadas do laboratório francês. O Departamento de Saúde americano investigou o caso e concluiu que Gallo cultivou vírus fornecidos pela equipe de Montagnier, a partir de amostras intercambiadas pelos dois centros. Gallo alegou que poderia ter ocorrido uma “contaminação” acidental. Em 1995, os Estados Unidos admitiram que os pesquisadores do Instituto Pasteur haviam identificado o HIV antes da equipe de Gallo. Apesar da controvérsia entre os dois cientistas, hoje se considera que o grupo de Montagnier foi o primeiro a identificar o HIV, mas o grupo de Gallo contribuiu significativamente para demonstrar que o vírus é o causador da Aids. Assim, ambos os cientistas passaram a ser reconhecidos como co-descobridores do vírus. Gallo dirige atualmente o Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland, em Baltimore, nos Estados Unidos. Montagnier comanda o Departamento de Aids e Retrovírus do Instituto Pasteur, em Paris. Encerrada a disputa pela paternidade do vírus HIV, os dois cientistas chegaram a trabalhar juntos em pesquisas sobre a Aids.

O impacto da descoberta

A identificação do HIV, vírus que ataca o sistema imunológico do organismo, foi o ponto de partida para o combate à Aids, doença que mudou o comportamento sexual a partir dos anos 80. O desenvolvimento de uma vacina para a Aids é das maiores aspirações atuais da humanidade

Geração pós-HIV

Doença provocouchoque no comportamentodas pessoas

O mundo nunca mais foi o mesmo depois da explosão de casos de Aids. Se a geração dos anos 60 cultuou o amor livre, a dos anos 80 se viu obrigada a mudar o comportamento em função dos riscos de pegar Aids. Com a descoberta de que o HIV é transmitido por via sexual ou através do sangue, o uso de preservativos passou a ser obrigatório e compartilhar seringas virou sentença de morte. A decadência física do doentes e a proliferação de celebridades vitimadas – Rock Hudson (1985), Lauro Corona (1989), Cazuza (1990), Freddie Mercury (1991) – foram suficientemente assustadoras para promover a prevenção.

Nos anos 90, o desenvolvimento dos remédios que compõem o coquetel de combate ao HIV trouxe qualidade de vida aos doentes, atuando contra as infecções oportunistas e reduzindo a debilidade física. A doença deixou de parecer tão devastadora e muita gente se descuidou. Mas a Aids continua sem cura – e matando. Estima-se que foram 3 milhões de baixas e 5 milhões de novas infecções em 2003, fazendo subir para 38 milhões o número de pessoas que vivem com o vírus no mundo.