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Poluição do ar está ligada a uma maior mortalidade por Covid-19

Novo estudo de Harvard mostrou que quem vive em áreas poluídas tem até 15% mais chances de morrer pela doença.

Por Bruno Carbinatto - 7 abr 2020, 16h46

Pessoas que vivem em regiões mais poluídas têm mais chances de morrer de Covid-19 do que aquelas quem vive em áreas mais limpas. Foi o que descobriu um novo estudo feito por cientistas da Universidade Harvard, dos Estados Unidos. Embora já se supunha que essa correlação poderia existir, é a primeira vez que os dados mostram provas concretas que a poluição é mesmo um fator agravante da doença.

Os pesquisadores analisaram 3.080 regiões dos Estados Unidos, comparando a quantidade de material particulado fino no ar – os pedacinhos microscópicos de poluição que flutuam por aí – com as taxas de letalidade da Covid-19 de casa região. Eles descobriram que um aumento de apenas um micrograma de partículas por metro cúbico (1μg/m3) correspondia a um aumento de 15% na letalidade da Covid-19. Ou seja, quem vive há muito tempo em uma região que tem apenas um grãozinho a mais de material particulado por metro cúbico tem 15% mais chance de morrer. Isso se comparado a quem mora em uma região sem esse grãozinho extra.

Para medir qual região é mais “limpa” e qual é mais poluída, os pesquisadores coletaram dados sobre o material particulado fino de todo o país e o número de mortes oficiais pela Covid-19. Depois, os resultados foram ajustados para outros fatores que influenciam na pandemia, como densidade demográfica, pobreza e taxas de fumantes – o que permitiu garantir que a exposição de longo prazo à poluição atmosférica era mesmo a culpada.

Para dar um exemplo concreto: o estudo demonstra que a região de Manhattan, em Nova York, tivesse reduzido sua poluição em apenas 1 micrograma de material particulado por metro cúbico todo ano nos últimos 20 anos, a região teria 248 menos mortes por Covid-19 do que registra hoje. 

Em 2003, no meio da epidemia de Sars (Síndrome Aguda Respiratória Grave), causada por um vírus da família do novo coronavírus, um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles identificou que pacientes de áreas mais poluídas tinham o dobro de chances de morrer da doença do que quem vivia em áreas limpas.

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Um outro estudo preliminar apontou que a poluição também pode estar tendo um papel no surto da Itália, o país mais afetado pela doença no mundo. Segundo a equipe, a região norte do país, que é mais desenvolvida e também mais poluída, pode estar tendo uma maior letalidade graças também à poluição – embora os resultados aqui sejam menos conclusivos.

Em geral, a poluição por material particulado fino nas cidades está ligada à ações humanas, como a fuligem que sai do escapamento de carros, por exemplo. Não é nenhum novidade que ela é uma grande vilã da saúde pública e que está ligada a danos em vários órgãos, não só os pulmões – e é responsável por 4,2 milhões de mortes anualmente em todo o mundo. Agravar a pandemia de Covid-19 é só mais um dos malefícios em sua lista.

Como já contamos aqui na SUPER, a poluição atmosférica caiu em todo o mundo devido a quarentena generalizada e a paralisação de atividades humanas durante a pandemia. Mas o estudo se refere a exposição de longo prazo ao material particulado, e não a um quadro temporário. Por isso, a poluição continua sendo vilã nesse contexto.

O estudo oferece agora uma nova variável para autoridades projetarem suas respostas à pandemia e definir melhor a alocação de recursos, segundo os autores. Cidade mais poluídas devem se preparar para surtos mais fortes, especialmente em áreas mais pobres, onde os moradores são mais vulneráveis aos efeitos da poluição. Isso poderia explicar, pelo em partes, porque a população pobre do estado de Nova York está sendo especialmente afetada. Sabemos também que outros fatores influenciam na pandemia: áreas com muita concentração populacional tendem a espalhar o vírus mais rápido, e países onde há muitos fumantes, por exemplo, têm taxas de letalidade maior, já que a doença ataca os pulmões.

Ainda são necessários estudos mais aprofundados para mostrar exatamente como a poluição é um fator agravante da pandemia. Além disso, o novo estudo só utilizou dados dos Estados Unidos; seriam necessárias mais análises para ver como esse sistema se comporta em países como a Índia, que concentra algumas das cidade mais poluídas do mundo. Mas os autores alertam que as evidências já são suficientes para que medidas de contenção à poluição sejam tomadas o quanto antes. Por coincidência, porém, o estudo saiu apenas uma semana depois do presidente Donald Trump afrouxar as regras anti-poluição para empresas durante a pandemia e suspender as punições para quem polui.

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