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Por um fio

Vale guardar o cordão umbilical, rico em células-tronco, para uso futuro? A Anvisa sugere que não, e os cientistas se dividem

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h36 - Publicado em 13 jan 2014, 22h00

Salvador Nogueira

Pouco antes de você nascer, foi preciso tomar algumas decisões. Alguém escolheu seu nome. Suas primeiras roupas. Seu canto na casa. Seu local de nascimento. Recentemente, mais uma questão surgiu para pais, mães e responsáveis. Vale a pena guardar o cordão umbilical, rico em células-tronco, na expectativa de que o recém-nascido ou seus parentes façam uso no futuro?

Os bancos particulares que armazenam o material dizem que sim. Mesmo que ele não seja útil hoje, pode curar o câncer do seu filho quando ele tiver 80 anos. (E, quando se trata da saúde do bebê, quem pode paga os R$ 4 mil médios para a coleta e R$ 500 a R$ 1.000 de anuidade para preservar o material.) Avanços científicos à parte, já há especialistas que não acham que guardar o cordão seja indispensável – e que bancos públicos podem dar conta do recado. A verdade é que a questão divide os cientistas. Para desatar este nó, melhor recapitular.

A pesquisa com células-tronco sempre gerou muita expectativa. A capacidade que elas têm de se transformar em outros tecidos do corpo (ossos, nervos, músculos) faz com que tenham potencial para tratar vários tipos de doenças graves. O sangue do cordão umbilical, especificamente, é rico em células-tronco hematopoiéticas. O nome é complicado, mas o conceito é simples: devidamente encorajadas, elas viram tecido sanguíneo (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e companhia). Isso é ótimo, pois existem mais de 80 doenças do sangue, como leucemia, que podem ser tratadas com esse material. Em vez de retirar células da medula óssea de alguém, realiza-se um saque de um banco de células-tronco de cordão umbilical – 13 mil pacientes do mundo inteiro já foram beneficiados.

É aí que mora a polêmica: o sangue de cordão deve vir de bancos públicos ou é melhor que venha de um banco privado, aqueles que você paga para extraírem e guardarem o “seu cordão”?

A verdade é que, na prática, o uso privado é mínimo. “Das 45.661 unidades de sangue de cordão armazenadas nos bancos privados no Brasil, no período de 2003 a 2010, apenas três foram utilizadas para transplante autólogo [ou seja, de material do paciente, recolhido quando ele nasceu]”, diz um boletim recente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância). Ainda que não com todas as letras, o documento sugere que bancos privados são dispensáveis. Entre os que concordam está a geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da USP. “Sempre fui contra coleta de sangue de cordão para uso próprio. Ele deve ser guardado em bancos públicos”, diz. A lógica é que, como a maioria das doenças que as células hematopoiéticas tratam tem forte componente genético, usar o mesmo DNA do paciente pode não resolver. “Aconselhamos armazenar células-tronco do sangue em banco privado apenas quando alguém na família tem doença hematológica”, comenta Eder Zucconi, colega de Zatz na USP. A razão, nesse caso, é aumentar a chance de compatibilidade, tratando o paciente com material de um parente livre da doença.

NA OUTRA PONTA
Os defensores da armazenagem privada do sangue do cordão naturalmente não gostaram da nova cartilha da Anvisa, que inclusive enfatiza o uso dos bancos públicos da Rede BrasilCord.”Talvez seja a melhor opção no dia em que os bancos públicos forem eficientes”, diz Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora da USP que tem ligação com um banco privado de armazenamento de material de cordão.

Para Lygia, o baixo uso de material vindo de bancos privados, se comparado ao da rede pública, é explicado pela frequência dessas doenças na população. “O público está atendendo a população inteira – 190 milhões de habitantes. O banco privado atende só a quem depositou lá. Daí sai a proporção de uso. Nos dois casos, dividindo o número de usos pelo número de potenciais usuários, você vai encontrar uma porcentagem semelhante.”

E aí talvez esteja o cerne da questão. Por mais que as células-tronco de cordão já sejam usadas para tratamentos, e com sucesso, elas são aplicadas apenas em enfermidades raras e de frequência baixa. É uma boa dose de água no chope diante das promessas que ouvimos há mais de uma década sobre o potencial das células-tronco no tratamento de problemas que vão do mal de Parkinson a doenças cardiovasculares. “Este é um ponto para bater nos bancos privados: propaganda enganosa. Alguns se vendem como a garantia da saúde do seu filho e dizem que, se você não quiser, está negligenciando”, afirma a pesquisadora Lygia.

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GALHO DAS CÉLULAS-TRONCO
As células-tronco do sangue do cordão parecem ter seu uso circunscrito a raras doenças sanguíneas. Um estudo da USP aponta para o potencial das células-tronco presentes no tecido do cordão, chamadas de mesenquimais. “Acredito que essas células vão ter utilidade clínica, sim. Mas hoje não têm”, diz Lygia. “As células-tronco hematopoiéticas são as únicas que têm uso comprovado. As outras são pássaros voando.”

Enquanto essas aves recusam-se a pousar, um avião pode ultrapassá-las nos próximos anos. São as células “reprogramadas”, amostras normais que recebem genes para se comportar como células-tronco. Se elas se mostrarem tão boas quanto parecem nos laboratórios, será o fim da necessidade de armazenar o material dos cordões. Mas esse ainda é um cenário improvável.

É por essas e outras que, apesar do incrível potencial visto nas células-tronco, os tratamentos ainda são raros e limitados a poucas doenças. A complexidade se sobrepõe à aplicação imediata, exigindo estudos que levam anos para se concluir. E o futuro vai ficando para depois.

Promessas, promessas
Conheça os tipos de células-tronco e as expectativas em relação a elas

Hematopoiéticas
Encontradas em grande quantidade no sangue do cordão umbilical. Podem se transformar em tecido sanguíneo, como glóbulos vermelhos e glóbulos brancos. Usadas para tratar doenças sanguíneas, como leucemia.

Mesenquimais
Presentes no tecido do cordão umbilical. Têm potencial de formar osso, tendão, cartilagem, gordura e músculo esquelético, entre outros. Por enquanto, potencial.

Embrionárias
Em tese, as mais versáteis. Extraídas de embriões quatro ou cinco dias após a fecundação. Contudo, controlar seu comportamento é dificílimo. Introduzidas no organismo, elas tendem a formar tumores.

Do líquido amniótico
Muito ativas, se multiplicam com pouco estímulo e não induzem à formação da tumores. Podem se transformar em diversos tipos de tecido, como gordura, osso, sangue, fígado e sistema nervoso. Uma boa promessa.

Reprogramadas
Células normais que recebem genes para se comportarem como células-tronco. Caso se mostrem tão boas quanto parecem nos testes, será o fim da necessidade de armazenar material dos cordões. Mas ainda falta muito.

Foto: GettyImages

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