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Receita de campeão

A glória olímpica não é para qualquer um. Só tem chance quem nasceu com o físico certo

Cristiana Felippe

Bernard e Montanaro foram destaques da seleção brasileira de vôlei vice-campeã olímpica em Los Angeles-84. Se tivessem nascido quinze anos depois, com certeza, os dois teriam seguido outra carreira. De nada adiantaria sua indiscutível competência na quadra. Hoje em dia, um treinador precisaria estar louco para incluir os dois garotos na equipe olímpica de vôlei. Com “apenas” 1,87m de altura, Bernard e Montanaro seriam considerados nanicos pelos padrões atuais desse esporte.

É assim em várias modalidades. Os futuros atletas profissionais são selecionados já na infância a partir de um critério em que o biotipo é tão importante quanto a habilidade. “Oitenta por cento de um campeão é herança genética”, diz à SUPER o médico Osmar de Oliveira, especialista em esportes. “Os outros 20% dependem de treinamento, controle mental e tecnologia”. É inútil, portanto, os pais sonharem com o filho no pódio do vôlei se não puderam transmitir a ele a combinação de genes para que ele atingisse cerca de 2 metros de altura. Só com força de vontade ninguém vai longe. O atleta de alto nível é, por definição, dono de um físico privilegiado. Não é só uma questão de estatura. O pesquisador australiano Ronald Tren, da Universidade de Nova Gales do Sul, descobriu no ano passado que os remadores da equipe olímpica da Austrália possuem um certo gene ligado à melhoria da atividade cardiovascular numa proporção quase 40% maior do que a média da população.

Um caso exemplar é o do nadador americano Gary Hall Jr. Medalha de prata em Atlanta-96, ele nasceu com todas as chances de sucesso no esporte. Seu pai, nadador dos estilos medley, borboleta e costas, conquistou medalhas de ouro em três Olimpíadas e seu avô foi campeão americano de natação. Por sorte, esse tesouro hereditário não é monopólio de nenhum país. O cavaleiro Rodrigo Pessoa, brasileiro favorito ao ouro em Sydney, é filho de Nelson Pessoa, ex-campeão brasileiro de hipismo.

Em medicina esportiva, esse assunto está mais presente do que nunca. O motivo são as recentes descobertas do Projeto Genoma. O mapeamento genético do homem dá margem a especulações que antes se limitavam à ficção científica. Será possível, algum dia, criar um campeão copiando o código genético de um superatleta? “Se hoje conseguimos clonar mamíferos, não é ilógico pensar que, no futuro, possamos formar um Pelé por meio da duplicação de genes”, diz à SUPER o médico Victor Matsudo, presidente do Celasfiscs, Centro de Estudos do Laboratório de Atividade Física de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

É claro que, para isso, seria necessário mais do que hereditariedade. Você pode ter os genes de Mark Spitz, o maior recordista olímpico de todos os tempos, e gostar mesmo de ficar em frente à televisão se empanturrando com Big-Macs. O fato é que hoje, enquanto ainda não podem clonar esportistas, os caçadores de atletas tratam de detectar o mais cedo possível os campeões em potencial. Nos Estados Unidos, onde essa tarefa é levada muito a sério, existem centros que monitoram, por computador, os dados sobre o desempenho esportivo dos meninos e das meninas nas competições escolares desde o primeiro grau. Os mais jovens promissores recebem bolsas de estudo e são encaminhados a lugares como o U.S. Olympic Training Center, em Colorado Springs, onde treina a elite dos atletas americanos e também muitos talentos estrangeiros, como o nadador brasileiro Gustavo Borges.

Enquanto o Brasil não conseguir dedicar a mesma atenção à formação de seus esportistas, continuará a ocupar um lugar modesto entre os competidores olímpicos. “Atletas como Joaquim Cruz poderiam ter se tornado grandes fenômenos e conquistado muitas outras medalhas se tivessem sido descobertos ainda criança”, lamenta o médico Turíbio Leite de Barros, especialista em esportes, referindo-se ao maior corredor brasileiro de todos os tempos. “No Brasil existem excelentes atletas, mas infelizmente ainda não temos grandes locais especializados em treinamento olímpico.”

E a cabeça, como vai?

O trabalho do psicólogo nas equipes esportivas ganha importância a cada Olimpíada ou Copa do Mundo. Nos esportes coletivos, como o futebol, o vôlei e o baquete, o tipo de personalidade do jogador pode garantir sua escalação ou congelá-lo no banco. “Colocar uma pessoa mais agitada para jogar quando o time está muito passivo é uma técnica que dá certo”, diz a psicóloga esportiva Regina Braga. Segundo ela, uma equipe perfeita deve incluir atletas de três entre quatro tipos de personalidade: fleumáticos, coléricos e sanguíneos. Os indivíduos melancólicos – o quarto tipo – raramente tem vocação para o esporte. Veja três exemplos.

 

Fleumático

Calmo, traqüiliza a equipe num jogo tenso. É o que faz o goleiro Dida, que recentemente trocou o Corínthians pelo Milan, da Itália

 

Sanguíneo

Disciplinado, bem-humorado e sociável, presta atenção nos companheiros e não deixa cair o ânimo. É o perfil dos líderes, como o vovô Raí.

 

Colérico

Ousado, determinado e impulsivo, é a última esperança quando o time está jogando mal. Edmundo, o eterno “animal”, expressa esse temperamento melhor do que ninguém

Ilha prodigiosa

Você, com certeza, odiaria morar numa ilha onde não se pode escolher nem o sabonete (um produto raro) nem o presidente (o mesmo barbudo há quarenta anos). Mas Cuba tem algo em que não dá para pôr defeito: os atletas. Com uma população dezesseis vezes menor que a brasileira, a ilha comunista figura entre as dez maiores potências olímpicas do planeta. Em Atlanta-96, em plena crise econômica, o país abocanhou 25 medalhas, das quais nove de ouro, deixando para trás o Canadá, a Grã-Bretanha e todo o Leste Europeu com exceção da Rússia.

A explicação é simples: Cuba investe maciçamente em esporte. Dos 10 milhões de cubanos, 3 milhões são esportistas registrados em federações. Não é à toa que aparecem tantos talentos. “Nas escolas, os professores de Educação Física começam a selecionar as crianças aos 7 anos de idade”, conta à SUPER o cubano Francisco Ferrér, atual técnico da seleção brasileira de saltos ornamentais. “Os melhores são encaminhados a centros esportivos, onde ocorre uma nova seleção”, prossegue. “Quem se destaca passa a se dedicar apenas ao esporte, com todos os custos pagos pelo Estado.” Ferrér sabe do que está falando: ele foi treinador do time olímpico cubano durante 34 anos. (IF)