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Sandro Malburg Bosco

O iogue paulistano fala sobre os benefícios do jejum, um antigo ritual místico que seria eficaz para combater muitos males.

Jomar Morais

O paulistano Sandro Malburg Bosco, 47 anos, é uma referência brasileira em yoga, a arte milenar de harmonizar mente e corpo num processo de autoconhecimento e cura. Sandro lecionou yoga na Califórnia, Estados Unidos, criou o Programa de Prevenção e Redução do Estresse, adotado há seis anos por diversas empresas de São Paulo, e atualmente coordena o projeto Yoga & Saúde, destinado a portadores do vírus da Aids e dependentes químicos. Nos últimos anos, tem se destacado em outra vertente das práticas místicas e terapêuticas originárias do Oriente: o jejum.

A abstinência de alimentos é um recurso usado na medicina ayurvédica, da Índia, há cerca de 5 000 anos. Para desintoxicar o organismo, o ayurveda propõe jejuns personalizados, de acordo com uma classificação físico-psicológica dos pacientes. O tipo e o tempo da abstinência variam bastante, mas qualquer pessoa pode fazer o jejum de 12 horas, uma vez por semana, sem restrição de líquidos.

Em sua academia Yoga Dham, Sandro ensina aos alunos a jejuar como meio de alcançar mais rapidamente os benefícios prometidos pelo yoga. Nesta entrevista, ele explica por que o jejum, um ritual adotado pela maioria das grandes religiões do planeta, está ganhando cada vez mais espaço como importante ferramenta de saúde.

Super – Por que o jejum está em moda atualmente?

Nas últimas décadas, o homem vem reavaliando o legado das culturas antigas em vários campos, incluindo a medicina. Ao mesmo tempo, as pessoas querem descobrir formas de religiosidade não-dogmáticas, não-institucionais, que curem os males do corpo e da mente, superando os limites da ciência médica. O jejum é uma tradição religiosa e terapêutica que, bem orientada, pode melhorar a qualidade de vida dos seus praticantes, ao promover a desintoxicação do organismo, com reflexos positivos no humor.

Como se dá essa desintoxicação?

Uma parte da energia do corpo é empregada na digestão dos alimentos e outra quantidade é consumida na eliminação de toxinas desses mesmos alimentos. Com o jejum, o processo de depuração se acelera – mas cabem aqui alguns cuidados com as pessoas debilitadas. Para elas, o início da abstinência de alimentos pode ser demasiadamente forte. Já uma pessoa saudável vai obter enormes benefícios com a prática regular do jejum. O organismo habitua-se a um descanso regular, com enorme economia de prana – a energia básica. Essa energia que seria gasta na digestão, acaba sendo usada pelo sistema imunológico, reforçando as defesas do organismo.

Não é um risco privar o corpo de alimentos, sua principal fonte de energia?

Podemos ficar semanas sem comer, dias sem beber, mas apenas minutos sem respirar. Segundo a tradição do yoga, extraímos nossa energia dos alimentos, da água e principalmente do ar. Quando não ingerimos sólidos, o corpo compensa extraindo mais energia da água e do ar. Com a prática dos exercícios respiratórios do yoga, esse benefício se amplia.

Qual a fórmula ideal de jejum?

O jejum pode ser feito semanalmente. Na tradição iogue, há toda uma de-puração prévia fundamental, como a limpeza do estômago e do intestino. Isso é necessário, pois um dos males que mais afligem o homem moderno é a constipação intestinal. É tão comum que as pessoas nem se dão conta de que têm a doença. A verdade é que deveríamos evacuar pelo menos uma vez diariamente. Isso não acontece devido ao sedentarismo, aos alimentos industrializados, aos de origem animal e à dieta não balanceada.

Então, a abstinência temporária de alimentos não resolve tudo?

O intestino nessa condição é depositário de uma carga de material tóxico que, nos primeiros dias de jejum, é absorvido pelo organismo e lançado à corrente sangüínea como nutriente, envenenando ainda mais o sistema. Por esse motivo os sábios iogues desenvolveram os kryias, técnicas de lavagem estomacal e intestinal que limpam e preparam as mucosas para a prática do jejum.

Quais os cuidados recomendados para os iniciantes?

Em um jejum prolongado, ou seja, superior a três dias, iniciantes ou não podem utilizar, se necessário, mínimas pitadas de sal marinho para regular a pressão ou mínimas quantidades de mel em caso de prostração. A saída do jejum também é algo extremamente delicado. Recomenda-se refeições compostas de vegetais leves em pequenas quantidades, pois ocorre que o estômago se retrai durante a abstinência alimentar.

Muita gente come frutas durante o jejum. Isso é bom?

O jejum de frutas é o que se conhece como jejum parcial. Boa parte das frutas é de fácil digestão, o que facilita o processo depurativo do organismo. No verão, podemos optar pelos tipos tropicais e, no inverno, acrescentar as frutas secas. Deve-se ter cuidado com a procedência das frutas. Aquelas que receberam grandes quantidades de agrotóxicos prejudicam o processo de desintoxicação do organismo.

Crianças e idosos podem jejuar sem risco?

O jejum não é recomendado para crianças, pois estão em um momento metabólico de crescimento. Já as pessoas idosas, desde que o façam de modo regular e moderado, podem ser beneficiadas. Aos 77 anos de idade, Gandhi fazia jejuns de 21 dias. O nutricionista americano Paul Bragg, que viveu quase um século, também fez jejuns prolongados após os 90 anos.

Na sua opinião, qual deve ser o limite do homem à mesa?

Na filosofia do yoga, dizemos que você deve encher metade do estômago com sólido, um quarto com líquido e outro quarto reservar para o oxigênio. O homem adoece mais por excesso de comida do que por escassez.

O jejum produz algum benefício psicológico?

Como toda abstinência, o jejum também exige um esforço de autodisciplina. E a disciplina é um caminho para outros ganhos, para a felicidade. Eu, por exemplo, consegui melhorar a concentração e a memória jejuando.

Por que isso acontece?

O jejum ajuda a silenciar a mente. Assim, funciona como um mecanismo de controle sobre os sentidos. O filósofo Pitágoras exigia de seus discípulos que fizessem jejum de 40 dias para purificar o corpo e estimular a mente. Os animais carnívoros vão à caça praticamente em jejum, pois é quando os seus reflexos são mais precisos. A exemplo do homem, eles ficam preguiçosos e inativos após um almoço farto. Como toda abstinência, o jejum pede esforço sobre si mesmo e fortalece a disciplina e a espiritualização. A prática espiritual leva em conta o corpo, sem o qual não se pode pensar em vida ou crescimento espiritual.

O vegetarianismo é a saída para quem deseja alimentação saudável?

O intestino humano é de um animal herbívoro. Sua estrutura é longa o suficiente para permitir a quebra das células vegetais, um processo lento de decomposição. Animais carnívoros são dotados de intestinos curtos, que eliminam do corpo, com maior rapidez, algumas substâncias altamente tóxicas. E a carne está cheia dessas substâncias. A alimentação vegetariana é a mais inteligente em termos nutricionais, higiênicos, econômicos e éticos.

O jejum é uma invenção humana ou existem na natureza outras espécies que optam por não comer?

Animais domésticos, como gatos e cachorros, jejuam sempre que adoecem ou sofrem algum acidente. Trata-se de uma reação instintiva que serve para que o organismo deles tenha tempo e condições para se restabelecer.