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Silêncio: som demais causa poluição sonora

Existem razões, além do risco de surdez, que tornam imperativo diminuir o barulho nas grandes cidades brasileiras. Existem também meios de conseguir isso

Lúcia Helena de Oliveira

As buzinas disparam, as sirenes apitam, as máquinas rangem, os motores roncam, as construções batucam, as motos rugem, os alto-falantes gritam, as pessoas berram. Essa orquestra, sem nenhuma harmonia, toca a estridente trilha sonora do cotidiano nas grandes cidades brasileiras. Não é difícil constatar que a cada dia essa permanente agressão aos ouvidos torna as pessoas mais surdas — basta observar a freqüência com que é preciso elevar a voz para se fazer entender numa conversação. Se isso já não bastasse, os cientistas garantem que a perda da audição é apenas parte dos males causados pela poluição sonora. Está provado que o barulho em excesso traz toda uma série de conseqüências perturbadoras para a saúde — de insônia a partos prematuros de úlceras a perda de reflexos. E diante disso não se pode silenciar mesmo porque não faltam leis e técnicas contra o barulho.

Na hora de verificar onde o ruído fala mais alto, com os brasileiros, infelizmente, não há quem possa: Rio de Janeiro e São Paulo são, nessa ordem, as metrópoles mais barulhentas do mundo. Eis um resultado que seria melhor comentar baixinho do que festejar com rojões. Afinal, não é propriamente prova de vida civilizada o fato de que abrir a janela para certas ruas cariocas e paulistanas seja equivalente a estar no terraço de um aeroporto, ouvindo os jatos arranhar o ar. Oitenta por cento dessa barulheira infernal é causada pelos veículos, que também são os principais culpados pelo ruído de outras agitadas cidades do mundo.

Mas da cacofonia que machuca os ouvidos do pobre homem urbano fazem parte ainda outros tantos sons que resultam simplesmente da falta de educação. “Por causa dos carros, o barulho vai se espalhando pelas cidades”, observa Ualfrido del Carlo, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. A lógica é a seguinte: como as ruas de muito trânsito não oferecem espaço para mais carros (e, conseqüentemente, para mais barulho), os motoristas passam a procurar cada vez mais caminhos alternativos, até então sossegados. “O silêncio habitará ilhas cada vez menores nos espaços urbanos”, prevê Ualfrido, que pesquisa a questão do ruído há vinte de seus 46 anos.

Filho de um violinista, Ualfrido também queria ser músico, mas a vocação não soou bem ao pai, que preferia vê-lo com um diploma de faculdade. Formado afinal em Engenharia Eletrônica, Ualfrido só achou um jeito de se reencontrar a aptidão musical — especializou-se em barulho, o que o levou ao urbanismo. A solução não é tão bizarra como pode parecer: para os ouvidos da ciência, uma sinfônica e uma batedeira em ação devem ser avaliadas pelos mesmos parâmetros. Pois, em termos estritamente físicos, todo som é simplesmente uma variação na pressão do ar, captada pela orelha.

Essa variação é causada pela vibração de corpos, que ao se deslocar alternadamente, provocam ondas acústicas a seu redor. Estas se diluem à medida que se afastam do ponto de origem e apenas se transformam em som ou sensação auditiva quando alcançam a orelha. O barulho é, portanto, subjetivo. No percurso, a onda acústica agita as moléculas de ar certo número de vezes — e isso é justamente o que se chama freqüência do som, medida em hertz. Os infrasons, ondas acústicas com menos de 20 hertz, não são captados pelo homem nem por qualquer outro animal.

Entre 20 e 200 hertz, o som é sentido como grave, e, entre 2.000 e 20.000 hertz, é percebido como agudo. Acima de 20.000 hertz existem os chamados ultra-sons, que apenas alguns animais, como cães e gatos, conseguem ouvir. Mesmo assim, a sensibilidade do ser humano à freqüência do som é admirável. O aparelho auditivo do homem pode ser comparado a uma balança que fosse capaz de pesar volumes de 1 quilo a uma tonelada. Nem todos os matizes sonoros, porém são captados com a mesma facilidade: o homem ouve melhor os sons médios, entre 200 e 2.000 hertz, que precisam de menos volume ou intensidade para serem percebidos. Como a voz humana.

“Por isso, nos grandes concertos de rock, as bandas abusam dos amplificadores de som”, explica o urbanista Ualfrido del Carlo. “Só com muita intensidade de som a platéia consegue ir além dos sons médios, distinguindo os graves e os agudos da música. Fica tudo, então, no mesmo nível para o aparelho auditivo.” O volume ou intensidade do som corresponde à amplitude das ondas acústicas, cuja unidade de medida é o

decibel ( dB). Zero decibel só existe no papel dos livros de Física e em laboratórios de acústica, pois o silêncio absoluto não existe no mundo real.

Somente o ruído discreto de folhas carregadas pelo vento já equivale a 15 decibéis. Um segredo cochichado na orelha faz o dobro de barulho — 30 decibéis. A fala humana, em tom normal, oscila em torno de 60 dB — a metade do que o homem pode suportar sem que o barulho literalmente lhe estoure os tímpanos. Isso não significa que um grito que faz aparentemente o dobro de barulho, ensurdeça, porque o decibel é, na realidade, uma medida logarítmica. Ou seja: doze carros não fazem duas vezes mais barulho do que seis carros — produzem apenas três decibéis de ruído a mais.

A dificuldade para os cientistas está em determinar em quantos decibéis começa exatamente o que se considera barulho. Por definição, barulho é todo som desagradável e neste ponto o problema torna-se bastante subjetivo — depende até do local onde as pessoas se encontrem. Um trabalho do Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP mostra que em casa, em salas de leitura ou em escritórios, as pessoas consideram o ambiente muito barulhento quando o som ultrapassa 50 decibéis, o ruído de um carro pouco ruidoso. Mas o trabalhadores de oficinas acham que, com essa mesma intensidade de som, o ambiente está calmíssimo — para eles, por força do hábito, o inferno só começa a partir de 70 decibéis, o som da passagem de um trem de passageiros.

“Acima de 70 decibéis — ou 90, para pessoas acostumadas com ambientes ruidosos –, o barulho começa a alternar as estruturas da orelha”, diagnostica o médico Yotaka Fukuda, da Escola Paulista de Medicina. Segundo ele, nos grandes congestionamentos as pessoas ficam habitualmente expostas a até 100 decibéis. “Elas vão perdendo a audição tão gradualmente que nem notam”, comenta. Numa orelha existem cerca de 20 mil células sensitivas que, submetidas ao impacto de um som muito alto, incham, dando a conhecida sensação de ouvidos tapados. Algumas perdem a resistência e estouram — daí o dano é irreversível. O tempo de exposição ao barulho também conta: ninguém fica impunemente mais do que meia hora numa discoteca — onde, em média, o som varia entre 107 e 115 decibéis.

Por isso, as danceterias americanas são obrigadas a afixar o seguinte aviso na porta: “Aqui você está sujeito à surdez”. Segundo os cientistas, o humor e a sociabilidade das pessoas pioram quando o barulho golpeia o que se chama audição primitiva — aquela que permite escutar o som dos próprios movimentos. Uma experiência numa universidade americana provou que o barulho faz diminuir o interesse pelos outros e as boas maneiras. Pequenos grupos de estudantes acompanharam o pesquisador num passeio pelo prédio; ao atravessarem determinado corredor, alto-falantes escondidos faziam soar um barulho; então o cientista deixava cair um livro: apenas seis em cada dez estudantes tomaram a iniciativa de pegá-lo. Repetida a experiência com outro grupo e dobrada a intensidade do barulho no corredor, só três em cada dez alunos resolveram catar o livro.

É provável que essa maior indiferença tenha a ver com a agressão sofrida pela chamada audição de alarme — aquela que desencadeia uma série de reações fisiológicas destinadas a preparar o organismo para uma situação de risco. Ou seja, o choque sonoro, como o de um objeto caindo no chão, faz subir a produção do hormônio adrenalina, induzindo o indivíduo a concentrar a atenção na causa do barulho inesperado. Trata-se portanto de um recurso biológico de defesa. Com a atenção voltada para o ruído, sobra menos interesse para outros acontecimentos e outras pessoas.

Um estudo realizado pela Universidade de Düsseldorf, na Alemanha, mostra que os moradores de bairros industriais sofrem não apenas de distúrbios auditivos, como de sérios problemas cardíacos e digestivos, ao que tudo indica devido ao estado de estresse crônico imposto pelo barulho. Outra pesquisa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, indica que nem sequer os fetos ficam imunes a ambientes com muito estardalhaço. Equipamentos ultra-sensíveis permitiram saber que, a um som forte, a freqüência cardíaca dos fetos — normalmente entre 130 e 150 batimentos por minuto — pulava para até 170. Na mesma linha, pesquisadores canadenses verificaram que crianças cujas mães trabalharam em lugares muito ruidosos durante a gestação ouvem três vezes pior do que outras crianças.

Também são alterações hormonais e de pressão sanguínea as causas de algo que todos sabem por experiência própria: barulho tira a capacidade de concentração. Os franceses, por exemplo, descobriram que alunos de colégios situados em ruas calmas conseguem memorizar até quatro vezes mais o conteúdo das aulas. Além disso, sons intensos demais diminuem a rapidez dos reflexos.

Por estranho que seja ouvir isso, apesar de tudo os cientistas acreditam num futuro mais silencioso — pelo menos no que depender de soluções tecnológicas. Uma delas são os equipamentos de antibarulho que já estão sendo testados em laboratórios na Europa e nos Estados Unidos para futura instalação em indústrias, aeroportos e outros locais ruidosos. Trata-se de computadores capazes de analisar a onda acústica que produz o som indesejável e de sintetizar outro som, igualmente ruidoso, mas cuja onda é o oposto daquela que faz o barulho. Quando as duas ondas opostas se chocam no ar, todo e qualquer barulho desaparece (SUPERINTERESSANTE, Nº 2 , ano 1).

Há soluções bem mais simples, como as apontadas pelo arquiteto João Baring, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP. “No Brasil, as pessoas acham que barulho não tem remédio, mas isso não é verdade”, diz ele. “Poucos sabem que existem, entre outros recursos, janelas acústicas, com um dispositivo de lã de vidro num dos lados, que deixa passar o ar, mas absorve as ondas sonoras.” Segundo Baring, as construtoras não usam esses equipamentos “porque não existe interesse na própria sociedade”. Em países como a França e a Suíça, tais recursos são obrigatórios nas edificações em lugares barulhentos.

Toda tecnologia antibarulho não sairá dos centros de pesquisa enquanto a sociedade não pedir silêncio. “Podemos fiscalizar casas noturnas e impor medidas de proteção acústica. Não podemos, porém, impedir que as pessoas saiam de lá falando alto, em plena madrugada”, exemplifica o arquiteto Baring. Ele dirige, por sinal, a equipe que elabora um projeto destinado a melhorar a Lei do Silêncio, em vigor em São Paulo desde 1974. Mesmo com imperfeições, a legislação de combate à poluição sonora nas cidades brasileiras poderia ser muito mais acionada para melhorar a qualidade de vida, se houvesse da parte de autoridades e cidadãos disposição para tanto.

Há, decerto, neste mundo moderno, coisas inevitavelmente barulhentas, cujo uso poderia ser restringido a boa educação; o exemplo clássico é a buzina. E há coisas não necessariamente barulhentas, cujo uso inadequado as torna uma agressão ao próximo, pela falta de educação dos donos; é o caso típico das motos com escapamento aberto e dos aparelhos de som no volume máximo. Isso tem conserto. Há dez anos, Tóquio era a capital mundial do barulho. Iniciou-se então ali uma campanha que apelava principalmente para o bom senso das pessoas. Diariamente a televisão local advertia: “Caro telespectador, são 22 horas. Por favor, reduza o volume ao mínimo”. Os japoneses devem ter obedecido a essa e a outras regras simples de convivência silenciosa, tanto que, embora seja a terceira mais populosa cidade do mundo, com 8,5 milhões de habitantes, hoje Tóquio é apenas a décima na lista das metrópoles mais barulhentas — aquela mesma que apresenta São Paulo em segundo lugar e Rio de Janeiro em primeiro.

 

 

Para saber mais:

As armas do ar

(SUPER número 11, ano 2)

 

Psssiu, ouça essa…

(SUPER número 7, ano 5)

 

 

 

O caminho das ondas

Alguém fala suas cordas vocais vibram a ponto de deslocar o ar sob a forma de ondas. Quando elas alcançam o aparelho auditivo do receptor, existe ainda um longo caminho, embora percorrido em frações de segundo, até que se transformem em sensação sonora. A porta de entrada é o pavilhão auditivo, que é apenas parte da orelha. Nessa estrutura cartilaginosa há músculos, provavelmente menos desenvolvidos que no homem primitivo — este terá sido capaz de apontar a orelha na direção da fonte sonora, como fazem os cães e os cavalos.

Na chamada orelha externa (que inclui o pavilhão auditivo), a onda sonora percorre um canal com cerca de 2,5 centímetros; é o conduto auditivo, que termina na abertura para a orelha média. Essa abertura é barrada por uma membrana, o tímpano, que vibra como um gongo quando atingida pela onda acústica. Então, o martelo — o pequeno osso ao qual o tímpano está ligado — se move e serve de alavanca para um segundo osso, a bigorna, que por fim movimenta o estribo, o menor osso do corpo humano. Toda essa agitação de ossinhos, aliada ao dado de que as ondas sonoras só podem sair por uma passagem 25 vezes menor do que o tímpano, serve para concentrar o som. É preciso aumentar bastante o volume do que se ouve.

Afinal, as ondas sonoras bateram no meio líquido da orelha interna, onde, como o impacto amortecido de uma pedra ao bater num lago, só 0,01 por cento do som é absorvido. O líquido preenche um labirinto em forma de caracol. Dentro dos canais do labirinto existem células sensitivas com 35 a 140 cílios cada. A vibração no líquido agita os cílios, que então disparam um sinal elétrico para o conglomerado de células nervosas no eixo do caracol. Dali, transformada em onda elétrica, a onda acústica percorre o nervo auditivo até o córtex cerebral, onde o ser humano não só percebe o som como o interpreta.