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Um golpe certeiro no câncer

Chega ao Brasil a chamada braquiterapia de alta dose, um tratamento capaz de destruir um tumor, sem afetar órgãos vizinhos.

Chega ao Brasil a chamada braquiterapia de alta dose, um tratamento capaz de destruir um tumor, sem afetar órgãos vizinhos

O paciente, vítima de câncer, fica sozinho na sala. Do aparelho ao lado cama sai um tubo fina, o cateter, que entra em sei organismos, até alcançar o tumor. Por esse verdadeiro túnel, escorrega um cápsula do tamanho de um grão de arroz, tão radioativa que, se alguém a segurasse por poucos minutos, certamente teria de amputar os dedos. Mas, no caso, essa pequenina fonte radiação irá parar, durante alguns segundos, na frente de diversos pontos do tumor, a fim de atacar as células doentes. Cinco minutos mais tarde, no máximo, o serviço costuma já estar terminado e o aparelho de chumbo blindado recolhe a cápsula. Só então entram no local os médicos, que acompanharam tudo à distância, por monitores de televisão. Isso porque as aplicações de radiação foram, na realidade, inteiramente comandadas por um computador. Essa é uma das mais recentes e eficazes armara contra o câncer – a chamada braquiterapia de alta dose, cujo equipamento foi instalado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, no final do ano passado.

“Como em qualquer outro tratamento conhecido para essa doença, só se espera a cura total quando o diagnóstico é precoce”, esclarece o radioterapeuta Agamedes Paduam, médico do hospital. “Muitas vezes, a braquiterapia é usada apenas para atenuar a doença, prolongando a vida do paciente. Mas, de qualquer modo, ela tem a vantagem de aplicar a radiação somente no tumor, deixando intacto o que estiver ao seu redor.” Há mais de cinqüenta anos, os cientistas descobriram que a radiação pode ser usada para combater tumores. Pois a grande característica de uma célula cancerosa é se multiplicar em ritmo alucinante, além de agir feito uma vampira, tornando outras células malignas iguais a si, ao enviar-lhes uma ordem errada, que desencadeia o crescimento exagerado. A radioatividade, porém, é capaz de explodir as moléculas do seu núcleo, chamadas DNA e RNA. Sem elas, a célula perde tanto a própria capacidade de crescer como a de passar mensagens enganosas para suas vizinhas saudáveis. Resultado: por não deixar descendentes nem herdeiros, ao morrer dali a alguns dias ou semanas, acaba provocando a diminuição do câncer.

Por isso, muitos tratamentos contra a doença lançam mão da radiação – trata-se das radioterapias, que se dividem em dois tipos. A mais comum é a chamada teleterapia: “No caso, uma espécie de canhão emite feixes de radiação a uma distância de aproximadamente 75 centímetros do paciente”, descreve Paduam, sem parar de rabiscar esquemas, na tentativa de ser ainda mais didático. O problema da teleterapia é que, por mais que os médicos focalizem o feixe de radiação na região doente, ela acaba atingindo órgãos saudáveis – “quando realizo esse tratamento no útero de uma paciente, o intestino e a bexiga, que estão próximos, terminam afetados. O resultado são efeitos colaterais como fortes diarréias e ardência ao urinar”, exemplifica o radioterapeuta. Até há cinco anos, no entanto, quando a braquiterapia de alta dose se popularizou nos Estados Unidos, os doentes não tinham muita saída. Isto é, ou amargavam os efeitos da teleterapia ou realizavam a desconfortável braquiterapia de baixa dose, ancestral desse novo tratamento.

A chamada braquiterapia de baixa dose surgiu ainda nos anos 60: os médicos, então tiveram a idéia de introduzir a fonte da radiação diretamente no tumor, através de sondas e cateteres. Isso, claro, diminuía os efeitos colaterais; em compensação, o paciente tinha de permanecer cerca de 72 horas com o cateter ou enfrentar duas sessões de 48 horas. “Depois de passar pela primeira sessão, o doente faltava na segunda”, recorda Paduam. Não era por menos: fora a desagradável permanência do cateter, em alguns casos, o paciente era proibido de se alimentar durante esse período. “Felizmente, a braquiterapia de alta dose resolve tanto o problema dos efeitos colaterais, como o do desconforto, já que é muito rápida”, comemora o radioterapeuta alemão Manfred Busch, professor da Universidade de Essen, com os olhos azul-claros brilhando. Busch, um dos pioneiros no uso da braquiterapia em todo o mundo, esteve no Brasil, no mês passado, para participar de um workshop sobre este tratamento, realizado no Hospital Sírio-Libanês. Enquanto na braquiterapia de baixa dose a taxa de radiação é de 50 a 60 rad (unidade de radiação) por hora, a de alta dose emite 200 rad por minutos, ou seja, a intensidade da radiação é cerca de 240 vezes maior. “Com isso, precisamos de um tempo para obter o mesmo efeito”, explica o professor alto e de meia idade.

Mas com isso, também o paciente deve permanecer sozinho na sala de tratamento, por questões de segurança. Os médicos, antes, introduzem o cateter, com cerca de 1,5 centímetro de diâmetro, que pode carregar uma minúscula câmara de vídeo na ponta, servindo de guia. O tubo é orientado para contornar o tumor, como o cabo do Pão de Açúcar – e o bondinho, nessa comparação, seria a cápsula radioativa de irídio 192, que passa dentro do cateter, presa por um fio de aço. Só que, em vez de fazer uma viagem sem escalas, a cápsula vai parando em pontos diferentes, calculados por um computador. “É tirada uma radiografia do paciente, já com o cateter em seu organismo”, conta Paduam. “Sobre uma mesa de luz,essa imagem ´r interpretada por um leitor ótico.” Um físico, por sua vez, digita no teclado do computador a quantidade de radiação que o médico indicou par aquele paciente. A máquina, então, analisa o tamanho e a forma do tumor, para dividir aquela dosagem de radiação em diversos pontos. Assim, por exemplo, ordena que a cápsula fique parada dois segundos em determinada altura e três segundos em outra, onde poderá alcançar um maior número de células.

Quando está tudo pronto para começar, os especialistas abandonam a sala. O aparelho de braquiterapia, então, conectado ao computador, libara uma pastilha falsa, que percorre o projeto de ida-e-volta pelo cateter. Faz sentido. Afinal, por ser flexível, o cateter pode se dobrar dentro do organismo, bloqueando a passagem. A pastilha radioativa encontraria um obstáculo, como uma curva muito fechado, ficando parada no meio do caminho, atacando a região errada – o que seria um desastre. Se o caminho está livre, o aparelho solta a cápsula verdadeira. “Depois de alguns minutos, o paciente já pode ir para casa andando”, diz Paduam. A braquiterapia de alta dose, contudo, não substitui a teleterapia – muitas vezes, as duas formas trabalham juntas. “Um tumor muito grande no esôfago pode bloquear a passagem do cateter”, exemplifica Paduam. “Então, realizamos algumas sessões de teleterapia até diminuir o câncer. Para tumores pequenos, porém, esse novo tratamento é imbatível.”