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Vacina contra herpes-zoster também reduz risco de demência, mostra estudo

Pesquisa, que derivou de um experimento “natural” feito meio por acidente, é mais uma evidência que liga infecções virais a doenças como Alzheimer.

Por Bruno Carbinatto
3 abr 2025, 14h00

A vacina contra a herpes-zoster apresenta um benefício inesperado e pouco óbvio: protege os imunizados contra a demência, o declínio das habilidades mentais visto em doenças como o Alzheimer. Foi isso que mostrou um novo estudo que acompanhou mais de 280 mil idosos no País de Gales.

Segundo a pesquisa, pessoas que foram vacinadas contra a herpes-zoster tiveram 20% menos chances de desenvolver demência sete anos depois da imunização, em comparação com quem não tomou a vacina. O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Stanford, nos EUA, e publicado na revista Nature.

O artigo é mais uma evidência a favor da hipótese de que alguns vírus que afetam o sistema nervoso podem estar ligados a maiores chances de desenvolver demência.

A herpes-zoster é uma doença causada pelo varicela-zoster (VVZ), o mesmo que causa catapora. Depois de um quadro de catapora (geralmente na infância), o vírus costuma permanecer dormente durante a vida da pessoa, mas pode ser reativado em indivíduos mais velhos ou imunossuprimidos, causando lesões na pele, dores intensas e outros sintomas – doença conhecida como “cobreiro”. Felizmente, há vacina, indicada para pessoas com mais de 50 anos ou que estão no grupo de risco.

Já a demência afeta quase 60 milhões de pessoas no mundo, de acordo com a OMS, sendo a doença de Alzheimer a forma mais comum.

Um experimento “natural”

O novo estudo só foi possível por conta de um “experimento natural”, iniciado pelo governo do País de Gales por acaso. Acontece que, em 2013, o pequeno país europeu iniciou sua campanha de vacinação contra a herpes-zoster, mas tinha um estoque limitado de vacinas, então precisou definir quem poderia receber o imunizante.

O governo decidiu assim: quem tinha exatos 79 anos no dia 1º de setembro de 2013, data de início da campanha, poderia tomar a vacina no prazo de um ano. Aí, em 1º de setembro de 2014, começava um novo round de vacinação para as pessoas que tinham feito 79 anos, e essa rodada durava mais um ano. O processo se repetia, ano após ano.

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Isso significa que quem tinha 80 anos em 1º de setembro de 2013 não pôde tomar a vacina – nunca. (O governo justificou com o fato de que a vacina, apesar de ser recomendada para idosos, perdia a eficácia depois dessa idade.)

A política pública peculiar acabou gerando um cenário perfeito para estudos: um grupo de pessoas de 79 anos que receberam a vacina e outro grupo, só alguns meses mais velhos, que não foi imunizado. Comparando os dados, daria para verificar o efeito da vacina com precisão. Para refinar ainda mais a análise, os pesquisadores focaram em pessoas cujos aniversários eram próximos ao dia 1º de setembro – ou seja, tinham apenas algumas semanas de diferença de idade.

“Sabemos que, se você pegar mil pessoas aleatoriamente nascidas em uma semana e mil pessoas aleatoriamente nascidas uma semana depois, não deveria haver nenhuma diferença entre elas, em média, exceto essa pequena variação de idade”, diz Pascal Geldsetzer, professor de medicina em Stanford e um dos autores do estudo.

“O que torna o estudo tão poderoso é que ele é como um ensaio clínico randomizado, com um grupo de controle – aqueles velhos demais para serem elegíveis para a vacina – e um grupo de intervenção – aqueles jovens o suficiente para serem elegíveis.”

Acompanhando os dados dos dois grupos por sete anos após a vacinação, a equipe conseguiu verificar que as chances de ter herpes-zoster caíram 37% em quem foi vacinado, em linha com a eficácia esperada daquela vacina específica.

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Mas não só. Em 2020, quando os voluntários acompanhados tinham 86 ou 87 anos, uma em cada oito pessoas que participaram do estudo desenvolveu demência. Só que o risco foi 20% menor entre os vacinados.

“Foi uma descoberta realmente impressionante”, diz Geldsetzer. “Esse forte sinal de proteção estava presente, independentemente da forma como os dados eram analisados.”

O próximo passo foi buscar outras diferenças entre os grupos, que não a vacina, que pudessem explicar essa discrepância. A equipe analisou fatores como comorbidades (diabetes e câncer, por exemplo), hábitos de vida ou nível de educação. Mas descobriu que tudo era semelhante entre os dois grupos – exceto a vacinação contra a herpes-zoster, que só existia em um deles.

Por conta disso, os cientistas afirmam que há, de fato, uma causalidade em jogo, não só uma mera correlação. “Por conta da forma peculiar que a vacina foi distribuída, o viés na análise é muito menos provável do que normalmente seria”, diz Geldsetzer.

Não é uma alegação tão surpreendente quanto parece. Isso porque esse não é o primeiro estudo que indica que infecções virais podem ter ligação com o desenvolvimento de demência, embora talvez seja o mais robusto. O maior ponto forte do novo estudo foi seu rigor metodológico: a equipe verificou extensamente se o resultado realmente poderia ser associado à vacinação e excluiu possíveis fatores de confusão da análise.

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Um dos problemas mais comuns deste tipo de estudo é que comparar dados de pessoas que foram se vacinar e pessoas que não buscaram a imunização é algo enviesado por si só. Quem busca se vacinar pode, por exemplo, ter hábitos mais saudáveis como um todo do que quem deixa a prevenção para lá. Como garantir que as diferenças entre os grupos são realmente frutos da vacina, e não desses outros fatores?

No estudo de Stanford, porém, isso não foi uma questão: não se trata de querer se vacinar, mas sim de poder. Entre o grupo elegível para vacinação no País de Gales, metade compareceu para a injeção e metade não. Mas, no grupo inelegível (acima dos 80 anos), pode-se assumir que essas proporções seriam as mesmas, com a diferença de que nenhum deles de fato pôde se imunizar.

Possivelmente, existe algum mecanismo ainda desconhecido em que os vírus afetam o sistema nervoso que explicaria essa relação. E, se assim for, faz sentido que as vacinas ajudem a prevenir. Os pesquisadores elencaram alguns mecanismos que possam explicar o fenômeno, envolvendo a inflamação do sistema nervoso ou efeitos neurotóxicos da infecção viral, mas ainda permanecem hipóteses.

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Bater o martelo sobre esse efeito da vacina sobre Alzheimer e outras formas de demência, porém, é difícil. O ideal seria fazer ensaios clínicos grandes e controlados da vacina com pessoas que não têm demência, mas estudos do tipo são caros e difíceis de conduzir. Por isso, a nova pesquisa contou com o “trunfo” do experimento natural galês.

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Ainda há algumas questões em aberto. Por exemplo: o fator protetivo da vacina contra a demência foi muito maior em mulheres do que em homens, possivelmente por conta de diferenças entre os sistemas imunológicos dos dois sexos.

Além disso, a vacina usada no País de Gales na época, feita a partir do vírus atenuado, é de um modelo diferente da usada atualmente por vários países, que usa só pedacinhos do vírus. Não se sabe se ela também teria esse efeito protetivo contra a demência.

Estudos futuros, incluindo ensaios clínicos randomizados e controlados, ajudariam a entender essa questão e esclarecer a relação entre infecções virais e demência.

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