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Verdades à luz do sol

Entrevista com o chefe do setor de laser em Dermatologia do Hospital Albert Einstein, Mário Grinblat, em que fala sobre o bronzeamento e suas consequências para a pele.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h31 - Publicado em 30 nov 1991, 22h00

Lúcia Helena de Oliveira

Como chefe do setor de laser em Dermatologia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o médico Mário Grinblat, que já fez vários estágios no exterior, está acostumado a tratar todo tipo de problema de pele—da remoção de pequenas sardas a casos graves de tumores cutâneos. Considerado um dos maiores especialistas brasileiros, quando chega dezembro, diagnostica, o perfil de seus pacientes muda. Com a aproximação do verão, algumas pessoas buscam no consultório do dermatologista apenas conselhos sobre como se bronzear sem sofrer danos. O Brasil fecha este ano com a estatística de 50 000 casos de câncer de pele, aproximadamente.

Grinblat vive na própria pele o drama dos pacientes receosos: “Pessoas claras como eu, devem tomar alguns cuidados, especialmente depois de certa idade”, aconselha ele, aos 47 anos. Os quatro filhos adolescentes, muitas vezes, não ouvem o aviso—”acho que eles não se cuidam o bastante. A sorte é que não gostam muito de tomar sol”. No entanto, ele não receita uma vida na sombra. Se, durante todo o ano, o médico só aproveitou quatro vezes as praias do Guarujá, cidade do litoral paulista onde possui um apartamento, foi mesmo por falta de tempo. Nas raras oportunidades em que se bronzeou, porém, espalhou uma loção filtrante sobre o corpo para se proteger contra o excesso de radiação solar—hoje considerada a grande culpada pelo envelhecimento da pele. Contudo, na sua opinião, os filtros nunca oferecem proteção total.

SUPER O bronzeamento realmente pode ser perigoso?

GRINBLAT – Na minha área, nenhum outro assunto provoca tanta confusão. No Ocidente, a cor bronzeada tornou-se sinônimo de beleza e saúde. No entanto, nos últimos anos ficou claro que o preço de um bronzeamento descuidado são problemas de pele. Com isso, muita gente correu para o extremo oposto—ou seja, o sol passou a ser encarado como um grande inimigo. Eu, particularmente, sou contra os exageros. Na minha opinião, algumas pessoas trocaram o modismo da exposição exagerada ao sol pelo modismo de viver na sombra. E os modismos, como se sabe, não se baseiam no rigor da ciência.

SUPER Então, o senhor não considera recomendável fugir do sol?

GRINBLAT – Tomar sol com moderação não faz mal. A exposição aos raios solares ajuda, por exemplo, a fortalecer a estrutura óssea, prevenindo o raquitismo. Algumas doenças de pele até se beneficiam com a ação dos raios ultravioleta. A acne é o exemplo clássico, pois o sol ajuda a secar aquelas glândulas que despejam gordura em quantidades excessivas na pele. Muitas vezes, o sol contribui de maneira ainda um tanto misteriosa para os cientistas. É o caso da psoríase, doença em que a pessoa apresenta grandes manchas brancas na pele, onde não existe mais pigmentação celular. Até hoje, os pesquisadores discutem quais seriam as suas causas. Mas uma coisa é certa: os banhos de sol beneficiam o paciente de psoríase. Tanto assim que, freqüentemente, o tratamento da doença lança mão de remédios fotossensibilizantes, ou seja, drogas que aumentam a sensibilidade da pele à luz.

SUPER Neste ano, cerca de 50 000 brasileiros tiveram câncer de pele. O sol escaldante pode ser o grande responsável?

GRINBLAT – De fato, naquelas pessoas que têm alguma predisposição genética ao câncer de pele, o sol age como um catalisador da doença. Mas certos pontos precisam ser escla-recidos—e sobre isso pouca gente fala. Existem três tipos principais de câncer de pele. Os dois mais comuns, não há dúvida, nascem da exposição exagerada ao sol. Um deles, o de maior incidência, é o chamado carcinoma basocelular, que representa oito em cada dez casos dos tumores malignos de pele. Na verdade, esse tumor, com aparência de uma mancha áspera, nem merece ser chamado de câncer, pois jamais se espalha pelo corpo. Além disso, ele cresce em um ritmo muito lento. Você tem de esperar dois a cinco anos para observar uma alteração de tamanho em um tumor basocelular. Outro tipo de tumor é o chamado espinecelular, que pode surgir a partir de uma mancha provocada pelo sol. Este, reconheço, merece ser removido rapidamente, porque pode se difundir pelo corpo, ou seja, disparar a metástase. Mas, para ser franco, raramente um paciente morre por causa de um tumor espinocelular. Perigoso mesmo é o melanoma, um dos mais traiçoeiros tipos de câncer.

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Nenhum médico pode honestamente prever o futuro de uma vítima desse tumor, que cresce de uma maneira estranha, espalha-se rapidamente. Mas, nesses casos, não se pode condenar o sol.

SUPERO sol não está diretamente ligado ao aparecimento de melanomas?

GRINBLAT – Veja bem, o melanoma é uma mancha escura, que costuma crescer, muda de cor e costuma ter as bordas avermelhadas. Ela aparece com freqüência em áreas que não ficam muito expostas ao sol, como nas extremidades do corpo. Isso quando o tumor não surge naquelas regiões cobertas pela própria roupa de banho. Então, nenhum cientista pode afirmar que existe uma relação entre o sol e o melanoma, cujas causas ainda são um ponto de interrogação para os centros de pesquisas do mundo inteiro. As pessoas acusam o sol por problemas em que não se provou a sua culpa, enquanto fecham os olhos para os verdadeiros riscos do bronzeamento.

SUPERQuais os malefícios de tomar sol?

GRINBLAT – É evidente que o sol é o maior responsável pelo envelhecimento da pele, independente de fatores genéticos. Se pudéssemos acompanhar duas gêmeas, uma que passou a vida se bronzeando e outra que nunca dispensou filtros colares, sem dúvida a segunda teria muito menos rugas, ao longo dos anos, em comparação com a irmã.

SUPERComo o sol provoca o envelhecimento?

GRINBLAT – Hoje estão claros esses mecanismos de ação. Em primeiro lugar, os raios solares diminuem a espessura da epiderme, a camada mais externa da pele, um fenômeno que já costuma acontecer com a idade. Além disso, o sol destrói as fibras de sustentação cutânea, localizadas em camadas um pouco mais profundas. É o que se chama elastose solar — a pele vai perdendo a elasticidade e aparecem as rugas. Um raio solar, muitas vezes, pode atingir a célula como um tiro de espingarda, que provoca o derramento das moléculas de melanina que recheiam o seu interior. Essas moléculas, como se sabe, são pigmentos e, com isso, o que se vê no espelho, depois do derrame, são sardas e manchas. Contudo, a ação mais importante é a dos raios ultravioleta sobre o núcleo das células. Quando a radiação modifica as moléculas de DNA, onde estão gravadas todas as nossas características, pode surgir uma predisposição ao câncer.

SUPERComo evitar os riscos do bronzeamento excessivo?

GRINBLAT – É uma velha lição. O ideal é tomar sol entre 7 e I0 horas da manhã ou após as 15 horas, quando a maior parte da radiação solar é composta por ondas longas, Às chamadas UVA, as únicas capazes de estimular a produção de melanina. Esse pigmento, que dá o tom bronzeado à pele, serve como um protetor para os raios mais nocivos. Infelizmente você não encontra quase ninguém na praia ou na piscina nesses horários. As pessoas preferem se bronzear por volta do meio – dia, quando a radiação ultravioleta é muito forte e, ainda por cima, existe uma grande quantidade de raios infravermelhos. Esses raios não bronzeiam, sé queimam a pele.

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Apesar de tomarem sol na hora errada, ao menos as pessoas mudaram de comportamento. Há uma década era comum o consumo de óleos bronzeadores, produtos que aceleravam o processo das queimaduras solares e tingiam a pele, graças a componentes como sementes de urucum, muito usadas pelos índios. Hoje, as pessoas preferem os chamados filtros solares, protetores que se transformaram até em um símbolo de status. Muita gente gosta de esnobar que comprou um filtro com fator de proteção 50, por exemplo, durante uma viagem ao exterior. No Brasil, os mais fortes têm fator de proteção 35. Nos Estados Unidos se fabricam filtros com fatores de proteção até 100.

SUPERComo agem esses filtros solares?

GRINBLAT – Existem dois caminhos. Alguns filtros formam uma barreira física, impenetrável aos raios selares. É um produto químico que tem a mesma ação de um pedaço de tecido sobre o corpo – não se queimam as áreas cobertas de tecido obre o corpo – não se queimam as áreas cobertas por um biquíni, por exemplo. Outras fórmulas, mais complexas. agem quimicamente, interrompendo as reações no interior das células. disparadas pela radiação solar. Uma pessoa que precisa ficar quinze minutos ao sol para ficar tostada usando um filtro com fator de proteção 4, levaria uma hora para ficar queimada da mesma maneira: se passasse na pele um produto com fator de proteção 15 seriam necessárias quase quatro horas de sol para deixá-la vermelha, ou seja, aqueles 15 minutos—o limite da pele sem filtro — vezes 15 do fator de proteção.

SUPERQuanto maior o fator de proteção, mais eficiente é o filtro?

GRINBLAT – Esse é um mito que precisa ser derrubado. Os cientistas sabem que depois do fator de proteção 15 não há praticamente diferença. Um filtro solar com fator de proteção 30 é só um pouco mais eficiente do que um filtro com fator 15. Além disso, estudos recentes mostraram evidências de que aqueles bloqueadores solares super potentes, com fator de proteção superior a 60, aumentariam os riscos de câncer. O tiro, então, sairia pela culatra. Além disso, não se pode esquecer que nenhum filtro solar é totalmente eficiente. Sessenta por cento da proteção dada pelos bens filtros é para os raios UVB, radiação de ondas médias do sol, e 40% é para a radiação de ondas longas ou UVA. Diante desses números, conclui-se que nenhuma proteção é completa.

SUPEREsses filtros saem com a água?

GRINBLAT – Alguns bons produtos prometem resistir a banhos no mar ou na piscina. Mas infelizmente – Eu assino o que digo – os produtos nacionais ainda não conseguem esse resultado. O segredo de não sair na água deve estar no veículo, o caldo onde são misturados os chamados principias ativos da fórmula, que no caso são as substancias filtrantes; Nenhum veículo fabricado no Brasil se mantém na água por muito tempo. Por precaução, as pessoas devem reaplicar o produto depois de mergulhos prolongados.

SUPER A melhorreceita para se proteger do sol, então, seria combinara radiação das primeiras horas da manhã com o uso de filtros?

GRINBLAT – É o ideal, mas poucos resistem ao sol do meio-dia. Ainda assim, é melhor que nunca se dispense o filtro solar. Aliás, pessoas de pele clara—inegavelmente mais sensíveis à radiação—deveriam usar filtros solares no dia-a-dia. Não faz sentido se proteger quando se vai à praia ou à montanha e esquecer o sol nosso de todos os dias. Esse ataque diário e constante, em um pais ensolarado como o nosso, é talvez o maior responsável pelo envelhecimento. Até em países de clima mais ameno, na Europa, encontram-se produtos de maquilagem para a mulher com filtros selares na formulação; para os homens, os filtros podem se apresentar em soluções não-gordurosas, já que a pele masculina possui mais glândulas sebáceas do que a feminina. Eu mesmo uso um filtro nos dias de verão.

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SUPERRecentemente, surgiram produtos que prometem preparar a pele para uma temporada tomando sol.

Como eles agiriam?

GRINBLAT – Os pré-bronzeadores são uma novidade relativamente recente. Eles costumam ser à base de tirosina um aminoácido incolor, que a pele usa como matéria-prima para fabricar as moléculas de melanina. Em geral, a formação de pigmentos é muito lenta, especialmente nas peles claras, que demoram para se bronzear. Fornecendo tirosina às células, na fórmula de um creme pré-bronzeador, é como se você estivesse adiantando um serviço e formando uma espécie de estoque de melaninas semiprontas. Com isso, a pessoa se bronzeia mais rápido e, uma vez bronzeada, o escudo da melanina evita as queimaduras.

SUPERNa sua opinião, qual será o próximo grande avanço na prevenção de problemas de pele?

GRINBLAT – A grande meta dos dermatologistas, hoje em dia, é conseguir sintetizar melanina artificial. Esse pigmento da pele ainda é o melhor filtro conhecido. Quando os cientistas conseguirem fabricá-lo, será o fim de todos os problemas provocados pelo sol. A Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, anunciou no inicio deste ano a síntese de um hormônio que estimula a produção natural da melanina. Os resultados práticos disso podem levar alguns anos, mas já foi um importante primeiro passo.

Para saber mais:

Tudo beleza. A ciência dos cosméticos

(SUPER número 1, ano 11)

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