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Vitória a qualquer custo

A competitividade crescente tem transformado em piada o lema do criador das Olimpíadas modernas, o barão de Coubertin, para quem o importante era

Por 31 jul 2000, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h09
  • Eduardo Azevedo

    Todo mundo sabe que, numa Olimpíada, o importante não é vencer, e sim participar. Sim, Papai Noel existe, o Coelho da Páscoa também e os políticos corruptos são uma exceção. Só um ingênuo como o barão de Coubertin (1863-1937), em cuja boca se popularizou a frase que abre este texto, poderia ter uma idéia tão romântica quanto a de ressuscitar, na Era Moderna, as competições atléticas da antiga Grécia (veja o quadro na página 26). O aristocrata francês defendia o ideal do amadorismo e acreditava que os povos europeus, na época em pé de guerra, poderiam trocar os campos de batalha pelas quadras de esportes. No início, o amadorismo até que era sincero. Participaram da primeira Olimpíada moderna carpinteiros, agricultores e até um pastor de ovelhas, o grego Spiridon Louis, vencedor da maratona. Não havia medalhas. Entre as recompensas pela façanha, Louis ganhou o direito de cortar o cabelo de graça até o fim da vida. O regulamento de Atenas-1896 só permitia atletas homens e brancos. As mulheres estrearam somente em 1900, em Paris.

    Desorganizados, os Jogos mais pareciam um circo. Em 1904, na Olimpíada de Saint Louis, os americanos chegaram a organizar uns tais “dias antropológicos”, em que tipos “exóticos”, como africanos, índios e pigmeus, eram recrutados para correr, nadar e pular. Londres-1908 marcou o início dos Jogos como um evento cuidadosamente planejado – sua organização ficou a cargo da realeza britânica. Em Estocolmo-12 surgiu o primeiro superatleta, o americano Jim Thorpe, ganhador do ouro no pentatlo e no decatlo. Um ano depois, Thorpe caiu em desgraça. O COI (Comitê Olímpico Internacional) cassou suas medalhas, acusando-o de profissionalismo. É que, quando era estudante, ele recebia 25 dólares por semana para competir por sua cidade, violando assim os ideais olímpicos.

    A política entra em campo

    Se na Grécia Antiga as guerras eram suspensas por causa dos Jogos, na Era Moderna aconteceria o contrário. Em 1916, durante a I Guerra Mundial, não houve Olimpíada – fato que se repetiria duas vezes na II Guerra. Em 1920, em Antuérpia, o Brasil mandou sua primeira delegação, ganhando o ouro no tiro, com Guilherme Paraense, um tenente do Exército. Paris-1924 marcou o surgimento, ao redor dos estádios, das primeiras lojinhas vendendo bugigangas com a marca dos Jogos. Era o início das Olimpíadas como mercadoria. Nas piscinas, o destaque era o americano Johnny Weissmuller, que depois se tornaria astro do cinema no papel de Tarzan. Em Amsterdã-28, as mulheres deram um salto estatístico na sua participação nos Jogos – 290 atletas (10% do total) contra 136 na edição anterior. Los Angeles-32 entrou para a História como uma Olimpíada melancólica, realizada sob o baixo-astral da Grande Depressão, que se seguiu ao crack da bolsa de Nova York, em 1929.

    Berlim-36 assinalou definitivamente o uso do esporte como instrumento de propaganda política e racial. Hitler montou uma megafesta para comemorar a supremacia da raça ariana. As atenções estavam voltadas para o atletismo, modalidade escolhida pelos alemães para esmagar os adversários “naturalmente inferiores”. Mas o ditador se esqueceu de um detalhe: o negro Jesse Owens. Esse americano viria a calar os 110 000 adeptos do nazismo que assistiam às provas no Estádio Olímpico. Owens conquistou quatro medalhas de ouro (100 e 200 m rasos, revezamento 4 x 100 m e salto em distância) e Hitler, enfurecido, retirou-se do estádio para não ser obrigado a entregar-lhe a medalha.

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    Doze anos depois, em 1948, Londres foi novamente sede dos Jogos, com o Velho Mundo em frangalhos por causa da II Guerra. A Alemanha e o Japão, países “agressores”, foram excluídos. Em Helsinque-52 despontou o brasileiro Adhemar Ferreira da Silva, ouro no salto triplo. Melbourne-56 consagraria esse filho de ferroviário e lavadeira como o maior atleta olímpico brasileiro até agora, com duas medalhas de ouro.

     

    O esporte vira megashow

    Roma-60 assinalou a estréia da TV ao vivo. Telespectadores de dezenove países europeus viram as provas sem sair de casa e puderam aplaudir o etíope Abebe Bikila, que venceu a maratona correndo descalço. Daí em diante, os africanos conquistariam cada vez mais lugares no pódio. Quatro anos mais tarde, em Tóquio, as inovações tecnológicas dos japoneses permitiram que americanos, canadenses e asiáticos assistissem também aos Jogos, transmitdos via satélite. Em 1968, no México, a política – até então restrita aos governos e à cartolagem – invadiu a quadra com um dos mais famosos atos de protesto contra o racismo. Os atletas negros americanos John Carlos e Tommie Smith, ganhadores do ouro (Smith) e do bronze (Carlos) nos 200 m rasos, ao receber as medalhas levantaram o punho cerrado, com luva preta. O gesto era a marca dos Panteras Negras, um grupo famoso pelas posições radicais.

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    Definitivamente, as Olimpíadas deixaram de ser apenas uma competição esportiva para se tornar uma vitrine para a qual a humanidade volta o olhar a cada quatro anos. Em Munique-72, terroristas palestinos do grupo Setembro Negro chocaram o mundo ao matar dois atletas israelenses e tomar outros nove como reféns. Em troca, exigiam a libertação de 234 presos políticos. O presidente do COI, Avery Brundage, decidiu manter os Jogos e, assim, foi possível ver o americano Mark Spitz ganhar sete medalhas de ouro e bater sete recordes mundiais na natação – uma proeza até hoje nunca igualada.

    Montreal-76 foi a primeira Olimpíada a coroar de forma unânime uma mulher. Ou melhor, uma menina, Nadia Comaneci, de 14 anos. Dona de uma técnica perfeita, a romena mudou os rumos da ginástica olímpica ao derrotar todas as estrelas da época. Nadia foi também a primeira atleta da modalidade a conseguir a nota 10, um desempenho que confundiu até o placar eletrônico, que só atingia 9,99.

    Na década de 80, auge da Guerra Fria, os Jogos viraram uma arena na disputa ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. As duas superpotências disputavam o primeiro lugar como se a contagem das medalhas fosse a prova da superioridade do capitalismo ou do comunismo. Em 1980, os Jogos estavam programados para Moscou. Temendo serem ridicularizados na casa do adversário, os EUA boicotaram a competição. Em 1984, os soviéticos deram o troco boicotando a Olimpíada de Los Angeles.

    Em Seul-88, as duas superpotências voltaram a se enfrentar. A URSS levou a melhor, com 55 medalhas de ouro, enquanto os EUA ficaram num incômodo terceiro lugar, com 36 ouros, um a menos do que a Alemanha Oriental. Com o fim do bloco comunista a partir de 1989 (uma prova de que esporte não é documento), as Olimpíadas mergulharam na era do show business. Mais do que nunca, o esporte se tornou um negócio e o atleta, um produto que vale milhões. Em Barcelona-92, a tecnologia deu o tom e o profissionalismo tirou a máscara com o Dream Team, o time dos sonhos do basquete americano. Em Atlanta-96 esperava-se uma festa de vitoriosos. Os EUA, única superpotência mundial, celebrariam em casa o triunfo do capitalismo. Mas uma bomba, num parque de diversões cheio de gente, matou duas pessoas e feriu 111, manchando os Jogos.

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    Em Sydney, pela primeira vez, a competição não será só entre países e entre indivíduos, mas também entre as grandes empresas fabricantes de produtos esportivos, como a Adidas, a Nike e a Speedo. Uma medalha de ouro agora representa, acima de tudo, um triunfo de marketing. Vencer nunca foi tão importante. Na Olimpíada high-tech, não há lugar para ingênuos.

    Pelados e sanguinolentos

    Quando pensamos nos atletas olímpicos da antiga Grécia, logo aparece a imagem de um homem louro, de cabelos encaracolados, vestindo um impecável saiote branco e lançando calmamente um disco a distância. Bem, digamos que não fosse exatamente assim. Os competidores, em sua maioria, eram brutalhões mal- encarados, sedentos de sangue. Para piorar, competiam pelados. O esporte que fazia sucesso era a luta, que se resumia a dois marmanjos nus, sangrando e se batendo até perderem a consciência, incentivados pelos berros de uma multidão.

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    Calcula-se que os Jogos da Antiguidade surgiram na Grécia há 3 500 anos, mas somente a partir de 776 a.C. eles cresceram em importância. Eram eventos organizados pelas cidades-Estado e recebiam seus respectivos nomes. As Olimpíadas, por exemplo, eram os Jogos de Olímpia, com eventos parecidos em Corinto, Delfos e Alexandria. Promovidas em homenagem a Zeus, as Olimpíadas tornaram-se as mais famosas competições do gênero.

    Muitas das modalidades modernas, como as corridas, o salto em distância e o arremesso de dardo, já eram disputadas na época. Completavam o cardápio esportes como o pancrácio, ancestral do boxe, a corrida de cavalos e a competição de trombetas – ganhava quem soprava mais forte.

    Depois que a Grécia foi conquistada por Roma, os Jogos mudaram. Para os romanos, valia o show. Os espetáculos eram grandiosos e selvagens, com o sacrifício de homens e de animais para o deleite do povão. No ano 393 d.C. o imperador Teodósio I decidiu proibir todos os rituais pagãos como prova de sua adesão ao cristianismo. Os Jogos só ressurgiriam dezesseis séculos depois.

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