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Extremismo: o buraco negro da educação

A marca da ala olavista do governo é a reduzir toda a política ao combate a inimigos. E o resultado disso é um vácuo imenso, principalmente na educação

Há muito o que debater sobre o desempenho do governo em uma série de áreas: privatizações e concessões na infraestrutura, a promessa do Ministério da Economia de redução do Estado, a agenda anticorrupção de Sérgio Moro, as vantagens do alinhamento com os EUA. Ainda é cedo para dar vereditos sobre tudo isso. Em uma área importante, contudo, é preciso reconhecer um fracasso imperdoável: na educação.

No que depende do governo federal, a educação brasileira parou. Nos três meses em que a pasta foi tocada pelo ex-ministro Ricardo Vélez Rodrígues, nada foi feito. E o pouco que se tentou veio eivado de tantos equívocos e pontos questionáveis que teve que ser retirado quase imediatamente. Podemos nos lembrar do edital para livros didáticos com omissões gritantes (esta, uma culpa partilhada com o governo anterior); da circular para escolas que pedia que se filmassem os alunos e se recitasse para elas o slogan do governo; ou ainda a decisão (felizmente também revogada) de não se avaliar a alfabetização de crianças.

O ex-ministro era um intelectual sem nenhuma familiaridade com gestão pública e com os desafios da educação no Brasil. E foi parar no ministério mais importante do País não graças a qualquer contribuição, mas por ter sido indicado por Olavo de Carvalho e – supõe-se – por seguidores do filósofo próximos ao presidente (o assessor internacional Filipe Martins e os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro). Junto com o Ministério das Relações Exteriores, o MEC ficou nas mãos da chamada “ala ideológica” (ou “olavista”) do governo e reflete seus valores e preocupações.

A marca da ala olavista é a redução de toda a política à perseguição e combate a inimigos. O globalismo da ONU, o comunismo dos professores, o marxismo cultural das ONGs, o positivismo dos militares; estamos nas mãos de ideologias nefastas a serviço de grupos poderosos e malignos. Vencendo essa guerra política e cultural, aí sim o Brasil caminhará direito.

Assim, no curto reinado de Vélez, à inépcia administrativa somou-se um discurso altamente persecutório. Na visão do ex-ministro e de seus assessores olavistas, o grande mal da educação brasileira é o conteúdo ideológico esquerdista que professores tentam passar aos alunos. As escolas e faculdades (especialmente de Humanas) nada mais são do que fábricas de militância comunista e antros de corrupção.

Os alvos dos olavistas são justamente as fontes possíveis de informação objetiva: o jornalismo profissional e a academia.

O novo MEC nada teve a dizer sobre reformular a carreira de docentes, sobre as maneiras de se financiar a educação básica no Brasil (o Fundeb vence em 2020), ou implementar a educação na primeira infância. Na falta de propostas positivas, sobra o ideal de fazer uma limpeza ética e ideológica na educação brasileira. Vélez chegou a anunciar uma Lava Jato da educação (provavelmente para investigar fraudes no FIES); mas a ideia, como todo o resto de sua gestão, não deu em nada. O mais trágico é que era fácil para o governo ter trilhado outro caminho.

Havia pessoas altamente capacitadas (ligadas, por exemplo, ao Instituto Ayrton Senna, ao Todos pela Educação ou mesmo aos governos Temer e Fernando Henrique), dispostas a trabalhar com o novo governo e críticas ao legado petista na educação. Bolsonaro não estaria cedendo nada à esquerda, ou a quem quer que seja.  Estaria apenas fazendo uma escolha técnica. Preferiu, contudo, a escolha ideológica.

Mais do mesmo?

O novo ministro, Abraham Weintraub, é oriundo do mercado financeiro, e não consta que tenha qualquer familiaridade com gestão pública e com a educação brasileira. Ainda é cedo para avaliá-lo, mas ele foi apoiado pela ala olavista do governo e, segundo o próprio Olavo, é um conhecedor de suas ideias. Por enquanto, parece que se alinhará à mesma agenda ideológica que arrisca deixar nossa educação completamente à deriva, sem nenhum projeto.

A ausência de projeto, porém, não deixa de ser um projeto. E esse talvez seja o objetivo da ala olavista. Para ela, não interessa ter uma população instruída e capaz de pensar por si mesma. Seu maior ativo é conseguir mobilizar a militância bolsonarista disposta a atacar inimigos. Cidadãos ponderados e imparciais não contribuem para esse fim.

Por isso, os grandes alvos da militância são justamente as fontes possíveis de informação objetiva: o jornalismo profissional e a academia. No lugar deles, promovem a propaganda explícita com a justificativa de que todo mundo tem lado. Assim, o mesmo governo que faz pouco das Humanidades e condena a suposta doutrinação das universidades empurra para a opinião pública chavões como “o nazismo é de esquerda” e que não houve golpe em 1964. Se tudo são narrativas, por que não essas?

Um ponto é preciso conceder ao discurso da militância bolsonarista: ele está antenado ao espírito do tempo. Responde à polarização e à demanda por alinhamento incondicional a algum projeto de poder.

Ou você é adepto do Lula Livre e “sabe” que a Justiça e a mídia estão a serviço de uma agenda perversa neoliberal, ou você é adepto do bolsonarismo e “sabe” que o STF, o Congresso, a mídia e as universidades estão a serviço do comunismo petista.

Qualquer tentativa de analisar os fatos sem aderir integralmente aos interesses de um dos lados coloca o indivíduo na categoria de “isentão”; um ingênuo que ainda não se decidiu entre o bem e o mal.

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Vivemos um ecossistema da polarização, em que o extremismo é uma estratégia de sobrevivência. Para o usuário de redes sociais, ser visto como implacável no combate ao inimigo rende mais curtidas e reputação entre os pares. Para o veículo de imprensa, ter um lado claro é garantia de público cativo. Para o político, mais chance de ser lembrado nas urnas. Para o governo, insuflar o clima polarizado é um jeito de dobrar as instituições aos seus interesses.

Quando a política se reduz a uma guerra pelo poder entre inimigos, o valor da democracia se esvai. Se a verdade objetiva é substituída pela politização do discurso, quem perde é a liberdade de pensamento. O vazio do MEC, no fim das contas, reflete a lógica de polarização em que o governo tem apostado. Uma aposta que coloca em jogo o futuro do País.