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Guerra na Síria está criando uma geração com problemas mentais

Relatório aponta que uma em cada quatro crianças sírias corre risco de desenvolver distúrbios psicológicos

Por Pâmela Carbonari Atualizado em 20 mar 2017, 19h18 - Publicado em 20 mar 2017, 17h28

Há 6 anos, crianças sírias convivem com uma guerra intermitente. Viram bombas, tiros e a morte diante dos próprios olhos. Perderam familiares, amigos, casa e escola. Assistiram suas cidades serem destruídas e a vida como conheciam imergir em escombros. A brutalidade do conflito não respeita classificação indicativa e, não à toa, já é possível notar os reflexos da violência na saúde das crianças sírias: uma geração traumatizada vive uma crise de saúde mental.

A organização inglesa Save the Children realizou desde o início da guerra, em 2011, uma grande pesquisa com 450 crianças, pais, professores e psicólogos em sete regiões sírias e alerta que milhões de crianças estão vivendo em estado de “estresse tóxico”. O relatório Invisible Wounds (Feridas Invisíveis, em tradução livre), divulgado no início do mês, estima que três milhões de crianças sírias com menos de seis anos tenham vivido toda a sua vida em zona de guerra, e que mais de dois milhões de crianças tenham sido obrigados a deixar o país como refugiados.

A pesquisa também frisa que o constante estado de medo vivido pelos pequenos pode ser maléfico para o desenvolvimento do cérebro deles – e irreversível: uma a cada quatro crianças corre o risco de desenvolver distúrbios psicológicos. A especialista em saúde mental Marcia Brophy afirma no relatório que esse estado de estresse traumático poderia resultar em uma geração inteira de crianças com distúrbios mentais e propensas a vícios na vida adulta. Se o estresse tóxico não for tratado corretamente, pode aumentar o risco de suicídio, depressão, doenças cardíacas e diabetes a longo prazo.

Ao longo do estudo, muitos entrevistados de até 12 anos demonstraram aumento nas autoagressões e nas tentativas de suicídio. Metade dos adultos contam ter visto crianças perderem habilidades de comunicação, como a capacidade de falar, e 59% conhecem crianças ou adolescentes que entraram em grupos armados.

Outras crianças reportaram estar passando por problemas para dormir, com medo de nunca mais acordarem ou tendo pesadelos violentos – 71% estão fazendo xixi na cama, sintoma comum em pacientes com estresse traumático.

A pesquisa também revelou que dois terços das crianças ouvidas pela organização perderam alguém querido no conflito, sofreram ferimentos ou tiveram suas casas bombardeadas. Metade dos entrevistados contam sentir tristeza e angústia extrema sempre ou durante a maior parte do tempo – sendo que 51% está usando algum tipo de droga para aplacar os efeitos do estresse.

Outro fator que corrobora na preocupação com a saúde mental dos jovens é a falta de escolas: diariamente, em média duas escolas são atacadas na Síria. Levando em consideração que a guerra persiste no país há anos, sobram poucas instituições de ensino. No ano passado, a Unicef divulgou um relatório em que afirmava que apenas metade das crianças tinham acesso à educação e que 80% dos refugiados não frequentavam a escola.

A Save The Children estima que uma em cada três escolas tenham sido desocupadas no país. Sendo assim, o acesso a acompanhamento da saúde mental das crianças é inexistente ou muito limitado.

“O risco de uma geração ferida, perdida para o trauma e o estresse extremo nunca foi tão grande”, alerta Marcia Brophy.

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