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Guia SUPER da Ursal

O país mais carinhoso das eleições seria uma potência do gado e do petróleo – e produziria toda a cocaína do mundo. Conheça esta distopia cabo-dacioliana.

Na boca de Cabo Daciolo, o folclórico candidato à presidência do partido Patriota, a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) parecia a mais nova distopia panamericana da esquerda brasileira. O negócio é que esse projeto geopolítico ambicioso é uma fake news muito mais antiga: data de 2001, quando a socióloga Maria Lucia Victor Barbosa, crítica do PT, cunhou a sigla jocosa para alfinetar uma reunião do Foro de São Paulo. A história foi desenterrada hoje em uma reportagem genial da Folha.

Revisando: o Foro de São Paulo, fundado em 1990, organiza reuniões periódicas com líderes de partidos de esquerda de toda a América Latina. Em 2001, durante uma dessas conferências, o ex-presidente Lula fez um discurso veemente contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) – uma proposta de Bill Clinton, então presidente dos EUA, que previa derrubar as barreiras comerciais entre 34 países das três Américas.

A direita, favorável à Alca, naturalmente criticou o discurso de Lula. E a socióloga, comentando o assunto em um artigo publicado na internet na época, inventou um nome de brincadeira para a associação que os países latinos fariam para combater os EUA: Ursal. O problema é que a tiradinha inocente saiu de controle e foi parar na boca do filósofo e guru conservador Olavo de Carvalho – que achou que era sério. Depois dele, todo mundo acreditou. Inclusive Daciolo, que 17 anos depois tentou jogar Ciro Gomes na parede com a acusação. 

Seja você da posição política que for, vale a pena saber mais sobre o desempenho socioeconômico da Ursal. Sente só.

1. Sucesso acadêmico?

Graças à hipotética união, acabaria a seca de Nobel no Brasil. Se nós, os hermanos e todo o resto fôssemos um país só, teríamos em nossa conta 20 láureas: 7 de literatura, 6 da paz, 3 de medicina, 2 de química, 2 de economia e nenhuma de física. Para fins de comparação, Itália, Holanda e Áustria têm, sozinhos, esse número. Curiosamente, nenhum dos premiados teria saído da melhor faculdade da Ursal, a Universidade de Campinas (consideramos o ranking da edição de 2018 da Times Higher Education).

Não precisaríamos mais amargar, por exemplo, o Nobel de literatura do guatemalteco Miguel Asturias, em 1967 (naquele ano, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado estavam na lista de indicados). Mas ainda ficaria a questão: será que Peter Medawar, o fluminense premiado em medicina, entraria para a conta oficial da Ursal? Provavelmente sim: afinal, quem reivindica o dito cujo é o Reino Unido, e isso certamente seria encarado como uma provocação imperialista.

2. Vida de gado

O mundo tem 7,6 bilhões de seres humanos para 1 bilhão de cabeças de gado. O Brasil contribui com mais de um quinto disso: eram 218 milhões de bois e vacas em 2016, o que dá mais de um mamífero ruminante para cada um de nossos 208 milhões de habitantes. O pequeno Uruguai é pasto de 11 milhões de zebus e afins – pouco, perto de nós, mas para um país com território menor que o do Rio Grande do Sul, é um número inacreditável.

Ponha a Argentina nessa conta e temos uma Ursal notavelmente carnívora: são no mínimo 282 milhões de cabeças de gado. O aquecimento global não agradece esse churrasco abundante. Afinal, vacas soltam pum. Tanto pum que o metano emitido é responsável por 18% do efeito estufa.

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3. ¿Plata o plomo?

Não haveria tráfico internacional de cocaína na Ursal. Toda a produção mundial do pó branco estaria dentro das nossas fronteiras, um oferecimento das repúblicas da Colômbia, da Bolívia e do Peru. Se toda essa droga fosse exclusivamente para o comércio exterior (os países capitalistas que se explodam, a gente vende o que quiser) teríamos algo entre US$ 100 bilhões e US$ 500 bilhões a mais no PIB. Na melhor das hipóteses, uma Argentina extra.

4. O petróleo é muito nosso

A crise na Venezuela obviamente não beneficiou essa estatística: a ex-maior produtora de petróleo da América Latina, segundos os dados mais recentes, dá conta de apenas 1,97 milhão de barris por dia – 2,02% do total mundial. É menos do que o Brasil, que emplaca 2,74 milhões de barris diários (2,81%), ou que o México, com seus 2,23 milhões de barris (2,29%). Juntos – mais um chorinho de 1,1 milhão fornecido pela dupla Equador e Argentina – essas “republiquetas”-chave da Ursal seriam responsáveis por 8,2% da produção mundial (menos que EUA, Rússia ou Arábia Saudita sozinhos).

O problema é todo aproveitar o potencial: a Venezuela guarda ridículos 301 bilhões de barris de petróleo em suas reservas naturais – mais que os 266 bilhões da Arábia Saudita. Ponha os 20 bilhões de barris de México e Brasil nessa conta e a Ursal se torna, com tranquilidade, o maior chafariz de gasolina do planeta – basta um bom, velho e planificado plano quinquenal.

5. O resto é café com leite

Suárez, Messi, Neymar, James Rodríguez… Para não falar no gol, em que poderiam se revezar Navas e Ochoa – a SUPER discorda desse aspecto da escalação no tweet abaixo. A URSAL não só teria 9 Copas do Mundo no currículo como seria imbatível em quase qualquer hipótese (principalmente considerando que um certo craque brasileiro e outro certo craque argentino poderiam se contagiar com o clima de união socialista e finalmente jogar pela seleção o tanto que jogam por seus clubes).

 

Comentários

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  1. Sidnei Carneiro

    Kkkk seríamos grandes então

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  2. André de Souza

    Quem, em sã consciência, pode levar à sério as bobagens que o tal de cabo Daciolo fala? Aliás, gostaria de saber o que ele tá fazendo na disputa eleitoral para a presidência da República. Sua candidatura é, certamente, mais um golpe que os partidos políticos nanicos dão em época de eleição para abocanhar a “bufunfa” da famigerada verba eleitoral. De quatro em quatro anos eles aparecem pra levar uma grana. Alguns representantes – e, praticamente, proprietários – destes partidos já se tornaram famosos: José Maria Eymael, Levy Fidelix etc. Uma vergonha descarada!

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  3. Nilson Rodrigues

    Virou piadas e memes. Mas foi sim um sonho megalomaníaco do 9 dedos em conluio com o barbicha de Havana. Por ora, sonho sem perspectiva de realização. Mas o alerta do Cabo Daciolo não é para deboche. O Foro de São Paulo continua pulsando e muito vivo.

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  4. Nilson Rodrigues

    Aliás, somente para lembrar: a posse de Lula em 1º de janeiro de 2003, há 15 anos, foi comemorada numa noitada com Fidel na embaixada de Cuba em Brasília. Houve toda aquela magnifica cerimônia, com Dragões da Independência, o povo efusivo no Eixo Monumental em Brasília, subida de rampa com FHC passando a faixa. Passado o que o povo pode ver, Lula seguiu para a Embaixada Cubana para a verdadeira festa. Essa ninguém viu. Foi apenas noticiada como algo naturalíssimo. Imaginem FHC, em sua posse em 1995, festejasse na embaixada dos EUA? Mas Lula tudo sempre pode.

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