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Guia SUPER da Ursal

O país mais carinhoso das eleições seria uma potência do gado e do petróleo – e produziria toda a cocaína do mundo. Conheça esta distopia cabo-dacioliana.

Por Bruno Vaiano - Atualizado em 13 ago 2018, 20h59 - Publicado em 13 ago 2018, 19h17

Na boca de Cabo Daciolo, o folclórico candidato à presidência do partido Patriota, a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) parecia a mais nova distopia panamericana da esquerda brasileira. O negócio é que esse projeto geopolítico ambicioso é uma fake news muito mais antiga: data de 2001, quando a socióloga Maria Lucia Victor Barbosa, crítica do PT, cunhou a sigla jocosa para alfinetar uma reunião do Foro de São Paulo. A história foi desenterrada hoje em uma reportagem genial da Folha.

Revisando: o Foro de São Paulo, fundado em 1990, organiza reuniões periódicas com líderes de partidos de esquerda de toda a América Latina. Em 2001, durante uma dessas conferências, o ex-presidente Lula fez um discurso veemente contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) – uma proposta de Bill Clinton, então presidente dos EUA, que previa derrubar as barreiras comerciais entre 34 países das três Américas.

A direita, favorável à Alca, naturalmente criticou o discurso de Lula. E a socióloga, comentando o assunto em um artigo publicado na internet na época, inventou um nome de brincadeira para a associação que os países latinos fariam para combater os EUA: Ursal. O problema é que a tiradinha inocente saiu de controle e foi parar na boca do filósofo e guru conservador Olavo de Carvalho – que achou que era sério. Depois dele, todo mundo acreditou. Inclusive Daciolo, que 17 anos depois tentou jogar Ciro Gomes na parede com a acusação. 

Seja você da posição política que for, vale a pena saber mais sobre o desempenho socioeconômico da Ursal. Sente só.

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1. Sucesso acadêmico?

Graças à hipotética união, acabaria a seca de Nobel no Brasil. Se nós, os hermanos e todo o resto fôssemos um país só, teríamos em nossa conta 20 láureas: 7 de literatura, 6 da paz, 3 de medicina, 2 de química, 2 de economia e nenhuma de física. Para fins de comparação, Itália, Holanda e Áustria têm, sozinhos, esse número. Curiosamente, nenhum dos premiados teria saído da melhor faculdade da Ursal, a Universidade de Campinas (consideramos o ranking da edição de 2018 da Times Higher Education).

Não precisaríamos mais amargar, por exemplo, o Nobel de literatura do guatemalteco Miguel Asturias, em 1967 (naquele ano, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado estavam na lista de indicados). Mas ainda ficaria a questão: será que Peter Medawar, o fluminense premiado em medicina, entraria para a conta oficial da Ursal? Provavelmente sim: afinal, quem reivindica o dito cujo é o Reino Unido, e isso certamente seria encarado como uma provocação imperialista.

2. Vida de gado

O mundo tem 7,6 bilhões de seres humanos para 1 bilhão de cabeças de gado. O Brasil contribui com mais de um quinto disso: eram 218 milhões de bois e vacas em 2016, o que dá mais de um mamífero ruminante para cada um de nossos 208 milhões de habitantes. O pequeno Uruguai é pasto de 11 milhões de zebus e afins – pouco, perto de nós, mas para um país com território menor que o do Rio Grande do Sul, é um número inacreditável.

Ponha a Argentina nessa conta e temos uma Ursal notavelmente carnívora: são no mínimo 282 milhões de cabeças de gado. O aquecimento global não agradece esse churrasco abundante. Afinal, vacas soltam pum. Tanto pum que o metano emitido é responsável por 18% do efeito estufa.

3. ¿Plata o plomo?

Não haveria tráfico internacional de cocaína na Ursal. Toda a produção mundial do pó branco estaria dentro das nossas fronteiras, um oferecimento das repúblicas da Colômbia, da Bolívia e do Peru. Se toda essa droga fosse exclusivamente para o comércio exterior (os países capitalistas que se explodam, a gente vende o que quiser) teríamos algo entre US$ 100 bilhões e US$ 500 bilhões a mais no PIB. Na melhor das hipóteses, uma Argentina extra.

4. O petróleo é muito nosso

A crise na Venezuela obviamente não beneficiou essa estatística: a ex-maior produtora de petróleo da América Latina, segundos os dados mais recentes, dá conta de apenas 1,97 milhão de barris por dia – 2,02% do total mundial. É menos do que o Brasil, que emplaca 2,74 milhões de barris diários (2,81%), ou que o México, com seus 2,23 milhões de barris (2,29%). Juntos – mais um chorinho de 1,1 milhão fornecido pela dupla Equador e Argentina – essas “republiquetas”-chave da Ursal seriam responsáveis por 8,2% da produção mundial (menos que EUA, Rússia ou Arábia Saudita sozinhos).

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O problema é todo aproveitar o potencial: a Venezuela guarda ridículos 301 bilhões de barris de petróleo em suas reservas naturais – mais que os 266 bilhões da Arábia Saudita. Ponha os 20 bilhões de barris de México e Brasil nessa conta e a Ursal se torna, com tranquilidade, o maior chafariz de gasolina do planeta – basta um bom, velho e planificado plano quinquenal.

5. O resto é café com leite

Suárez, Messi, Neymar, James Rodríguez… Para não falar no gol, em que poderiam se revezar Navas e Ochoa – a SUPER discorda desse aspecto da escalação no tweet abaixo. A URSAL não só teria 9 Copas do Mundo no currículo como seria imbatível em quase qualquer hipótese (principalmente considerando que um certo craque brasileiro e outro certo craque argentino poderiam se contagiar com o clima de união socialista e finalmente jogar pela seleção o tanto que jogam por seus clubes).

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