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China está coletando esperma. Mas só comunistas podem doar.

Os doadores do banco de esperma de um hospital de Pequim, além de cumprir os critérios de saúde comuns, devem amar incondicionalmente a pátria.

Um hospital universitário de Pequim, na China, está em busca de doadores para montar um banco de esperma. Mas não é qualquer um que pode se candidatar. Homens com mais de 45 anos, calvos, obesos ou daltônicos já estão automaticamente de fora… assim como os que não sentem um amor incondicional pela pátria comunista.

É sério. O anúncio diz: “os candidatos devem apoiar a liderança do Partido Comunista e ser (…) cidadãos decentes e cumpridores da lei, livres de problemas políticos.” De acordo com a BBC, alguns jornais locais ligaram para o help desk do hospital para perguntar como exatamente eles verificariam a confiabilidade ideológica dos doadores. “Se você se considerar apto, já é o suficiente”, responderam os atendentes.

Mesmo que você seja um apoiador fervoroso do livre-mercado, vale a pena mentir: os pouquíssimos aprovados no vestibular da inseminação artificial – cerca de 19% – ganham uma recompensa equivalente a no mínimo US$ 800 pela ajudinha reprodutiva prestada ao Estado. Só há 23 bancos de esperma para atender toda a população chinesa, e eles estão se esvaziando rapidamente agora que a política do filho único não está mais em vigor.

É bom deixar claro que no resto do mundo (preferências políticas de lado) também não é tão fácil doar. Todos os homens são submetidos a uma bateria de exames e questionários para determinar, entre outras coisas, doenças hereditárias graves, uso de drogas, alergias e DSTs. São cuidados naturais: estamos falando de filhos de outras pessoas. No Brasil, a lei não permite remuneração pelas doações – elas devem ser espontâneas.

O governo chinês está se virando nos 30 para combater a escassez de espermatozóides no país. Em 2012, uma máquina de coleta que exibe vídeos pornográficos em uma tela LCD foi parar em todos os tablóides – assim como uma reportagem bem mais séria sobre o mercado negro de esperma.

Segundo o New York Times, levar a política aos hospitais é só mais um passo de uma enorme campanha do presidente Xi Jinping para melhorar o moral do Partido Comunista e trazê-lo de volta para o cotidiano da população. Músicas, cartazes e filmes sobre heróis patrióticos tomaram conta da mídia da chinesa ao longo dos últimos meses.

Em entrevista ao jornal americano, William Callahan, professor de relações internacionais da Escola de Economia de Londres, afirmou: “Nacionalismo e socialismo estão se misturando de formas peculiares para promover a identidade chinesa como algo hereditário. O anúncio sobre o banco de esperma (…) mostra o quanto o nacionalismo é definido cada vez mas de acordo com critérios de pureza racial.”