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Não, Bolsonaro: a Terra não tem só 271 átomos

Na verdade, são aproximadamente 133.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 átomos. Tem 48 zeros aí. Conheça o número de átomos de algumas outras coisas.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 9 jul 2021, 17h24 - Publicado em 9 jul 2021, 16h51

Bolsonaro, hoje (9), estimou que a Terra tem 271 átomos. Não vamos nos alongar no contexto: essa pérola está em um vídeo no qual o presidente defende que houve fraude nas eleições de 2014 – uma afirmação que não contém um átomo de verdade. Para os curiosos, o vídeo está no tweet abaixo:

Aqui, vamos falar de átomos, pois são coisinhas fascinantes.

“Por mais que você se esforce, jamais conseguirá captar quão minúsculo, quão espacialmente modesto é um próton.” Essa é a primeira frase de Bill Bryson no livro Breve História de Quase Tudo.

“Um próton é uma parte infinitesimal de um átomo, que por sua vez é uma coisa insubstancial. Os prótons são tão pequenos que um tiquinho de tinta, como o pingo neste i, pode conter algo em torno de 500 bilhões deles.”

É, átomos são pequenos. De fato, por muito tempo, todo mundo pensou que eles fossem a menor coisa que existe. O tijolinho fundamental com que a natureza constrói todo o resto. O filósofo grego Demócrito, que nasceu mais de quatro séculos antes de Cristo, foi o responsável por batizá-los: atomos, em grego, significa “indivisível”.

Demócrito e seu mentor, Leucipo, na tradição científica do Ocidente, recebem o crédito pela teoria atômica em sua forma mais básica. Foram os primeiros a propor que havia um limite para fatiar as coisas do mundo: se pudéssemos picar qualquer coisa em pedaços pequenos o suficiente, uma hora chegaríamos em um pedaço mínimo – em algo que não é feito de uma coisa ainda menor.

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No final do século 19 começamos a descobrir que os átomos na verdade são divisíveis em partículas ainda menores. Partículas subatômicas. Essas sim são realmente indivisíveis. Átomos são feitos de elétrons, prótons e nêutrons; os prótons e nêutrons, por sua vez, são feitos cada um de três quarks. Elétrons e quarks, portanto, são o que Demócrito entendia por menor coisa possível. São os átomos, no sentido original do termo.

Vamos falar do mais simples dos átomos, o de hidrogênio, feito de um único próton rodeado por um elétron igualmente solitário. O raio de um átomo de hidrogênio, chamado constante de Bohr, é 5,3 · 10-8 milímetro. Ou seja: 0,000000053 mm. Sim, isso é inconcebivelmente pequeno – você precisaria enfileirar 750 mil desses átomos para alcançar a espessura de um fio de cabelo. Mas o núcleo de um átomo de hidrogênio (o próton) é bem menor: 8,4 · 10-13 milímetro.

Se o núcleo tivesse o volume de uma cabeça de alfinete, o átomo seria mais ou menos do tamanho do Estádio do Maracanã. Seu corpo é feito disso, um mar de Maracanãs desertos, cada um com uma cabeça de alfinete no centro. Os elétrons são os torcedores na arquibancada – no caso do hidrogênio, um único torcedor, em um único assento.

É claro que você não é feito só de hidrogênio. Dos seus 7 · 1027 átomos – 4 milhões de vezes mais do que os grãos de areia do deserto do Saara –, 65% são de hidrogênio, mas eles correspondem a só 11% do peso do seu corpo, porque são mais leves. Em segundo e terceiro lugar vêm o oxigênio (1,8 · 1027, ou 25%) e o carbono (0,7 · 1027, ou 10%). Os demais elementos aparecem em quantidades bem menores.

Uma modelagem do coronavírus feita no computador por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego exigiu 200 milhões de átomos. E um único ser humano com Covid-19 carrega 112 bilhões de cópias do Sars-CoV-2, em média. Haja átomo.

De fato, encontrar algo que seja feito de apenas 271 átomos é um desafio. As únicas coisas desse tamanho, na natureza, são moléculas. Uma de água tem três átomos. Uma proteína, milhares de átomos. Os pigmentos carotenoides, que são tetraterpenos, têm pouco menos de uma centena de átomos. Um triacilglicerol – um tipo de molécula com que seu corpo armazena gordura – tem uns 150 átomos.

(A estimativa de átomos presentes na Terra que citamos ali embaixo do título – 133 seguido de 48 zeros – é uma cortesia dos cientistas do Jefferson Lab, parte do Departamento de Energia dos EUA. Mas a realidade é que essa é uma conta dificílima; qualquer aproximação é incerta.)

Moral da história? Átomos são pequenos. Bem pequenos. E, portanto, qualquer coisa em que você consiga pensar é composta por uma quantidade imensa deles. Pense só: quantos átomos de tinta foram necessários para imprimir todas as ocorrências da palavra democracia em todas as cópias de todos os livros do mundo? Boa sorte contando. Podemos começar com os pingos nos is.

 

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