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O crepúsculo das criptomoedas

Elas nasceram para reduzir o poder dos governos e dos bancos sobre a economia. Mas evoluíram até dar à luz um sistema financeiro próprio – calcado em especulação bruta e cheio de brechas para fraudes. Esse cenário passa por uma crise agora. Seria o fim da odisseia cripto?

Por Alexandre Versignassi 15 jul 2022, 10h06

O conceito de criptomoeda nasceu em 2009, com o Bitcoin, e tinha um propósito nobre: funcionar como um substituto para o dinheiro comum. É que dinheiro comum perde valor ao longo do tempo, via inflação. Quem cria inflação são os governos – por meio de seus bancos centrais (BCs). Essas instituições criam moeda e emprestam para os bancos. E os bancos emprestam essa grana na praça. Com o tempo, a quantidade de moeda em circulação aumenta.

Por exemplo: antes da pandemia, havia US$ 15 trilhões em notas, contas bancárias e aplicações fáceis de resgatar (o dinheiro que efetivamente gira, e que os economistas chamam de “agregado monetário M2″). Depois, com fartas injeções do BC americano no sistema bancário, para aplacar o baque pandêmico na economia, o M2 saltou para US$ 21 trilhões. 40% a mais. No Brasil foi igual. Eram R$ 3 trilhões antes da pandemia. Agora são R$ 4,2 trilhões. 40% a mais.

Quando há mais dinheiro girando do que coisas para comprar com esse dinheiro, os preços entram em leilão. Aumentam – mesmo sem que o dinheiro tenha chegado às mãos de todos. Os criadores do Bitcoin, então, desenvolveram um mecanismo para evitar isso. Um “dinheiro” limitado a 21 milhões de unidades (neste momento, circulam 19 milhões, as demais estão sendo mineradas das profundezas da blockchain, o genial sistema que gerencia a produção e a circulação da cripto).

E é isso: se o Bitcoin substituísse todo o dinheiro do mundo, não haveria mais inflação. Além disso, os bancos perderiam seu poder. Ninguém precisaria ter conta, afinal. Bastaria uma carteira digital para guardar os Bitcoins.

Mas há muita ingenuidade por trás dessa utopia. Primeiro que as injeções de dinheiro novo via BC são fundamentais para combater crises. Segundo: um mundo sem bancos é um mundo sem financiamento. E sem financiamento o conceito de casa própria, para ficar num exemplo só, estaria reduzido ao topo do topo da pirâmide econômica.

Mesmo assim, trata-se de um princípio sólido: conceder mais independência às pessoas comuns, e tirar poder dos governos e dos bancos. Mas isso ficou para trás há tempos. A evolução das criptos rumou por outro caminho. Criou-se um sistema pesado de especulação financeira, que abriu portas para esquemas insustentáveis, às vezes fraudulentos. Esse processo pode acabar com o mundo cripto – e a implosão pode já ter começado, como vamos ver agora.

DeFi

“Finanças Descentralizadas”. DeFi, no acrônimo em inglês. Essa sigla virou palavra mágica no mercado financeiro. E consiste no seguinte: aplicativos que emprestam dinheiro como bancos comuns, mas sem a burocracia dos bancos comuns. Tudo automatizado. Você entra lá, toma o seu empréstimo em cripto, deixa uma garantia também em cripto, e pronto. Aí basta devolver depois, pagando um juro relativamente baixo. De onde vem o dinheiro? De gente que depositou no app de DeFi com o intuito de receber uma parte dos juros que os tomadores de empréstimo pagam.

Até aí, zero novidade: é assim que os bancos normais funcionam. Eles emprestam o dinheiro aplicado em CDB, por exemplo, e te pagam uma parte dos juros que recebem a título de recompensa. A diferença é que, nas DeFis, tudo acontece sem que haja um banco regulamentado no meio. É um mercado de empréstimos numa terra de ninguém.

Importante: o grosso dos empréstimos não rola em criptos tradicionais. Mas em stablecoins. Elas também são criptomoedas, que rodam sobre sistemas de blockchain, mas têm valor fixo, atrelado ao dólar. Normalmente, as instituições que emitem stablecoins guardam dólares como lastro. Emitiu 30 bilhões de unidades? Legal. Ela terá US$ 30 bilhões guardados em algum lugar para garantir a paridade.

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O mais normal, então, é que pessoas levantem empréstimos em stablecoin. É como pegar dinheiro de verdade, já que o valor de cada uma das unidades de uma stable nas corretoras de cripto sempre será (salvo desastre) de US$ 1.

Só tem uma questão aí: bancos normais selecionam rigorosamente quem pode e quem não pode receber empréstimos, para evitar calotes. Como as DeFis fazem isso? Bom, elas não fazem.

O esquema ali é outro. Se você quiser pegar US$ 1 mil em stable, deve deixar depositado o equivalente a US$ 1,2 mil em cripto (as proporções variam de DeFi para DeFi, mas ficam nessa faixa). A moeda digital mais popular nessas transações é o Ethereum (ETH), que nasceu em 2014. O Bitcoin tem certas limitações tecnológicas – não flui nos sistemas de DeFi. Um derivado dele criado em 2019, o Wrapped Bitcoin, flui, mas não é tão utilizado.

Bom, vamos dizer que cada unidade do ETH esteja cotada a US$ 1,2 mil, para facilitar. Então você deixa um Ethereum como garantia e pega US$ 1 mil em stable. Caso a cotação caia abaixo de US$ 1,2 mil, o app de DeFi vende automaticamente sua garantia no mercado e dá o empréstimo como quitado. Você fica com US$ 1 mil na mão, mas perde US$ 1,2 mil.

Ei… espera um pouco: que sentido faz deixar US$ 1,2 mil em ETH como garantia para um empréstimo de US$ 1 mil, se bastaria você vender seus os ETHs no mercado e ficar com US$ 1,2 mil na mão de uma vez?

Isso só tem lógica se você for um especulador que aposta na alta do Ethereum. Você deixa 1 ETH de garantia e pega o empréstimo em dólar, via stable. Aí passa a ter uma dívida em dólar – guarde isso.

Então você pega o empréstimo de US$ 1 mil, compra tudo em Ethereum (0,8 ETH), e espera uns meses. Vamos dizer que, nesse meio tempo, a cotação do Ethereum suba uns 65%, para US$ 2 mil. Pronto. Aí é só você vender seu 0,8 ETH pelo preço novo. Você fica com US$ 1,6 mil. Então paga a dívida de US$ 1 mil e pega a garantia de volta devidamente valorizada (já que que ela está na forma de Ethereum). Parabéns: você ganhou US$ 600 do nada, usando ETHs que não tinha.

Alguém pode perguntar: mas por que não pegar o empréstimo em Ethereum de uma vez? Porque nesse caso sua dívida estaria não em dólar, mas em ETH. Seu saldo devedor aumentaria – zero vantagem. Já num cenário de alta, é tudo festa. Você lucra com a operação e até com os ETHs que deixou lá de garantia.

Para que isso funcione, o ETH (ou seja lá a cripto que você use na DeFi) precisa subir o tempo todo. E isso é justamente o que aconteceu por muito, muito tempo. Em 2020, o Ethereum subiu 475% (de US$ 131 para US$ 751); em 2021, mais 400% (de US$ 751 para US$ 3,7 mil – com um pico de US$ 4,8 mil em novembro). Foi uma bolha retroalimentada justamente pela mania das DeFis.

Desde lá então, porém, a cotação só cai – do ETH, do Bitcoin, de todas as criptos. Começou por conta dos aumentos de juros nos EUA. Eles drenam dinheiro da economia, e aí sobra menos para os mercados de risco. Após as quedas iniciais, algumas DeFis quebraram.

Foi o caso da Anchor e da Celsius. As duas ofereciam juros de 20% ao ano em dólar. Isso não existe no mundo real. Ou seja: eram pirâmides. Remuneravam clientes antigos com a grana de clientes novos. A queda nas cotações diminuiu a clientela e deixou a nu esse tipo de picaretagem. A quebradeira retroalimentou as quedas. Nisso, o Bitcoin tombou 60% em 2022. O Ethereum, 70%. E nada garante que essas quedas, mais dia menos dia, não cheguem a 100%. O destino mais comum das bolhas, afinal, é desaparecer no ar. Sem deixar vestígios do esplendor que um dia elas exibiram.

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