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A velha fita ainda tem magnetismo

História da fita magnética, que comemora 60 anos, e os avanços tecnológicos das gravações.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h38 - Publicado em 30 nov 1994, 22h00

Álvaro Pereira Júnior

Ela está condenada ao desaparecimento, mas pode comemorar seus 60 anos com muito orgulho. Sem ela, a novíssima tecnologia de discos ópticos-magnéticos não existiria. Viva a fita magnética.

Ao completar 60 anos em 1994, a fita magnética está diante de duas certezas e uma constatação. As certezas: está condenada à morte (primeira), mas a morte será honrosa (segunda). A constatação:a tecnologia de gravação magnética consolidou-se. Não há muito o que inventar e o que está aí dá para o gasto. Mais ainda: a tecnologia que virá não poderá prescindir do magnetismo.

Em matéria de consumo, ela por enquanto vai bem. Segundo reportagem publicada em maio passado no jornal britânico Financial Times, por exemplo, foram vendidas, em 1993, 1,44 bilhão de fitas cassete, contra 1,39 bilhão de CDs. Apesar disso, vai morrer, porque os equipamentos modernos exigem cada vez mais definição e capacidade de armazenamento.

Mesmo os cabeçotes comuns (como os dos gravadores e videocassetes convencionais) estão ultrapassados. É preciso uma leitura mais definida, capaz de extrair informação de áreas infinitesimais. A solução é usar feixes de luz finíssimos. Aí entra a leitura óptica. E se apaga, mas só em parte, o magnetismo.

George Saliby, gerente de produtos datamídia da Basf do Brasil, explica que a morte será honrosa porque “os eventuais substitutos das fitas não se divorciam totalmente das técnicas magnéticas”. Os produtos superiores à fita magnética são aqueles que combinam tecnologia óptica e magnética, como o minisdisc e o disco regravável.

Os desenvolvimentos mais recentes da fita permitem que ela registre sons de forma digital, com grande aumento de qualidade da reprodução. É o caso do DAT (sigla para fita de áudio digital, em inglês) e o DCC (sigla para cassete compacto digital, em inglês). A informação digital é a linguagem dos computadores: a informação é “cifrada” num código de dígitos 0 e 1 que depois precisa ser “traduzido” em som. Na fita tradicional, a informação é analógica, isto é, o próprio som foi registrado nela.

Na área de computadores, discos rígidos e disquetes magnéticos, primos muito próximos da fita, estão igualmente com os dias contados. Mas o substitutos também não poderão prescindir da tecnologia magnética.

A primeira fita não era uma fita — era um fio de arame. Por estranho que pareça, foi esse o meio sobre o qual se fizeram as gravações magnéticas pioneiras. O gravador em fio de arame foi inventado pelo dinamarquês Valdemar Poulsen (1869-1942), assistente técnico da companhia telefônica de Copenhague. Apresentado no salão de Paris, em 1900, o aparelho, chamado telegrafone, virou coqueluche européia.

A invenção de Poulsen era inovadora. Só que de prática não tinha nada. “Quando o fio torcia, a gravação ficava do outro lado”, lembra Valdir Radighieri, que foi gerente dos estúdios de gravação da RCA, em São Paulo, nos anos 50 e 60, e chegou a operar, por curiosidade, um gravador de arame.

Depois de Poulsen, outros pesquisadores saíram em busca de novos meios de gravação, que fossem sensíveis ao campo magnético mas não tão difíceis de manusear. Não houve avanços significativos até 1928, quando o engenheiro Fritz Pfleumer, de Dresden, Alemanha, apresentou um gravador que usava, em vez de arame, uma fita de papel revestida com aço em pó. O engenho se chamava magnetofone. Pfleumer percebeu que não seria possível ter flexibilidade e propriedades magnéticas adequadas em um único material, por isso usou o papel (de fácil manuseio) associado ao aço (sensível ao campo magnético da cabeça de gravação). O passo foi decisivo.

Já com meio caminho andado, as gigantes alemãs AEG Telefunken e Basf uniram-se em 1932 para dar uma solução definitiva ao desenvolvimento da gravação magnética. A AEG ficaria com o aparelho e a Basf, com a fita. Em 1934, a Basf matou a charada, criando a fita magnética como se conhece hoje. No lugar do arame e do papel, um plástico recém-inventado, ao mesmo tempo resistente e flexível: o poliéster. Em vez de pó de aço, o óxido de ferro (Fe2O3), pó mais prático e fácil de obter, que estava dando sopa no laboratório e foi testado por acaso, conta Reynaldo Sanna, gerente de produtos de áudio e vídeo da Basf.

Um ano depois, a AEG apresentou o primeiro gravador de rolo, equipado com a nova fita da Basf, na Exposição de Rádio de Berlim. Fitas de óxido de ferro sobre uma base de poliéster, muito parecidas com os primeiros modelos, são até hoje as mais vendidas no Brasil. Os primeiros gravadores domésticos de rolo só foram fabricados em 1950, na Alemanha. A fita cassete, uma invenção da holandesa Philips, veio para ficar em 1963.

No Brasil, a fita tradicional para gravação de som terá pelo menos mais uma década de folgada liderança. Em países de Primeiro Mundo, ela ainda vai se segurar por no mínimo cinco anos. As previsões são de Reynaldo Sanna, da Basf. Ele explica que o DAT e o DCC têm qualidade superior à fita comum por funcionarem com informação digital, mas ainda estão caros demais e, portanto, muito longe do alcance do consumidor médio.

O DAT, muito parecido com o cassete, só que menor, já achou seu nicho: os estúdios profissionais. Até pouco tempo, era uma fita de rolo o primeiro meio de gravação a receber o som da mesa de mixagem no estúdio. Hoje, é um DAT. O problema é que um gravador/reprodutor de DAT não sai por menos de 600 dólares (cerca de dez vezes mais caro que um gravador/reprodutor de fita cassete comum). Isso praticamente inviabiliza o uso doméstico.

Já existe também o DCC, que leva uma vantagem inicial: um aparelho para DCC consegue com a mesma facilidade gravar e tocar cassetes comuns. Mas o aparelho ainda custa cerca de 1 000 dólares. “O DCC parece que não vai decolar”, diz o ex-gerente de estúdio da RCA, Valdir Radighieri. Principalmente devido ao alto custo da tecnologia necessária para produzir um equipamento doméstico de gravação e reprodução.

A mais recente aposta das multinacionais do som é o minidisc, semelhante a um disquete comum de computador, mas ainda menor. O mais impressionante é que um único minidisc atual armazena 140 milhões de bytes, o que é cem vezes mais do que um disquete comum de dupla face e alta densidade (um byte equivale a um caractere digitado no computador, como uma letra ou um numeral).

Mas a inovação ainda tem seus inconvenientes. Um aparelho de minidisc custa cerca de 1 500 dólares. O próprio minidisc, para 74 minutos de gravação, sai hoje por 20 dólares. Além do preço, há um incômodo adicional. Com o minidisc, não é possível “gravar por cima”. Se você quiser uma canção qualquer, em cima de uma outra música que você não agüenta mais escutar, terá um trabalho dobrado. Primeiro, terá que apagar a velha. Só depois, com o minidisc devidamente limpo, será possível gravar a nova. O cliente fica, portanto, obrigado a fazer duas operações.

Desvantagens como essas impedem um imediato estouro do minidisc como substituto também dos disquetes de computador, na avaliação de George Saliby, da Basf. “Quando for possível regravar diretamente no minidisc, ele será o novo disquete.” Mesmo assim, na avaliação de Saliby, na virada do século XX, os disquetes e discos rígidos de hoje poderão estar superados.

Eles estão ameaçados não apenas pelo minidisc com sua espantosa capacidade de memória, mas também pelo disco regravável. Ele armazena 128 milhões de bytes, segundo Saliby, mas tem o mesmo problema do minidisc: precisa ser desgravado para só então receber novo registro. Minidisc e disco regravável usam uma tecnologia híbrida, magnética e óptica. Na gravação, um feixe óptico de laser atinge uma das faces do disco. No ponto onde o raio chega, a temperatura sobe a 273 graus centígrados. O material que reveste o disco torna-se magnetizável nessas condições. Entra em ação um cabeçote magnético, que registra no disco as informações a serem gravadas. Assim, embora minidisc e disco regravável lancem mão da tecnologia óptica, o método de guardar informação é magnético, idêntico ao das fitas convencionais.

Outro sistema novo é o disquete óptico flexível, também chamado “floptical”. Mas sua capacidade de armazenamento relativamente baixa (21 milhões de bytes) impede que ele decole. O CD óptico(os CDs onde ouvimos música hoje em dia), por exemplo, tem a fantástica capacidade de armazenar mais de 600 milhões de bytes. Ele, porém, não pode ser regravado, nem há perspectiva de que um dia seja, pelo menos em ambiente doméstico.

A sucessão da fita magnética é inevitável, mas não há ressentimentos. Como nos mais estáveis reinados, os novos ocupantes do trono serão seus descendentes, norteados pelos mesmos princípios dos antigos soberanos.

 

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Para saber mais:

Silêncio: som demais

(SUPER número 1, ano 3)

Puro som

(SUPER número 5, ano 4)

Psssiu, ouça essa…

(SUPER número 7, ano 5)

Em busca da orquestra doméstica

(SUPER número 3, ano 7)

 

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Ajudando o disco, o computador e o vídeo

Até surgir a fita, as gravações de som eram feitas diretamente em disco. O equipamento de gravação era uma “vitrola ao contrário”. O som entrava pelo microfone e movimentava uma agulha que fazia a gravação em sulcos. A qualidade dos originais (de cera ou de acetato) era boa, tanto que as gravações podem ser recuperadas com bons resultados (o problema estava nas cópias comercializadas, os discos de 78 rpm, feitos de pedra calcárea e asfalto, que chiavam na vitrola). No velho processo, uma vez que o disco de gravação começasse a girar, não se podia mais interromper. O erro de uma nota inutilizava tudo. Com a fita, ficou mais fácil. Deixou de ser necessário gravar direto no disco.

Em informática, a fita começou a ser usada em 1951, no Univac 1, primeiro computador digital produzido para uso comercial. Em 1956, quando a Ampex criou, nos EUA, o primeiro gravador de vídeo. Os protótipos de videocassete domésticos são de 1969. Diferentemente do gravador de áudio, o de vídeo tem cabeça rotatória. Ou seja: não existe um cabeçote estático sobre o qual desliza a fita. Isto acontece porque é necessária uma qualidade de gravação muito mais alta que em áudio, o que exige maior velocidade entre cabeçote e fita. Se o cabeçote fosse fixo, a velocidade seria exclusivamente a da fita. Como ele gira, a velocidade de atrito é maior. Resultado: mais qualidade.

 

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A evolução

Fita de rolo: Surgiu junto com o gravador, na década de 1930. Até hoje proporciona os melhores resultados sonoros de gravação magnética, se não incluirmos na comparação as técnicas digitais. As gravações podem ser feitas em velocidade mais alta que em cassete. Quanto mais alta a velocidade, melhor a qualidade de gravação/reprodução, seja de som ou de imagem.

Cassete: O cassete foi desenvolvido em 1963 pela Philips. Significa “caixinha” em francês. É uma espécie de miniatura da fita de rolo. Mais prático e barato, tem a desvantagem da velocidade baixa. Por isso, não é a melhor escolha quando se pede alta qualidade de gravação/reprodução.

DAT: Aperfeiçoamento da gravação magnética. Sua qualidade é equivalente à do CD. O sinal que chega do gravador à fita DAT já é digital (uma seqüência de zeros e uns, a mesma linguagem dos computadores) e não mais analógico (como acontece com as fitas cassetes comuns). O princípio de gravação do DAT — um meio magnético que armazena informação — é o mesmo das fitas convencionais. A forma também: o DAT é uma fita plástica revestida com material magnético.

Fita digital de áudio. Uma variação da fita magnética de qualidade equivalente à do CD. É um meio magnético no qual se grava informação (no caso, som) em forma digital.

 

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Verdades e mentiras sobre a fita-cassete

 

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As fitas de cromo “comem” o cabeçote

Mentira. Elas não são abrasivas. São até mais lisas e atritam menos o cabeçote.

 

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Aparelhos de raios X e detectores de metais em aeroportos podem desgravar

Mentira. Essa radiação não afeta a orientação magnética da fita.

 

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É ruim deixar fitas perto de alto-falantes e televisores

Verdade. Os ímãs desses equipamentos podem afetar a gravação.

 

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O melhor álcool para limpar cabeçote é o isopropílico

Verdade. O álcool isopropílico, à venda nas farmácias de manipulação, tem menos água do que o álcool etílico comum. E a água é a grande inimiga dos cabeçotes.

 

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Quando se limpa o cabeçote, o álcool isopropílico pode “comer” a borrachinha que fica do lado

Mentira. O álcool isopropílico não ataca a borracha. É até bom dar “uma geral”, limpando tudo o que há perto do cabeçote.

 

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Cassete compacto digital. Magnético. Parente próximo do DAT. A diferença é que os aparelhos para DCC funcionam também com fitas convencionais.

Meio de gravação que usa processos ópticos e magnéticos. É candidato a sucessor dos disquetes e discos de computador.

Semelhante ao disco regravável. Também é um híbrido óptico/magnético. Usado para áudio e computação.

Compact disc. Não é magnético. A leitura do CD é óptica. Isto é, um feixe de luz laser lê na superfície do CD a informação, que está armazenada em forma de “furinhos” microscópicos.

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