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Computadores

Eles são jovens, amam a paz e seus computadores e fazem prodígios com eles - como penetrar os segredos de governos e grandes organizações. São os hackers, que querem livre acesso às informações

Norton Godoy

Na noite de 28 de setembro passado aconteceu algo estranho na cidade alemã de Hamburgo: agentes do serviço secreto da polícia francesa invadiram o número 85 da Schenckerstrasse e de lá saíram carregando caixas com equipamentos eletrônicos e mais de quatrocentas folhas de formulário contínuo (o papel utilizado em computadores). Dez dias antes, em Washington, um porta-voz do governo americano reconheceu, encabulado que um grupo de garotos alemães conseguira, com seus microcomputadores, penetrar nos sistemas de segurança da NASA – Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço.

Apesar de acontecerem tão longe, os dois fatos têm estreita ligação. Um dia antes da entrevista do porta-voz alguns membros do Clube de Computador Caos, de Hamburgo, haviam denunciado publicamente o envolvimento da NASA – entidade criada para fins pacíficos de exploração espacial – no desenvolvimento de armas para o programa “Guerra nas estrelas” do governo americano. Eles haviam obtido essas informações diretamente dos computadores da NASA, cujos sistemas de segurança conseguiram penetrar, como reconheceu o porta-voz. O prédio invadido era a sede do clube, cujos membros haviam violado, também, os computadores da polícia francesa.

Se não fosse verdade, daria o enredo para um bom filme de ficção científica – que, por sinal já foi feito. Quem não se lembra de Jogos de guerra, uma envolvente história em que um menino habilidoso invade o computador de uma agência do governo americano e quase leva o mundo à guerra nuclear? Os membros do Caos são assim também – garotos habilidosos no uso do computador. São uma espécie diferente de jovens, espalhados por todo o mundo (inclusive no Brasil) que se apelidam hackers.

Em português, seria algo como “fuçadores”. Pois fuçar é o que eles mais adoram fazer especialmente no campo da informática. Os primeiros hackers apareceram em 1959, quando ainda não havia computadores pessoais. Moravam perto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e ficavam andando pelos corredores da famosa instituição, de madrugada, vendo tudo e mexendo no que fosse possível. Gostavam sobretudo do prédio 26 da universidade, onde estavam instalados os primeiros computadores eletrônicos, máquinas gigantescas. De lá para cá, várias gerações das melhores cabeças da técnica da informática foram influenciadas pelo que se costuma chamar filosofia hacking, essa mania de procurar saber tudo.

Vamos acompanhar a história dos meninos do Caos. Eles são noventa, espalhados pela Alemanha. A sede do clube que a polícia invadiu é a casa do seu líder, Wau Holland. Lá eles tinham vários computadores com seus periféricos como impressoras, modems (que convertem a linguagem binária dos computadores em sinais eletrônicos modulados que podem ser enviados pelo telefone), drives (que gravam e reproduzem as informações da memória dos computadores em disquetes). Uma parafernália eletrônica que justifica o lema do clube: “Salada de fios é saudável”.

O objetivo do Caos é entrar nos segredos dos grandes computadores do mundo inteiro, que trabalham para complexas instituições como a NASA ou a polícia francesa. Esses segredos são protegidos por códigos formados por letras e números. Há códigos específicos para cada arquivo, e um que dá acesso ao sistema operacional da máquina – uma espécie de chave que põe o computador em funcionamento. É por aí que os hackers começam.

Eles põem o computador a funcionar, mas não sabem como abrir as portas que guardam os segredos. Usam, então, o truque chamado “cavalo de Tróia”: põem na memória do computador um programa simples que eles mesmos preparam. Esse programa manda o computador responder a qualquer chamada com os procedimentos de rotina: o nome da instituição, uma saudação ao usuário e o pedido da senha para o arquivo que quer utilizar. Quando o usuário fornece a senha, o programa não abre a porta, que os hackers nem sabem qual é – mas registra o código na memória.

O computador então passa a operar com seu programa normal, dá o nome da instituição outra vez, saúda o usuário e pede a senha. Este pensa que houve algum problema com a ligação telefônica e repete tudo. Depois de introduzir esse programa na memória do computador, os hackers esperam alguns dias, e voltam a fazer contato. Chamam o seu programa e fatalmente vão encontrar nele uma coleção de senhas que o computador guardou para eles. Os garotos do Caos fizeram isso com 135 computadores de vários países, descobriram um monte de segredos, como as armas da NASA – sem gastar um tostão com ligações internacionais. Pois outra especialidade dos hackers é descobrir números telefônicos desativados nas centrais e mandar a conta para eles.

Os hackers gostam dos computadores, acreditam que eles existem para tornar a vida das pessoas melhor. Por isso os sócios do Caos, que são pacifistas, denunciaram o envolvimento da NASA com armas. Não há dúvida de que essa atividade de furar os segredos alheios é ilícita e com as provas materiais recolhidas pela polícia francesa os hackers alemães correm sério risco de acabarem na cadeia. Mas isso não acabará com a preocupação de governantes e dirigentes de grandes organizações: se garotos utilizando computadores comuns conseguem tais façanhas, qual a garantia de que seus segredos podem ser mantidos realmente secretos?

Para saber mais:

A inteligência do chip

(SUPER número 3, ano 8)

Ei, computador, leia as minhas mãos

(SUPER número 7, ano 9)

Tem boi na linha

(SUPER número 10, ano 9)

Inimigo secreto

(SUPER número 8, ano 10)

Ilustres Pioneiros

A galeria dos hackers ilustres inclui esses nomes:Stephen “Woz” Wozniak – Nasceu em San José, perto de São Francisco, nos Estados Unidos. Prodígio da eletrônica, construiu o primeiro microcomputador Apple para se divertir. Acabou sendo um dos fundadores da Apple Computer.Steven Jobs – Colega de Woz na fundação da Apple, seu amigo desde a infância. Na adolescência, especializaram-se em fazer ligações telefônicas internacionais sem pagar – e chegaram a ligar para o Vaticano, para falar com o papa em nome do então secretário de Estado Henry Kissinger.Bill Gates – Outro garoto prodígio que largou no meio do curso a Universidade de Harvard para escrever o primeiro programa Basic para o primeiro computador pessoal, o Altair. Hoje é um jovem empresário riquíssimo, proprietário da Microsoft, que anda brigando com a empresa brasileira Scopus, que acusa de copiar um dos seus programas.Adam Osborne – Nasceu em Bangkok, na Tailândia, mas fez carreira como hacker nos Estados Unidos. Diz-se um filósofo, mas encontrou tempo para criar a Osborne Computer.Peter Samson – Pode ser considerado um pioneiro hacker: gostava de sistemas eletrônicos, trens em miniatura, música. Fundou o primeiro clube de hackers, o Clube Técnico de Ferromodelismo, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.Steve Russel – Escreveu o primeiro programa de vídeo game, o Spacewar, num velho computador gigante POP-1. Ao contrário da maioria dos outros hackers, não ganhou dinheiro com suas habilidades.Roberta Williams – A única mulher da lista dos hackers notáveis. Manifestou sua criatividade produzindo videogames juntamente com o marido, Ken Russel. Eles criaram uma empresa de video games, a On-Line.Os hackers brasileiros se reúnem em clubes CBBS – sigla americana de Computer Bulletim Board System, uma espécie de sistema de recados por computador. O primeiro foi fundado em 1983 por Paulo Sérgio Pinto, no Rio de Janeiro. A moda pegou rápido. Eles preferem ser chamados de micromaníacos, pois vivem trocando recados e informações através de seus microcomputadores. Os maiores CBBS estão em São Paulo: o Sampa, com cerca de 800 usuários, e o Sampinha, com 250. Quem tiver um micro e quiser contatar com eles, ligue para (011) 37-4107 (Sampa) e (011) 64-7199 (Sampinha).