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Ex-funcionário acusa Uber de espionar clientes e celebridades

Segundo a denúncia, é fácil demais para quem trabalha na empresa conseguir informações sobre qualquer usuário do app - de um ex-namorado até um deputado.

Rastrear a Beyoncé, acompanhar a geolocalização da sua ex-namorada, saber por onde anda o deputado em quem você votou. De acordo com um ex-funcionário de segurança do Uber, dá para fazer tudo isso se você trabalhar para o aplicativo.

Samuel Ward Spangenberg foi investigador forense da companhia por 11 meses, encarregado de localizar falhas nas políticas de segurança do app, até que foi demitido. Decidiu processar a empresa e a declaração que ele deu à justiça é motivo de preocupação para qualquer um que use o serviço.

De acordo com o depoimento de Spangenberg, existem poucas restrições para um funcionário americano do Uber que queira acessar as informações que o aplicativo armazena das viagens de cada usuário. Assim, grande parte das pessoas que tem um emprego corporativo no Uber é capaz de visualizar os dados pessoais de cada perfil: nome de usuário, local onde a corrida foi requisitada, o preço da viagem, o banco que autorizou a transação e até se o celular usado era iPhone ou Android.

Só o acesso à localização GPS no momento de utilização do serviço já dá ao funcionário a capacidade de rastrear ao vivo a posição de qualquer cliente do Uber – “poder” que Spangenberg diz ter sido utilizado com celebridades, políticos de alto escalão e até ex-cônjuges e pessoas conhecidas dos funcionários.

Isso até 2015, época em que o denunciante trabalhou por lá. Na nova versão do app, a situação pode ser ainda mais delicada, já que, segundo a Política de Privacidade do Uber, a empresa coleta informações de localização do celular mesmo quando o passageiro não está com o app aberto.

Vale destacar que o ex-investigador está processando a empresa por causa da sua demissão. Ela teria dois motivos: discriminação por idade (ele tem 45 anos) e retaliação por ter divulgado à empresa todas as falhas de segurança e privacidade que encontrou. Fica claro, então, que Spangenberg tem interesse pessoal no assunto, mas não é a primeira vez que a empresa é acusada de colocar em risco a privacidade dos seus consumidores.

Em 2014, o Buzzfeed News revelou que uma jornalista do portal tinha sido rastreada por um executivo do Uber sem sua autorização – o homem mostrou a ela que isso era possível logo antes de ser entrevistado por ela.

Segundo a empresa, os dados dos usuários são coletados para solucionar problemas entre motoristas e passageiros, além de permitir ao Uber detectar fraudes no aplicativo. Até aí, tudo bem. Mas a crítica do Buzzfeed – que Spangenberg também faz em sua declaração – é que gente demais dentro da empresa teria acesso a informações tão cruciais, ao invés de uma pequena equipe de TI.

As acusações do ex-investigador não param por aí: além de não respeitar os direitos à privacidade dos usuários, a empresa ainda deletaria arquivos e desligaria a conexão dos seus sistemas para evitar que autoridades do governo descobrissem essas irregularidades durante eventuais visitas de fiscalização.

O Uber respondeu às acusações com uma declaração oficial, publicada pelo site The Verge. A empresa admite o conhecimento de situações em que funcionários abusaram de seu acesso à informação de usuários, mas que foram menos de 10 casos, e os funcionários teriam sido demitidos em cada um deles. Além disso, a empresa afirma que os empregados que têm acesso a dados dos clientes, com poucas exceções, só são capazes de visualizar as informações essenciais para o cumprir as suas funções na empresa.

Você pode ler a denúncia completa feita à Corte Superior da Califórnia: o original está em inglês, e inclui um anexo de quase 30 páginas – só de informações que Spangenberg conseguiu sobre seu próprio perfil de viagens com o Uber no banco de dados da empresa.