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Faxmania sem fronteiras

No mundo das comunicações, a mais nova atração é o aparelho que reproduz e transmite papéis pelo telefone. Por necessidade ou luxo, cada vez mais gente quer ter um fax ao alcance da mão.

Luiz Guilherme Duarte

A muitos quilômetros de qualquer coisa que possa ser identificada como sinal de civilização, mais precisamente dentro de um veleiro na Antártida, está alojada uma pequena máquina, misto de telefone e fotocopiadora, que transmite e reproduz documentos através de ligações telefônicas. Ali, entre os avançados instrumentos de navegação do Paratii, projetado pelo navegador brasileiro Amyr Klink, o aparelho serve para abastecer seu dono com informações de estações meteorológicas do Chile e da Argentina sobre a eventual aproximação de tempestades. O exemplo do solitário Klink nos confins do planeta mostra não haver limites geográficos nem de modalidades de uso ao fax, abreviatura de fac-símile (do latim facere, fazer, e simile, similar) —, a engenhoca que em pouco mais de um par de anos atravessou as paredes dos escritórios das grandes corporações, seus primeiros consumidores, para multiplicar-se pelo mundo afora, ao alcance da mão de pessoas jurídicas e físicas. a ponto de justificar plenamente a expressão faxmania, já incorporada ao léxico de muitos países.

A imaginação parece ser a única fronteira no caminho do aproveitamento do fax. Veja-se o caso do professor Artur Matuck, da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo. Em dezembro último, ele encontrou uma maneira imaginosa de utilizar seu equipamento: após um ano de preparação, junto com vários colegas da Universidade de Campinas, participou de um intercâmbio de imagens, via fax, entre cidades de três continentes — Paris, San Francisco e a própria Campinas. O objetivo era criar uma imagem artística nova dos três lugares. “É a telearte, em que um artista dialoga com outro a distância, rompendo a postura egocêntrica do criador”, discursa Matuck. O fax já foi chamado a participar de missões mais carregadas de problemas. No ano passado, desde o massacre de manifestantes civis na Praça da Paz Celestial, em Pequim, estudantes chineses residentes nos Estados Unidos recorrem ao aparelho para abastecer seus compatriotas na China de informações chegadas ao Ocidente sobre o que se passa efetivamente no país.

“É uma tecnologia democrática, um instrumento que dá poder ao maior número possível de pessoas”, festejou a revista americana Discover, ao condecorar o equipamento com o título “a máquina do ano”. A vertiginosa obsessão pelo fax, para uma infinidade de tipos de comunicações, não tem precedentes na história da popularização de artefatos tecnológicos. Seu parente mais próximo, o telex, por exemplo, jamais atraiu com igual intensidade os mortais comuns que, cada vez mais, amam enviar papéis uns aos outros pelo correio telefônico. Ao contrário da previsão convencional de que a palavra escrita desapareceria na era da eletrônica, o escritório sem papéis descrito pelos futurólogos do começo da década não só não existe em parte alguma como a própria produção de papel vem crescendo no mundo a 5 por cento ao ano. Existe, ao que parece, tão velha como a civilização uma necessidade humana muito arraigada de ver palavras postas no papel — e isso não deve mudar num futuro previsível. Tardará ainda a nascer uma geração tão familiarizada com teclado e monitor de vídeo, quanto com lápis e papel.

De seu lado, contratos e demais documentos legais, mesmo quando impressos a partir de sua elaboração num micro, continuarão valendo como papéis, só que agora transmitidos em minutos de um continente a outro por fax. Compreende-se assim por que os advogados estiveram entre os primeiros a aderir alegremente à novidade.

As mensagens via fax, devidamente acompanhadas da identificação do remetente, já têm valor legal em vários países e essa tendência deve ampliar-se ainda mais, assim que se conseguir evitar o clareamento do sensível papel de impressão térmica do fax. Por enquanto, caso o papel não seja mantido em pastas plásticas especiais, a mensagem nele contida corre o risco de desaparecer se exposta à luz solar durante muito tempo. No Brasil, quase 30 mil aparelhos de fax estão em uso. “Até o fim do ano, haverá mais equipamentos de fax do que de telex”, prevê Jorge Coimbra, presidente da Associação Brasileira de Escritórios (ABAE). “A maior prova está nos cartões de visita, que passaram a apresentar o número do fax.”

Mas, se a moda do fax é recentíssima, o aparelho tem origem secular. Na verdade, o fac-símile é mais velho até do que o telefone e o telégrafo. Já em 1843, exatamente 33 anos antes da invenção do telefone, o relojoeiro escocês Alexander Bain havia descoberto o princípio básico de funcionamento do fax: correntes elétricas podem transmitir imagens. Para tanto, um equipamento percorre uma folha de papel com um fino feixe de luz, cujas reflexões, convertidas em impulsos elétricos, viriam a ser transmitidas por linha telefônica a outro aparelho, que faz a operação inversa. Pode-se compará-los a fotocopiadoras comuns, cujos papéis, em vez de sair das próprias máquinas, surgem de outras, em outros lugares. Na Segunda Guerra Mundial, equipamentos primários desse tipo enviavam mapas e ordens para as linhas de combate.

A primeira geração do fax como é conhecido hoje (chamada Grupo I) transmitia uma página normal em cerca de 6 minutos, um tempo de ocupação da linha telefônica caro demais em relação ao telex ou ao correio. Mesmo assim, no começo da década de 60, os primeiros equipamentos, grandes e pesados, abriam espaço nos laboratórios fotográficos dos grandes jornais e agências noticiosas para a recepção e transmissão de fotos de outros lugares, as chamadas telefotos, em uso até hoje. As máquinas do Grupo II reduziram o custo inicial à metade, mas foi só a terceira geração (Grupo III), surgida no princípio dos anos 80, que conseguiu realmente vencer a concorrência com os outros sistemas de comunicação, ostentando tempos de transmissão entre 30 e 60 segundos. Mas a proliferação em larga escala dessas máquinas precisou esperar o fim da década, quando um comitê especializado das Nações Unidas definiu os padrões técnicos que garantem a comunicação entre os diversos modelos existentes.

Sem sombra de dúvida, o sucesso da mais recente geração de fax deve-se — para variar — aos japoneses, que substituíram as partes mecânicas do equipamento por circuitos computadorizados, reduzindo o tempo de transmissão e melhorando a qualidade das cópias. Graças a tais aperfeiçoamentos, novas possibilidades de uso surgiram para o fax, atraindo um público praticamente ilimitado. A capacidade de memória, por exemplo, permite gravar até uma centena de números telefônicos para os quais um mesmo documento pode ser enviado em seqüência, ou ainda permite programar o envio e a recepção de mensagens para quaisquer horários, mesmo sem a presença do operador. As vantagens sobre outros sistemas de telecomunicação são evidentes. O telex, o maior competidor do fax, embora também instantâneo, requer que se transcreva a mensagem, sujeitando o usuário aos inevitáveis erros de datilografia. “Mas o essencial é que a transmissão não se limita a um texto, como no telex, porém inclui gráficos, tabelas, desenhos, fotos, esquemas, circuitos eletrônicos e toda e qualquer imagem representada sobre um papel”, ressalta Estevam Hernandez, da Itautec, uma das três empresas nacionais já autorizadas pela Secretaria Especial de Informática (SEI) a fabricar o aparelho.

Segundo ele, o número de fax no país saltou de novecentos em 1984, quando surgiu o primeiro modelo brasileiro para mais de 28 mil no ano passado. A previsão da indústria é somar 57 mil em dezembro próximo. Na verdade, essa é apenas a ponta do iceberg, uma pequena fração do real, que inclui uma ponderável quantidade de aparelhos contrabandeados, como aliás acontece com micros e aparelhos de videocassete. Os cálculos dos próprios fabricantes indicam que, para cada fax produzido aqui dois entram ilegalmente no Brasil, burlando a polêmica legislação que proíbe a importação de equipamentos com similar nacional. Em qualquer boa loja de departamentos do exterior, pode-se encontrar até 25 modelos diferentes de fax, desde os portáteis de 500 dólares aos complexos sistemas profissionais de até 5 mil dólares. “Dependendo do câmbio, um fax brasileiro pode custar 30 a 40 por cento a mais que um estrangeiro, mas é beneficiado pela garantia e assistência técnica locais”, contrapõe Hernandez. Os usuários de produtos contrabandeados podem perder a linha telefônica, se apanhados. Mas não há como distinguir entre um usuário de telefone e um de fax.

“A medida que substitui o telex, o fax ajuda a congestionar a já escassa rede de telecomunicações do país, mas os breves segundos de transmissão de um desenho por esse sistema dispensam com vantagens as conversas por telefone para descrevê-lo”, avalia o gerente da Itautec. Por esses e outros motivos a faxmania só deve se expandir no país. Não por acaso, a palavra entrou num sucesso recente de Roberto Carlos (“Se diverte e já não pensa em mim”) e a imagem num selo do correio. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT), aliás, desde 1983 oferece o serviço de transmissão via fax chamado Fax-post para 51 dos 180 países que possuem o sistema. A procura por esse serviço tem dobrado de ano para ano. Em qualquer lista telefônica também se pode encontrar quase sessenta números de aparelhos públicos instalados nas principais cidades do país. Mas tais cifras são insignificantes, comparadas, por exemplo, às da Europa Ocidental, onde até o fim de 1988 havia mais de 1,75 milhão de máquinas instaladas. Sem falar dos Estados Unidos, com seus 3,5 milhões de aparelhos. Ali, a interação entre os usuários chega a ser tão intensa, que gera problemas como a avalanche de junk fax, todo tipo de mensagem indesejada, principalmente folhetos de propaganda, que congestionam a linha e consomem o papel da vítima.

As primeiras pesquisas sobre o assunto demonstraram que, no espaço de três anos, o crescimento do sistema americano reduziu o movimento de telex em mais de 200 milhões de minutos, algo como cinco meses de uso ininterrupto. Em compensação, mais da metade das chamadas telefônicas entre os Estados Unidos e o Japão foram feitas para a transmissão de documentos via fax. Com o dobro da quantidade de terminais dos americanos, os japoneses encontraram nessas telecopiadoras a solução para a complexidade de seu idioma, que soma pelo menos 3 mil caracteres ideográficos manuscritos. Com uma rede totalmente digital, isto é, com linguagem semelhante à dos computadores, o Japão utiliza bastante o fax de última geração (Grupo IV), de alta definição, com impressão a laser e tempo de transmissão seis vezes mais rápido que os do Grupo III. “Numa rede totalmente digitalizada e integrada, os serviços oferecidos por meio do telefone multiplicam-se e o fax será certamente um dos mais populares entre eles”, prevê Hélio Graciosa, chefe de planejamento do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás (CPqD). em Campinas.

Ele informa que o Brasil se prepara para iniciar, em 1991, o projeto piloto de uma rede telefônica digital de serviços integrados (RDSI), em compasso com muitos países desenvolvidos (SUPERINTERESSANTE número 9, ano 3). Nessa rede, um único cabo, ligado à central de chamadas, reunirá as funções dos equipamentos de telex, telefone, fac-símile e mesmo a interação entre computadores tudo atualmente em cabos diferentes. “O que acontece hoje é que, a não ser que seu fax esteja adaptado ou disponha de uma secretária eletrônica, não vai atender os telefonemas normais e ainda por cima a linha ficará bloqueada”, explica Graciosa. “Na RDSI você pode usar duas funções ao mesmo tempo e o aparelho vira uma extensão do telefone, capaz de transmitir voz, papéis e dados de computador”. Para conviver no futuro com essa telecopiadora, o engenheiro José Maria de Carvalho também do CPqD, apresenta o Intelitel, um telefone inteligente, capaz de juntar seus vários atributos a qualquer outro sistema de comunicação. “O Intelitel não só torna o fax capaz de receber voz, como garante a utilização das máquinas do Grupo III na rede digital”, esclarece Carvalho. Graças ao moderno conceito de rede telemática (comunicação de dados a distância) e a esse sofisticado telefone — que dispõe, entre outros recursos, de agenda eletrônica, memória para anotações, indicação do número de quem chama e do valor da tarifa —, um dia será comum falar com computadores ou transmitir textos escritos para serem ouvidos. Em qualquer previsão que se faça, as máquinas transmissoras de papel estão presentes, com todo seu poder de sedução, que bem poderia chamar-se fax appeal.

Para saber mais:

Congestionamento invisível

(SUPER número 1, ano 4)

Mil utilidades e uma polêmica

Faz-se de tudo com fax nos Estados Unidos, onde mais de 100 mil máquinas são vendidas todo mês. A companhia japonesa Toshiba, por exemplo, doou aparelhos para a Universidade Callaudet, em Washington, a única do mundo destinada a pessoas com problemas auditivos. “O fax pode significar uma verdadeira ponte entre o mundo dos surdos e o dos que ouvem”, afirma David Bergevin, gerente de marketing da empresa. De fato, o aparelho pode ser utilizado como telefone entre surdos e também entre eles e pessoas de audição normal. Outra utilização promissora é a conexão com telefones celulares, o que possibilita ao usuário transmitir mensagens de qualquer lugar.

Junto com a moda, a polêmica. A transmissão de propaganda via fax é tema de acesos debates entre os americanos. O Congresso discute um projeto que regulamenta a publicidade via fax e telefone. Segundo o autor, senador Edward J. Markey de Massachusetts. “o uso do aparelho para o envio de propaganda não solicitada não apenas faz com que o consumidor arque com os custos da publicidade, mas também impossibilita que um importante instrumento de negócios seja utilizado para os fins a que se destina”. Ele propõe a formação de um banco de dados nacional, para consulta dos publicitários, listando os números de fax e telefone de pessoas e empresas que não desejam ser chamadas — uma espécie de mailing list às avessas. Leis no mesmo sentido já vigoram em muitos estados. Em Nova York, por exemplo, a transmissão de propaganda não deve passar de cinco páginas, restrita a horários não comerciais.

Já nos estados de Maryland, Connecticut e Flórida, as leis proíbem o uso da rede telefônica para propaganda em qualquer horário e as multas podem chegar a 10 mil dólares. Por ironia, as autoridades locais só se convenceram da necessidade de baixar tais leis devido ao congestionamento de seus aparelhos de fax, provocado pelas cartas dos adversários da proibição. A maioria dos usuários aguarda leis que lhes garantam o direito de não pagar propagandas não solicitadas. Curioso é que grande parte desses anúncios são de fabricantes de papel para fax. Má publicidade: serão poucos os consumidores que irão comprar papel dos fabricantes que, para anunciar o seu, acabam com o deles.