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Febre alta no planeta

Flávio Dieguez

Ainda falta um mês para terminar a década, mas os números do termômetro já estão definidos. E não são exatamente uma boa notícia para o futuro. De acordo com os meteorologistas, esta será, com certeza, a década mais quente do século mais quente dos últimos 1 000 anos. Embora o calor tenha arrefecido alguns décimos de grau em 1999 e 2000, a temperatura média do planeta vai ficar na casa dos 14,5oC – um salto importante em relação aos 13,8oC, o primeiro valor registrado de maneira direta pelos termômetros, em 1866. Antes disso, a meteorologia não fazia medições sistemáticas, mas a análise química de rochas antigas e do gelo acumulado nos pólos indica que a temperatura ficava abaixo da marca em 1866.

Em escala global, basta um espirro do termômetro para tirar o planeta do eixo. Poucos pesquisadores atualmente duvidam que a onda montante de calor é irreversível e que já está espalhando recordes sinistros pelos continentes. Desequilibrado, o clima escorrega para extremos, oscilando entre nevascas inéditas em certas regiões, e secas insuportáveis, seguidas de trombas d’água nunca vistas, em outras. “Os danos relacionados ao clima nesta década foram mais de cinco vezes superiores aos dos anos 80”, diz Lester Brown, diretor do Worldwatch Institute, uma das organizações mais criteriosas em suas avaliações.

“Há dez anos, os prejuízos eram da ordem de 20 bilhões de dólares ao ano; agora, chegaram à casa dos 100 bilhões”, afirma. Sem falar em tragédias como a da Venezuela, onde as chuvas e as enchentes resultantes causaram 27 000 mortes, em 1999. Mesmo nos Estados Unidos, bem mais preparados do que o resto do mundo para enfrentar desastres, a passagem do furacão Floyd pela costa leste, no ano passado, custou mais de 4 bilhões de dólares em danos. A fuga dos milhares de moradores vitimados foi a maior evacuação registrada na história do país.

Daqui para a frente, é quase certo que a situação vai piorar. Porque a causa do aquecimento global, segundo a maioria dos pesquisadores, são poluentes produzidos pelo próprio homem. O protagonista dessa história é o gás carbônico, gerado pela queima permanente de combustível em cada fábrica, carro, trator ou avião do planeta. Assim, voam para a atmosfera, todos os anos, quase 7 bilhões de toneladas de gás. E a conseqüência é imediata: como absorve calor com alta eficiência, o CO2 retém a energia térmica que a Terra, normalmente, jogaria para o espaço. Desde os anos 50, quando começaram a ser feitas as medições, já se acumularam no ar cerca de 60 bilhões de toneladas, que, somadas à quantidade natural dessa substância, dão um total de 750 bilhões de toneladas de gás carbônico pairando sobre nossas cabeças.

Diversos outros gases – como o metano, que exala das plantações de arroz e do intestino dos rebanhos – retêm calor, alguns até com mais eficiência do que o gás carbônico. Só que, por ser mais volumoso, o CO2 responde pela maior parte do aquecimento. A expectativa é que todos os gases juntos levem, nos próximos 100 anos, a um aumento de temperatura quatro ou cinco vezes maior do que o já provocado até agora. Ou seja, a Terra poderá subir, até 2100, mais 3 ou 4oC.

No quadro ao lado você vê algumas conseqüências que advirão, caso nada se faça para combater a febre do planeta. Remédios existem: o gás carbônico pode, por exemplo, ser enterrado no subsolo – injetado sob pressão em rochas porosas que não o deixariam escapar por muito tempo – ou no fundo do mar, onde se dissolveria na água por centenas de milhares de anos. O problema é que a solução, seja qual for, terá um preço alto. E não está claro, ainda, quem vai pagar.

Para saber mais

http://www.tyndall.uea.ac.uk

http://www.climateark.org

http://zope.greenpeace.org/z/pronk

fdieguez@abril.com.br

O gás do sufoco

Conseqüências do calor provocado pela emissão de gás carbônico por fábricas e carros

Calor doente

A população de mosquitos tende a crescer e a transmitir mais malária, febre amarela e dengue. Diversos estudos confirmam essa hipótese

Morte no mar

Estudo divulgado este ano mostra que 11% dos bancos de corais, muito sensíveis à temperatura, já estão mortos e mais 20% deverão desaparecer dentro de 30 anos

Gelo fino

As calotas polares já estão derretendo. Em algumas áreas, elas estão 40% mais finas que há dez anos. Animais como o caribu e o urso polar podem ser extintos

Fogo no chão

O gás carbônico misturado ao ar deixa passar a luz que vem do Sol. Mas bloqueia o calor que a luz cria ao bater no solo. Essa energia térmica que se acumula na atmosfera é que esquenta o planeta

Entressafra geral

As áreas desertificadas vão crescer em muitos países e reduzir a produção agrícola. Em alguns casos, como na África, drasticamente. O calor, por si só, tende a inviabilizar culturas de clima frio, como o trigo

Cidades afogadas

Com o gelo transformado em água, o nível dos oceanos vai subir, engolindo aos poucos as cidades costeiras. O Rio de Janeiro é uma das metrópoles em risco

Terra em brasa

Simulações de computador projetam a evolução da temperatura. Abaixo, vê-se a média global subir de 13,5oC, na década de 1860, para 14,5oC nesta década, e poderá chegar a 18oC, em 2100. O quadro ao lado projeta, para este ano, maior crescimento do calor em países próximos do Pólo Norte (vermelho) do que do Sul (rosa e rosa-claro)

1860 – 13,5 0 C

1900 – 13,7 0 C

1950 – 14,0 0 C

1980 – 14,2 0 C

2000 – 14,5 0 C

2040 – 15,5 0 C

2080 – 16,8 0 C

2100 – 18,0 0 C