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Miniparabólica: A revolução das pizzas

Uma miniantena parabólica, pouco maior que uma pizza, está revolucionando o mercado de TV por assinatura nos Estados Unidos. Ela oferece até 175 canais diferentes, com imagem e som de altíssima qualidade. A novidade deve aterrizar no Brasil ainda este ano.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h39 - Publicado em 28 fev 1995, 22h00

Heitor Shimizu

Você chega em casa, senta no sofá e liga a televisão. Indeciso sobre o que assistir, pula distraidamente de um canal a outro. Sem perceber, duas horas de cliques se passaram e você viu mais de cem canais diferentes. Ficção? Uma cena do desenho Os Jetsons? De volta para o futuro? Nada disso. É o novo método de transmissão de TV que está revolucionando o mercado de comunicação nos EUA.

Em junho de 1994, a RCA, fabricante de produtos eletrônicos, começou a vender um sistema de recepção de TV que utiliza antena parabólica. Mas não é uma parabólica comum, os imensos trambolhos que contribuem para a poluição visual das cidades. Ela é menor e oferece uma programação muito maior. Além disso, você mesmo pode instalar, até mesmo na janela da sua casa. Para completar, o som é da qualidade de um CD e a imagem de alta definição.

O consumidor paga pela antena 700 dólares (modelo simples), mais uma mensalidade que varia de acordo com o número de canais escolhidos. O preço ainda é alto. No Brasil, o modelo mais vendido da marca Santa Rita, por exemplo, custa 410 reais. Só que, com ela, o telespectador brasileiro sintoniza apenas os onze canais abertos (que qualquer um pode pegar sem pagamento), e mais oito que podem ser obtidos mediante assinatura.

Com a miniparabólica no Brasil, vai dar para assistir a pelo menos 72 canais, de uma única empresa de TV por assinatura. Ou seja: você paga mais, mas também leva mais. Foi por conta dessa vantagem que, nos Estados Unidos, apesar do preço elevado, foram vendidas mais de 600 mil unidades da “pizza” em menos de seis meses.

A miniparabólica pode ser tão pequena porque os satélites se sofisticaram. Satélites melhores, que produzem sinais mais fortes, mais fáceis de ser captados, não necessitam de grandes antenas. Hoje, uma pessoa pode receber mais de cem diferentes canais de TV. Menos de quarenta anos atrás, a única coisa que as gigantescas parabólicas da época, de mais de vinte metros de diâmetro, conseguiam captar era um único e contínuo bip eletrônico.

O bip, em 1957, era tudo a que se resumia a comunicação entre a Terra e o russo Sputnik, o primeiro satélite artificial construído pelo homem. “Comunicação” é modo de dizer. Só o que havia, de fato, era emissão de sinais do Sputnik para a Terra. Ele era apenas uma bola de aço de 83 quilos, mas foi fundamental para provar que a comunicação por meio de satélite era possível. Um ano depois, a primeira voz humana vinda do espaço era captada nos Estados Unidos. Tratava-se de uma mensagem gravada, onde o então presidente Dwight Eisenhower desejava Feliz Natal para os americanos, e foi transmitida pelo satélite americano Score.

Eisenhower não achava que as comunicações espaciais tinham futuro. O mundo agradece que ele tenha terminado o seu mandato de presidente em 1961. Porque, no ano seguinte é lançado o Telstar 1 da empresa americana AT&T, o primeiro satélite de comunicação (comunicação finalmente, recebendo e transmitindo informações, sem saudades do Sputnik). Este satélite, com o nome pouco modesto de “estrela das comunicações”, foi responsável pela primeira transmissão de TV entre continentes. A primeira imagem “via satélite” assistida pelo homem foi uma esvoaçante bandeira americana, enviada para algumas cidades da França e da Inglaterra.

O Telstar 1, assim como seus sucessores, operava numa faixa de frequência de ondas eletromagnéticas conhecida como “banda C”. Para visualizar o que isso vem a ser, imagine que a banda é uma estrada. Então, os sinais, seja voz, texto ou imagem de TV, seriam os carros. A banda C tem uma faixa de frequência muito alta, que vai de 4 a 8 Gigahertz (bilhões de ciclos por segundo). A rádio FM, por exemplo, opera numa faixa 60 000 vezes menor, de 88 a 108 Megahertz (milhões de ciclos por segundo).

Em 1963, veio uma nova geração de satélites. O Syncom 2 foi posto em órbita geoestacionária, parado em relação à Terra, acompanhando a rotação do planeta. Foi um passo importante. Hoje um satélite pode cobrir uma mesma área do planeta, 24 horas por dia.

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A maioria dos satélites de comunicação usados atualmente, é geoestacionária, inclusive os famosos DBS (Direct Broadcasting Satellites), que permitiram a criação da miniparabólica. O DBS por mandar um sinal mais potente, dispensa unidades retransmissoras em Terra. O seu sinal vai direto para a casa do telespectador. Esse sistema entrou em operação na década de 80, na Europa e no Japão.

Além do DBS, a miniparabólica se beneficiou de outro avanço na tecnologia dos satélites: a “banda Ku”. Os Intelsat V usam a faixa de frequência Ku desde o começo da década de 80. Mas esta banda especial nunca esteve tanto em evidência como agora. O motivo é que a Ku, por ter uma frequência mais alta (de 12,5 a 18 Gigahertz) que a C, pode emitir um sinal mais forte, fácil de ser captado pelas anteninhas. Voltando à comparação anterior, se a banda C fosse uma estrada, teria uma única faixa e a banda Ku seria uma rodovia de seis pistas.

No ano passado, quando a RCA lançou o sistema de transmissão direta por satélite, usando o DBS, causou um terremoto no mercado americano de TV por assinatura, ameaçando as empresas que atuam na área de TV a cabo. Não é à toa que a revista americana de divulgação científica Popular Science pergunta, na capa da edição de janeiro de 1995: “Você deve desconectar o seu cabo?”.

O método de distribuição de sinais de TV por cabos, originalmente coaxiais (de cobre), surgiu nos Estados Unidos no começo dos anos 50. A idéia era melhorar (ou tornar possível) a recepção das grandes emissoras de TV em áreas remotas.

A partir do final da década de 70, o cabo passou a oferecer uma programação mais diversificada. E surgiram muitos novos canais para explorar a ainda pouco usada tecnologia. Essa forma de transmissão tornou-se um sucesso, pela programação variada e pela facilidade de recepção. Hoje existem canais que transmitem somente videoclips, ou filmes, esportes ou cotações do mercado de capitais. Nos Estados Unidos, atualmente, 65% das casas estão “cabeadas”. Alguns serviços, nos grandes centros, chegam a oferecer 50 canais.

Mas esse velho sistema não se renovou tecnologicamente, transmitindo ainda sinais analógicos, por fios de cobre e não fibra ótica (salvo raras exceções). Além de não estar em todo o território americano, devido às dimensões do país e às dificuldades em instalar os fios elétricos.

Na eterna e implacável guerra industrial, ficar atrás em tecnologia é cometer suicídio. Para a cibernética revista Wired, o cabo está tired (cansado), enquanto o DBS está wired (ligado). No vacilo do cabo, entrou a RCA, com um novo, e muito melhor sistema de TV por assinatura. Poucos meses depois de lançado, o sistema da RCA vende 100 000 antenas por mês, e mais da metade dos compradores estão em locais já “cabeados”. Para bom entendedor: o cabo perde freguesia para as novas “pizzas”. A briga vai esquentar ainda mais a partir de maio de 1995, quando outra empresa começará a fabricar as miniparabólicas nos Estados Unidos, a japonesa Sony. O preço, provavelmente, vai baixar.

Mas a RCA não está sozinha nesse “cabo de guerra”. Uma outra companhia, a PrimeStar (cujos donos são a General Electric e o grupo Time-Warner), opera, desde 1990, um sistema parecido com o da RCA. O sistema da PrimeStar também é de transmissão direta à casa do espectador, usando para isso o satélite americano Satcom K-1. As desvantagens são que oferece menos canais (67) e a antena tem um metro de diâmetro, muito maior que uma pizza. E outra empresa, a EchoStar, pretende lançar um serviço, também usando o DBS, ainda em 1995.

O ano de 1995 também é a vez do Brasil: o DBS está chegando por aqui. No exato momento em que você está lendo esta reportagem, várias empresas estão trabalhando pela implantação do sistema no país.

Para saber mais:

A pizza sai do forno
(SUPER número 8, ano 10)

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