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Mutirão digital

Milhões de pessoas estão trabalhando de graça pelo bem comum neste momento. Quem diria, a web nos deixou mais generosos. E menos preocupados com a grana

Texto Sara Godinho

Ao conectar boa parte do mundo, a internet anabolizou um velho hábito da humanidade: o mutirão. Em vez de reunir os vizinhos para ajudar a consertar o telhado, passamos a reunir milhares de pessoas ao redor do mundo para tentar dar um jeito nas mudanças climáticas, na ditadura iraniana ou no Senado brasileiro. Err… Bem, é verdade que nem sempre dá certo. Muitas dessas ações não conseguem ir além de um malsucedido abaixo-assinado ou mobilização pelo Twitter. Mas não faltam exemplos efetivos de que o trabalho coletivo na internet está mudando o mundo pra valer. E que a tendência é só aumentar.

Grandes tragédias costumam causar grandes mobilizações na rede. Foi pela internet que os brasileiros se reuniram no ano passado para arrecadar doações para as vítimas das chuvas em Santa Catarina. Os americanos já tinham dado o exemplo na hora de dar uma força à população atingida pelo furacão Katrina. Aliás, o mutirão ainda não foi desmobilizado: é pela internet que um conjunto de ongs vem tentando localizar pessoas desaparecidas desde 2005. O Katrina PeopleFinder Project (“Projeto de Achar Gente Katrina”) encontra e mantém em contato refugiados que antes viviam juntos – uma tentativa de não dispersar o espírito de grupo das pequenas comunidades.

A internet criou até novos modelos de ajudar o mundo a se desenvolver. O microfinanciamento é um deles. Feito a partir de sites como o Kiva.org, ele serve para integrar pequenos empreendedores que não têm acesso ao crédito formal em bancos com gente que tem recursos para emprestar e se dispõe a ajudar. Em outras palavras: conecta um fazendeiro do Paquistão que precisa comprar uma vaca com você – que talvez tenha uns trocados para investir na vaca do sujeito. Um tempo depois, o dinheiro volta para o credor, que pode ajudar outras pessoas a melhorar de vida. E o que permite que tudo isso aconteça é o fluxo de dinheiro na internet, mais fluido que o do sistema financeiro internacional.

Os mutirões acabam sendo vantajosos para todo mundo. Até mesmo para o Facebook, hoje um gigante da rede. O site permite que seus usuários criem aplicativos que rodam dentro dele. Tem de tudo: desde testes para você saber que sabor de sorvete você seria até ferramentas mais complexas, capazes de criar redes sociais dentro do próprio Facebook – que é uma rede social! Quem cria o software tem como vantagem dispor dos 250 milhões de usuários do site que já estão lá dentro. Já o Facebook ganha uma função que não tinha antes – sem pagar nada por isso.

A mesma lógica vale para quem ajuda a classificar imagens em sites como o Flickr, quem indica e vota nos links de sites colaborativos como Digg.com, escreve resenhas em livrarias virtuais, e assim por diante. De certa forma, é um trabalho gratuito, em que a recompensa é uma reputação pelo trabalho realizado – o popular e muito subestimado tapinha nas costas. E quem dera todo trabalho fosse tão gostoso de ser feito.

Nem todo mutirão é, necessariamente, bom. Às vezes, o resultado do trabalho coletivo é, no mínimo, dúbio. Nas próximas páginas, por exemplo, você vai ver como uma rede de contrabando consegue vender pen drives de 128 gigabytes a R$ 30 e ler uma matéria que mostra que a internet também favoreceu a traição – que, mais do que nunca, está em alta. Na reportagem sobre pirataria, dá para perceber que algumas coisas são até difíceis de julgar. Afinal, a internet mudou a maneira como vivemos e até mesmo alguns dos nossos hábitos (hoje em dia, um terço dos americanos lê e-mails logo que acorda, antes do café-da-manhã). Mas leis sobre direito autoral são mais difíceis de adaptar à velocidade com que nossa vida evolui.

Trabalhar em equipe não é uma novidade, como alguns coletivos da próxima página vão mostrar. Mas, com novas ferramentas, como o Google Wave (leia ao lado), os mutirões digitais vão pautar a internet nos próximos anos, transformando cada vez mais a natureza das colaborações. Só a nossa natureza é que não vai mudar. Somos, e seremos cada vez mais, seres sociais.

O site World Community Grid permite que gente do mundo todo doe tempo ocioso de seus computadores para ajudar em pesquisas para causas humanitárias e sem fins lucrativos, como combater o câncer e desenvolver tecnologias de energia limpa.