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Na era da bionáutica: as tecnologias na sala de cirurgia

Olhos, braços e cérebros eletrônicos fazem do médico um bionavegante, que viaja pelo corpo humano em busca de caminhos mais certeiros e menos traumáticos para as cirurgias.

Wanda Nestlehner

Cem anos depois da descoberta dos raios X, em 1895, a tecnologia à disposição dos cirurgiões beira a ficção científica. A informática e a robótica, associadas a outras áreas do conhecimento, fizeram dos médicos verdadeiros “bionautas”, capazes de viajar pelo corpo do paciente.

Os veículos que conduzem esses navegantes são os mais diversos. Um deles, o Signa MRT, estreou no final do ano passado e continua em testes no hospital Brigham and Women’s, em Boston, Estados Unidos. É uma nova versão da câmara de ressonância magnética nuclear. O aparelho, que há dezesseis anos revolucionou as técnicas de diagnóstico, agora acomoda em seu interior o próprio cirurgião.

“Lá dentro, o paciente fica transparente”, explicou a SUPER Brian Johnson, técnico da General Eletric, dona do projeto. A mágica se explica: o aparelho produz um campo magnético mil vezes maior do que o da Terra. Assim, excita os núcleos dos átomos de hidrogênio do corpo. Como nenhum tecido reage da mesma forma a essa excitação, as diferenças permitem gerar imagens tridimensionais do interior do organismo. Operando dentro desse superolho eletrônico, o médico acompanha, ao vivo, o percurso de seus instrumentos nos órgãos.

A sala de cirurgia está deixando de ser domínio exclusivo de médicos e enfermeiros. Um outro tipo de auxiliar gradativamente se junta a essa equipe. É o robô. Ele não está sujeito à temida falha humana e a cada dia ganha mais autonomia. Pode ajudar o cirurgião a localizar um tumor, ou, no futuro, até substituí-lo, fazendo sozinho a operação. Há quem espere que um dia ele dispense, inclusive, a presença física do médico.

“Você, aí no Brasil, poderá ser operada por um cirurgião nos Estados Unidos”, exemplificou para SUPER um dos coordenadores do projeto de telecirurgia na Universidade de Virgínia, Estados Unidos, o neurocirurgião Neal Kassel. Um sistema de comunicação rápida, por fibra ótica, permite que o médico acompanhe as imagens da operação e emita, por computador, ordens ao robô. A máquina, por sua vez, estará programada para imitar os movimentos do médico em escala reduzida. De acordo com Kassel, em seis meses será possível realizar a primeira telecirurgia num ser humano.

De posse de ferramentas como essa, o cirurgião acaba por se converter numa espécie de piloto. Para usar uma expressão corrente entre os aeronautas, poderá “operar por instrumentos”. Na verdade, ele já vem fazendo isso.

Microcirurgias delicadas, como as de cérebro, seriam impossíveis sem o auxílio de microscópios que potencializam a visão do homem. Os endoscópios também funcionam como extensões dos olhos e dos braços desses pilotos da medicina, que alcançam recantos escondidos do organismo, sem necessidade de grandes incisões e diminuindo o risco de infecção. Até a vestimenta do cirurgião evoluiu. Se fosse vivo, o físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen, que há um século descobriu os raios X, não acreditaria.

Para saber mais:

Doutor robô

(SUPER número 1, ano 2)

A invasão da luz

(SUPER número 10, ano 3)

A febre do fio maravilha

(SUPER número 11, ano 10)

Quem tem medo desta sala?

Do piso ao aparelho de anestesia, conheça a tecnologia à disposição de médicos e enfermeiros na sala de cirurgia.

Mesa cirúrgica

Apóia-se sobre uma base hidráulica e pode ser movida por controle remoto. Um tampo radiotransparente facilita a realização de radiografias durante a operação.

Manta térmica

Uma corrente de água quente ou fria circula em seu interior, para aquecer ou resfriar o paciente.

Focos de luz

São controláveis para atingir campos maiores ou menores com diferentes intensidades. As luz das lâmpadas de tungstênio é filtrada para distinguir o sangue venoso do arterial.

Aparelho de anestesia

Controla ritmo cardíaco, pressão e possui analisador de gases. Dosa o anestésico e substitui o pulmão do paciente, fornecendo oxigênio. Purifica o ar exalado, sem retirar o anestésico, e o devolve ao paciente. Com isso, economiza-se anestesia, que é cara. Um sistema de alarmes avisa sobre qualquer irregularidade.

Monitor de constantes vitais

Usado quando o aparelho de anestesia não conta com suficientes recursos.

Aquecedor de sangue

Permite que o paciente receba sangue na temperatura do organismo.

Bisturi elétrico

Gera uma corrente elétrica de alta freqüência. A corrente circula por um cabo até agulhas ou pinças com as quais se pode cortar, cauterizar e coagular.

YAG laser

Gerador para bisturi a laser, usado, principalmente, para a cauterização de tumores. O bisturi pode entrar no organismo via sondas.

Monitor de vídeo

Imprescindível nas operações feitas com endoscópios, sondas que levam luz, microcâmaras e instrumentos cirúrgicos para dentro do organismo. Os médicos trabalham apenas olhando pelo monitor. Associado ao aparelho de videocassete, permite gravar as cirurgias com objetivos didáticos.

Piso

A composição deve incluir material condutivo e malha de cobre, para evitar acidentes elétricos. Alguns hospitais preferem a cor preta, mais eficiente para denunciar a presença de pó.