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O fiasco do Skylab

Leonardo Fuhrmann

Erro – Falhas de projeto e de avaliação resultaram em danos à estrutura da estação espacial logo em seu lançamento.

Quem – Nasa, a agência espacial americana.

Quando – 1973.

Consequências – Menos da metade das pesquisas científicas inicialmente planejadas pôde ser feita; a vida útil da estação foi abreviada; e o mundo todo ficou com medo de ver um pedaço do Skylab cair na cabeça de alguém.

Precursor da estação espacial soviética Mir e da atual Estação Espacial Internacional, o Skylab prometia grandes avanços científicos. A engenhoca foi colocada em órbita pela Nasa, a agência espacial americana, no ano de 1973. Tinha exatos 36 metros de comprimento, 6,7 metros de diâmetro e pesava 91 toneladas. Tratava-se, portanto, do maior objeto enviado ao espaço pelo homem até então. Serviria de laboratório para pesquisas que, na Terra, não seriam possíveis. Um dos objetivos era avaliar a capacidade dos seres humanos de viver no espaço por longos períodos. Outro era coletar informações mais precisas sobre o Sol, sem a interferência da atmosfera terrestre.

Três anos depois de lançado, porém, o Skylab deu um tremendo chabu. Saiu do controle, despedaçou-se ao reentrar na atmosfera da Terra e deixou todo mundo em pânico, temendo que um pedaço caísse na cabeça de alguém. O episódio entrou para a história como uma das grandes trapalhadas da Nasa.

Vibrações imprevistas

Os problemas com o Skylab começaram logo no lançamento. Vibrações que não haviam sido previstas pelos engenheiros da Nasa acabaram provocando a perda de um de seus painéis solares e do escudo que protegeria a fuselagem de eventuais impactos de meteoroides. Para piorar, os destroços do escudo perdido atingiram o painel solar restante, o que impediria sua plena abertura quando o laboratório entrasse em órbita.

A solução foi manobrar o Skylab – remotamente, já que ele não contava com tripulantes – para que o painel remanescente captasse o máximo de energia. O efeito desse contratempo acabaria sendo sentido na pele pela primeira tripulação, que chegou à estação no dia 25 de maio de 1973 (a bordo de um módulo Apollo) para um mês de estadia. O comandante Charles Conrad, o piloto Paul Weitz e o astronauta cientista Joseph Kerwin descobriram que o funcionamento de um único painel provocava superaquecimento do laboratório. A temperatura interna chegava a 52 graus. Em vez de pesquisas, os tripulantes passaram a maior parte do tempo fazendo consertos e gambiarras para que não morressem de calor.

Morte precoce

Segundo Charles Dunlap Benson e William David Compton, autores de Living and Working in Space: A History of Skylab (“Vivendo e Trabalhando no Espaço: Uma História do Skylab”, inédito no Brasil), a verdade é que os equipamentos da estação espacial americana sempre foram altamente suscetíveis a falhas. Durante os 8 meses que antecederam seu lançamento, um terço deles exigiu reparos e 20% apresentaram problemas mecânicos durante sua instalação.

Depois de mais duas conturbadas missões (leia mais no quadro à direita), a estação foi abandonada em órbita, a 455 quilômetros de altitude. Ali, os cientistas da Nasa esperavam que o Skylab permanecesse por pelo menos mais 10 anos – garantindo ao programa espacial americano, assim, a possibilidade de reativá-lo em algum momento. Mas um período de fortes tempestades solares, que também não foi previsto pelos engenheiros da Nasa, começou a empurrá-lo de volta para a Terra. Até que, no dia 11 de julho de 1979, a estação desmanchou-se ao reentrar na atmosfera terrestre.

Probabilidades

A chance de um pedaço do Skylab atingir uma pessoa, nas contas da agência espacial, não era nada desprezível: uma em 152. E a possibilidade de uma cidade com pelo menos 100 mil habitantes ser atingida era ainda mais preocupante: uma em apenas 7. Felizmente, os destroços caíram sobre o oceano Índico e áreas desabitadas do oeste da Austrália.

Aquém do esperado

Mais de 60% das experiências que seriam feitas no Skylab acabaram não acontecendo. Mesmo assim, o saldo científico não foi de todo mau.

• Cerca de 300 experimentos foram realizados em aproximadamente 2 000 h de trabalhos científicos.

• Mais de 127 mil fotos do Sol e 46 mil da Terra foram tiradas, além de uma extensa produção de filmes.

• No total, o Skylab orbitou a Terra 2 476 vezes nos 171 dias em que esteve ocupado por astronautas.

Telescópio míope
Por pouco, o Hubble também não acabou se transformando num grande fracasso

Outro projeto da Nasa que, por pouco, não terminou num enorme fiasco foi o do telescópio espacial Hubble. Colocado na órbita da Terra no dia 24 de abril de 1990, ele prometia revelar os segredos mais ocultos do Universo, já que seria capaz de “enxergar” – e fotografar – mais longe do que qualquer outro telescópio. Assim que entrou em operação, no entanto, descobriu-se que, em virtude de um grosseiro erro de projeto, seu espelho principal apresentava uma curvatura inadequada – o que impedia que o Hubble conseguisse focar com precisão os corpos celestes que ele tentava fotografar. Como trocar esse espelho em órbita era caro e muito difícil, o jeito foi desenvolver uma lente corretiva, instalada com sucesso em dezembro e 1993. Assim, o telescópio espacial voltou a “enxergar”, salvando a agência espacial americana de mais um papelão.

Show de horror

Nas duas missões que se seguiram à primeira, a tripulação teve mais tempo para o trabalho científico. Mas elas também foram marcadas por algumas trapalhadas

2ª MISSÃO

Tripulantes: Alan Bean (comandante), Jack Lousma (piloto) e Owen Garriott (cientista).

Permanência no Skylab: 60 dias.

Quando: entre julho e setembro de 1973.

Trapalhada: a tripulação enfrentou problemas sérios na hora de acoplar o módulo Apollo à estação espacial, o que obrigou a Nasa a deixar uma equipe de resgate em prontidão.

3ª MISSÃO

Tripulantes: Gerald Carr (comandante), William Pogue (piloto) e Edward Gibson (cientista).

Permanência no Skylab: 84 dias.

Quando: entre novembro de 1973 e fevereiro de 1974.

Trapalhada: os astronautas tentaram esconder do comando, logo no início da missão, que um dos integrantes passava mal – vítima da chamada síndrome de adaptação ao espaço.