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Previsão do tempo: Sujeito a chuvas e trovoadas

Mesmo na era dos satélites que fotografam o mundo a grandes alturas. prever o tempo ainda é uma tarfea difícil, nem sempre bem-sucedida, mas certamente fascinante

Martha San Juan França

Tente fazer uma experiência. Encha um recipiente com nitrogênio e oxigênio, acrescente pequenas quantidades de vários outros gases e complete com vapor d’água. Misture bem, mantendo tudo em movimento, e procure adivinhar qual vai ser o resultado. Agora imagine que a mistura é a atmosfera e o recipiente, o globo terrestre. E que para a experiência ficar completa é necessário juntar outros ingredientes, como florestas, oceanos, poluição, montanhas, desertos, cidades. Pronto: por aí pode-se ter uma idéia de quanta coisa deve ser levada em conta para produzir todo santo dia, faça chuva ou faça sol, a informação que irá aparecer inevitavelmente na primeira página de todo bom jornal, a previsão do tempo.

Mesmo na era dos satélites meteorológicos e dos computadores capazes de analisar num abrir e fechar de olhos os dados colhidos do espaço, a tarefa de saber o tempo que vai fazer no dia seguinte, para não ir mais longe, continua sujeita a chuvas e trovoadas em qualquer lugar do mundo. Ainda mais num pais tropical, como é em boa parte o Brasil, onde os fenômenos meteorológicos, como as chuvas de verão, podem acontecer sem prévio aviso. de uma hora para outra. e onde a tecnologia de previsão do tempo está atrasada trinta anos.A combinação desses dois fatores está na origem dos erros de previsão que infernizam a vida das pessoas que saem de casa preparadas, por exemplo, para um dia de frio, como avisou o homem do tempom, e sucumbem cheias de pulôveres à sauna de um sol africano – ou o contrário . Diz o professor Silvio de Oliveira, do Instituto de Astronomia e Geofísica da USP e diretor do 7 Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia (Inemet): “Há casos em que, mesmo com todas as informações de que dispomos,não é possível prever mudanças no tempo.Todo o mecanismo de previsão se baseia nos movimentos do ar em regiões de alta e baixa pressão. O ar quente, por ser mais leve, isto é, menos denso, tende a se deslocar para as camadas mais altas da atmosfera, empurrando o ar frio que ali se encontra para os níveis mais baixos. Ao se aproximar da superfície, o ar frio se aquece. Aquecido, volta a subir, repetindo-se, então, o ciclo. Quanto o movimento ascendente do ar ocorre numa atmosfera instável, ou seja, onde a temperatura é mais baixa que a do ar que está subindo, pode-se iniciar o processo de condensação, formando as nuvens.

O hemisfério sul tem uma porção pequena de terra, comparada com a superfície de água. Por isso, as massas de ar que invadem o continente são todas úmidas e não muito frias. O ar tropical marítimo é a massa de ar predominante na América do Sul. Sua estabilidade e condições de tempo variam de um lugar para o outro. Na área banhada pelo Atlântico os ventos sopram geralmente do noroeste para o sudeste. Depois que chegam ao interior do Brasil podem voltar bruscamente para o Sul ou virar para as áreas amazônicas e Nordeste.

Resultado das ações das massas de ar, as frentes frias ou quentes são importantes como zonas de transição. Embora as massas de ar tenham condições mais ou menos uniformes, podem ocorrer grandes mudanças nas frentes; assim, por exemplo, surgem as nuvens espessas de chuva. As frentes mais comuns têm ar úmido, quente, de um lado, e ar frio, quase sempre seco, do outro. Na sua superfície inclinada, o ar quente fica em cima e o frio, embaixo. Conforme os movimentos do ar frio e quente, por ação dos ventos, a temperatura em dada região subirá ou baixará.

O trabalho dos meteorologistas é vigiar a direção e o comportamento dessas inconstantes massas de ar. A medição da pressão, temperatura, umidade e direção do vento é feita em estações de controle e coleta de dados. A nível internacional, essa atividade pode ser comparada a uma imensa orquestra, cujo maestro se chama Organização Meteorológica Mundial (OMM), filiada à ONU e com sede em Genebra, Suíça. Por determinação da OMM, os Estados Unidos, onde se concentram os mais sofisticados aparelhos de previsão do tempo das Américas, são responsáveis pela reunião dos dados coletados no continente. O Inemet, que centraliza os dados referentes ao Brasil, recebe dos EUA informações sobre toda a América Latina.

Para o Brasil, o Inemet se vale das informações coletadas três vezes por dia pelos termômetros, barômetros, anemômetros (que medem a velocidade dos ventos), heliógrafos (medem a radiação solar) e outros aparelhos instalados nas 250 estações chamadas de superfície existentes no pais – e onde quase sempre faltam funcionários. Além disso, todas as manhãs, a Aeronáutica lança em doze aeroportos balões equipados com pequenos transmissores de rádio descartáveis que pesam apenas 190 gramas. Esses transmissores, as radiossondas chegam até 33 mil metros – portanto, já na estratosfera. À medida que sobem, enviam às estações receptoras de terra, conhecidas como estações de altitude, as informações que vão recebendo.De posse desse conjunto de dados, os meteorologistas podem montar um quadro tridimensional do que está acontecendo na atmosfera. Os números são anotados de forma padronizada ou plotados, como dizem os especialistas. nos mapas do tempo – as cartas sinóticas. Com a ajuda das imagens de satélites e radares, os técnicos enfim traduzem as cartas em linguagem acessível aos leigos. A moderna previsão de tempo beneficia-se dos computadores que permitem fazer uma enormidade de cálculos em um período muito curto. Um meteorologista demora duas horas para desenhar uma carta sinótica. Um computador se desincumbe dessa tarefa em cinco minutos. Mas não é só isso.Com uma série de equacões, que representam princípios da física aplicados ao estudo da atmosfera, o computador pode oferecer previsões mais confiáveis e detalhadas com até dez dias de antecedência.

É por isso que o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) tem um sonho: comprar um supercomputador, construído sob encomenda nos Estados Unidos, que realiza cálculos à velocidade de 100 mips (milhões de instruções por segundo), para prever o tempo em toda a América do Sul com pelo menos 48 horas de antecedência.Para complementar os dados das cartas sinóticas, o Brasil dispõe dos serviços de uma família de satélites meteorológicos. Os da série Tiros-N, norte-americanos, de órbita polar estão estacionados a uma altura 600 a 900 quilômetros e completa uma volta em torno da Terra a cada cem minutos. Os da série Goes, também norte-americanos, e o europeu Meteosat estão estacionados 36 mil quilômetros em órbita equatorial geoestacionária. As imagens desses satélites são as mais utilizadas porque cobrem extensas áreas do globo e chegam a cada trinta minutos. Graças a eles, é possível fazer o mapeamento das frentes quando estão ainda sobre o Oceano Pacífico. “Localizá-las ali é importante”, explica Luiz Carlos Molion, do CPTE, “porque a maioria dos fenômenos climáticos que alcançam o Brasil provém do oeste, passando pelo sul.”

Apesar do atraso tecnológico da meteorologia brasileira em comparação com o Primeiro Mundo, o Brasil único país da América Latina que põe de equipamentos para analisar as imagens dos satélites. Isso faz uma boa diferença: segundo Luiz Gylvan Meira Filho, chefe do CPTEC, um técnico, apenas olhando as cartas sinóticas, sem o auxilio do computador, pode acertar uma em cada três previsões de até 36 horas; trabalhando com o computar os acertos chegam a 50% – o que corresponde aos índices obtidos nos Estados Unidos há vinte anos. “Estamos nos preparando para fazer previsões com 80% de Índice de acertos”,diz Luiz Gylvan. Por isso quando a meteorologia prevê tempo bom, talvez não seja um exagero de prudência, apanhar o guarda-chuva em casa. Resta um consolo: embora a previsão a curto prazo seja mais difícil nos trópico que nas zonas temperadas, a longo prazo o clima é mais previsível nos países tropicais.

A longo prazo, é mais fácil prever o clima nos trópicos

A previsão de médio e longo prazo é fundamental para a agricultura, vítima de secas e geadas. Há estimativas de que, em média, 30 por cento das safras são perdidas por problemas climáticos. Dispondo de dados fornecidos pelo Inemet, os agricultores podem antecipar ou adiar a época do plantio. Pelo menos no que se refere ao Nordeste e às travessuras do El Ninõ, fenômeno que acontece no Pacífico mas afeta o clima do mundo todo, o Brasil tem condições de fazer uma boa previsão.”Se percebemos um aquecimento anormal do Pacífico equatorial e observamos uma série de mudanças na circulação da atmosfera naquela região, sabemos que El Ninõ está em ação e depois de alguns meses vai afetar o Brasil”, explica Carlos Nobre, editor da revista Climanálise e pesquisador do INPE. Os especialistas do INPE sabem também que o aquecimento das águas do Atlântico está relacionado com a seca no Nordeste. “Quando as águas do Atlântico norte tropical estão quentes em janeiro e as do Atlântico sul tropical estão mais frias, é bastante provável que o ano será seco no Nordeste semi-árido”, afirma Nobre.

Para saber mais:

Climas do outro mundo

(SUPER número 6, ano 2)

O fim da natureza

(SUPER número 2, ano 4)

Redomas de calor

(SUPER número 4, ano 6)

Um susto com data marcada

(SUPER número 3, ano 7)

O que a ciência sabe ( e o que a ciência não sabe)

(SUPER número 6, ano 9)

Depois de dez dias, o imprevisível

Previsão com meses de antecedência para que a noiva possa escolher o tipo de vestido que vai usar no grande dia. Avisos de tempo bom para programar festas juninas. Esse tipo de profecia nenhum instituto de meteorologia pode fazer. Mas não são raros os telefonemas ao Inemet de pessoas interessadas em saber se vai chover ou não num futuro menos próximo do que gostariam os técnicos. Eles explicam que, em qualquer parte do mundo, as previsões mais sofisticadas se limitam a dez dias de antecedência – pela própria inconstância das condições físicas da atmosfera. Depois disso, os meteorologistas só podem falar em tendências do tempo. E este é um trabalho para a climatologia.

A previsão de médio e longo prazo é fundamental para a agricultura, vítima de secas e geadas. Há estimativas de que, em média, 30% das safras são perdidas por problemas climáticos. Dispondo de dados fornecidos pelo Inemet, os agricultores podem antecipar ou adiar a época do plantio. Pelo menos no que se refere ao Nordeste e às travessuras do El Niño, fenômeno que acontece no Pacífico mas afeta o clima do mundo todo, o Brasil tem condições de fazer uma boa previsão.

“Se percebemos um aquecimento anormal do Pacífico equatorial e observamos uma série de mudanças na circulação da atmosfera naquela região, sabemos que o El Niño está em ação e depois de alguns meses vai afetar o Brasil”, explica Carlos Nobre, pesquisador do INPE. Os especialistas do INPE sabem também que o aquecimento das águas do Atlântico está relacionado com a seca no Nordeste. “Quando as águas do Atlântico norte tropical estão quentes em janeiro e as do sul tropical estão mais frias, é bastante provável que o ano será seco no Nordeste semi-árido”, afirma Nobre.

Quando falha a máquina do tempo

No último dia 21 de agosto, a previsão do Inemet para o Estado de São Paulo era a seguinte: “Tempo parcialmente nublado com períodos de claro. Temperatura estável, mínima entre 8 e 15 e máxima entre 14 e 28. Ventos do quadrante este fracos e moderados. Visibilidade boa”. Naquele dia, para azar de quem acredita na meteorologia, choveu em São Paulo e também no Sul do país. O que deu errado? A carta sinótica e a imagem do satélite Goes-7 indicavam que a zona de baixa pressão e de convergência de vento sobre o Nordeste não chegaria a São Paulo. Nesse Estado e no Sul reinaria a massa de ar polar, produzindo tempo frio mas estável. A imagem do satélite não apontava a grande nebulosidade a sobre região. Por motivos não explicados, os ventos naquele dia foram mais velozes do que os meteorologistas previram. A zona de baixa pressão se expandiu até o Rio Grande do Sul, provocando chuva ao entrar em contato com a massa polar. Falharam as previsões, o computador e até o Centro Nacional de Meteorologia de Washington, que forneceu parte das informações.